t. h. abrahao
Fundador PN

: 41 Joined: 22 Jan 2005 Posts: 574 Location: são josé do rio preto - sp
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Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado
Há, em "Clube da Luta", uma idéia em princípio interessante. Ou ao menos assim parece, quando se assiste ao filme com benevolência: a de que o vazio ético conduz a todos os males, da violência física ao niilismo; da loucura clínica à alienação social; do uso de drogas à criminalidade. Filme não é tratado de psicanálise e o mais provável é que cada uma dessas mazelas tenha mais de uma causa. No entanto, por vezes uma obra de arte toca em alguns desvãos mais escondidos do que sonha a nossa vã sociologia.
No entanto, esse tipo de filme coloca ainda outro tipo de pergunta: ele é denúncia da situação intolerável ou simplesmente participa dela? Fala da doença ou é apenas o seu sintoma? Não é fácil decidir, mesmo porque nada mais inútil que perguntar ao autor qual foi a sua intenção. Em geral, autores são os menos qualificados para interpretar as próprias obras. Estão envolvidos demais, não têm distanciamento crítico e, na maior parte das vezes, deixam escapar as implicações daquilo que fazem. O que falam faz parte da peça promocional do "produto".
Porém, não é difícil deduzir o que há por trás de "Clube da Luta". A própria oscilação de tratamento do tema dá a pista ao espectador. No começo, a inovação temática e de linguagem saltam à vista. O filme progride por surpresas, embora estas se devam a uma estética do videoclipe, base da formação de David Fincher. Curiosamente, da segunda parte em diante, há um regresso ao tradicionalismo, em que se lança mão da inevitável teoria conspiratória. Além disso, o recurso ao desdobramento da personalidade é para lá de batido. E não adianta o personagem citar Doutor Jeckyll e Mister Hyde para se desculpar do "empréstimo". É de lá mesmo, de Stevenson, e de certa vulgarização da psicanálise, que vem a parte "cabeça" de "Clube da Luta".
Quando, por uma passagem pouco sutil, Edward Norton tenta salvar a parte "sadia" da sua personalidade, nada mais resta de subversivo ao filme. Fica dele a exaltação da violência, em que o embrutecimento das pessoas, além do uso de roupas pretas, evoca rapidamente o fascismo - para quem se lembra do tempo em que fascistas mostravam a cara. A pergunta volta: será que Fincher não está justamente denunciando o culto à violência e a fascistização da sociedade norte-americana? Bem, trata-se de uma opinião, mas seria mais fácil acreditar em Papai Noel e no coelhinho da Páscoa ao mesmo tempo. Simplesmente porque não há sombra de olhar crítico sobre aquilo que está sendo narrado. A "poética" da violência se desenvolve sem que nada a atrapalhe, ou coloque um contraponto ou uma contradição. Isso apenas acontece, e da maneira tosca descrita acima, no fim da história.
No resto, o que se pinta é uma paisagem nada menos que sórdida, na qual doentes terminais podem ser usados para combater a insônia de um desocupado, um grupo de apoio a pessoas tem o mesmo valor ontológico que sexo compulsivo ou uma briga de rua, a formação de grupamentos confusamente anarquistas esconde uma vocação paramilitar de direita. Nesse ambiente, inútil dizer que o ser humano vale menos que nada. É o que fica do filme. De resto, ele não acrescenta grande coisa, nem à arte nem à compreensão do mundo. Mas o fato de ser alegremente saudado como obra-prima, isso sim nos informa muito sobre esse estranho e nada admirável mundo novo. |
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t. h. abrahao
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| não só por ter cenas niilistas (e sem brincadeira agora, pois são cenas niilistas mesmo), mas por trabalhar com o problema da esquizofrenia... Clube da Luta, dizem, é um filme que não tem meio termo: ou você ama ou odeia. só não consigo entender porque odiariam um filme desses. será que é porque mostra a realidade crua e fria? não sei... há passagens que nos fazem pensar, e isto é essencial num filme que nos queira dar uns tapas na cara bem dados. ahhh, então é isso: as pessoas não entendem o filme e aí odeiam a película. Rá! vermes! que assistam, então, Xuxa e os Doendes! |
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