Vladimir Maiakóvski... Vladimir Maiakóvski... Maiakóvski... Maiakóvski... Kóvski... Ski! Este foi cabeçudo... mais um pra lista, hehehe. O nome diz por si: era russo. E não posso falar de literatura russa porque sou um tremendo puxa-saco deles. Dostoiévski que o diga! Mas o Maiakóvski foi um poeta, digamos, político. Brecht se encaixaria nesta definição também. Ferreira Gullar também... não estou dizendo que os outros poetas não sejam, mesmo porque o ser-poeta define alguém com certa propensão a vislumbrar as coisas sem um véu tampando a cara, seja lá o assunto que for. Mas estes poetas que citei se destacaram na crítica política. Brecht contra a situação da Alemanha, Gullar contra a Ditadura brasileira e Maiakóvski contra o capitalismo, em plena revolução socialista de 1917. Belo contexto, ham? Conseguiu realizar poesia participante sem abdicar do espírito criativo. Como um bom poeta, enxergou os novos e contraditórios conteúdos do tempo e as novas formas que estes demandavam. Era um poeta de invenção também. Não se fixava a estilos, tanto é que disse que "sem forma revolucionária não há arte revolucionária". E isso, de certa forma, foi niilista.

Guerra e Paz
(Prólogo)
Vós outros tendes sorte.
A vergonha não cai sobre os mortos.
Julgais
que o mais puro dos líquidos lava
O pecado da alma que se evola.
Tendes sorte.
Mas eu
como levarei meu amor à vida
através das fileiras,
através do estrondo?
Apenas um passo falso
e a migalha do último e pequenino amor
rolará para sempre num torvelinho de fumo.
Aqueles que regressam
que lhes importa
vossas tristezas?
Que falta lhes faz
a franja de alguns versos?
Basta-lhes um par de muletas
com que renguear pelo resto da vida.
Tens medo?
Covarde!
Te matarão!
E tu,
tu poderias viver escravo
cinquenta anos mais.
Mentira!
Sei
que na lava do ataque
serei o primeiro
em audácia,
em valor.
Ah! Que bravo recusaria atender
ao toque de rebate do futuro?
Mas na terra
hoje
sou o único arauto das verdades em marcha!
Hoje estou exultante!
Sem desperdiçar nem uma gota, despejei minh'alma até o fim.
Minha voz,
a única humana,
entre lamentos e gemidos
ergue-se a luz do dia.
Depois
atai-me a um poste,
fuzilai-me!
Por causa disso
haverei de mudar?
Na fronte
desenharei um alvo
para que nítido se destaque
quando apontem."
A Flauta Vértebra
A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.
A Sierguéi Iessiênin
Você partiu, como se diz,
Para o outro mundo.
Vácuo...
Você sobe, entremeado às estrelas.
Nem álcool, nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
Não posso fazer troça.
Na boca uma lasca amarga não a mofa.
Olho
Sangue nas mãos frouxas,
Você sacode o invólucro dos ossos.
Sim
Se você tivesse um patrono no "Posto"
Ganharia um conteúdo bem diverso:
Todo dia uma quota de cem versos,
Longos e lerdos, como Dorônin.
Remédio?
Para mim, despautério:
Mais cedo ainda
Você estaria nessa corda.
Melhor morrer de vodca que de tédio !
Não revelam as razões desse impulso,
Nem o nó,
Nem a navalha aberta.
Pare, basta !
Você perdeu o senso? -
Deixar que a cal mortal Ihe cubra o rosto?
Você, com todo esse talento
Para o impossível;
Hábil como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho! - a crítica esbraveja.
Tese: refratário à sociedade.
Corolário: muito vinho e cerveja.
Sim, se você trocasse a boêmia pela classe;
A classe agiria em você,
E Ihe daria um norte.
E a classe, por acaso
Mata a sede com xarope?
Ela sabe beber - nada tem de abstêmia.
Talvez, se houvesse tinta no "Inglaterra";
Você não cortaria os pulsos.
Os plagiários felizes pedem: bis!
Já todo um pelotão em auto-execução.
Para que aumentar o rol de suicidas?
Antes aumentar a produção de tinta!
Agora para sempre tua boca está cerrada.
Difícil e inútil excogitar enigmas.
O povo, o inventa-línguas,
Perdeu o canoro contramestre de noitadas.
E levam versos velhos ao velório,
Sucata de extintas exéquias.
Rimas gastas empalam os despojos, -
É assim que se honra um poeta?
-Não te ergueram ainda um monumento -
Onde o som do bronze ou o grave granito? -
E já vão empilhando no jazigo
Dedicatórias e ex-votos: excremento.
Teu nome escorrido no muco,
Teus versos,
Sóbinov os babuja,
Voz quérula sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo, nem so-o-luço".
Ah, que eu saberia dar um fim
A esse Leonid Loengrim!
Saltaria - escândalo estridente:
- Chega de tremores de voz!
Assobios nos ouvidos dessa gente,
Ao diabo com suas mães e avós!
Para que toda essa corja explodisse
Inflando os escuros redingotes,
E Kógan, atropelado, fugisse,
Espetando os transeuntes nos bigodes.
Por enquanto há escória de sobra.
O tempo é escasso - mãos à obra.
Primeiro é preciso transformar a vida,
Para cantá-la em seguida.
Os tempos estão duros para o artista:
Mas, dizei-me, anêmicos e anões,
Os grandes, onde, em que ocasião,
Escolheram uma estrada batida?
General da força humana - Verbo - marche!
Que o tempo cuspa balas para trás,
E o vento
No passado
Só desfaça
Um maço de cabelos.
Para o júbilo o planeta está imaturo.
É preciso arrancar alegria ao futuro.
Nesta vida morrer não é difícil.
O difícil é a vida e seu ofício.
(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)