Fabrício de Lima

: 37 Joined: 28 Sep 2009 Posts: 37
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Um homem de intelecto, em completa solidão, encontra um excelente entretenimento em seus próprios pensamentos e imaginação, enquanto a contínua diversidade de festas, peças, excursões e diversões é incapaz de proteger um tolo das torturas do tédio. Um indivíduo bom, moderado, brando pode ser feliz em circunstâncias adversas, enquanto outro, ambicioso, invejoso e malicioso, mesmo sendo o mais rico do mundo, sente-se miserável. De fato, para o homem que desfruta da constante satisfação de uma individualidade extraordinária e intelectualmente eminente, a maioria dos prazeres perseguidos pela humanidade é simplesmente supérflua; são apenas um estorvo e um fardo. Assim, Horácio diz de si próprio:
Gemmas, marmor, ebur, Tyrrhena sigilla, tabellas, Argentum, vestes Gaetulo murice tinctas, Sunt qui non habeant, est qui non curat habere;
[Marfim, mármore, berloques, estátuas tirrenas, pinturas, prataria, roupas tingidas de púrpura getuliana, Muitos passam sem tais coisas, outros sequer se importam. (Epistulae, II.2.180.)]
e quando Sócrates viu vários artigos de luxo postos à venda, disse: Quantas coisas há no mundo das quais não preciso!
(Arthur Schopenhauer) |
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Fabrício de Lima

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Todo o homem que despertou dos primeiros sonhos da mocidade, que tem em
consideração a sua própria experiência e a dos outros, que estudou a história do passado e a
da sua época, se quaisquer preconceitos demasiado arraigados não lhe perturbam o espírito,
acabará por chegar à conclusão de que este mundo dos homens é o reino do acaso e do
erro, que o dominam e o governam a seu modo sem piedade alguma, auxiliados pela
loucura e pela maldade, que não cessam de brandir o chicote. Por isso o que há de melhor
entre os homens só aparece após grandes esforços; qualquer inspiração nobre e sensata dificilmente
encontra ocasião de se mostrar, de proceder, de se fazer ouvir, ao passo que o
absurdo e a falsidade no domínio das idéias, a banalidade e a vulgaridade nas regiões da
arte, a malícia e a velhacaria na vida prática, reinam sem partilha, e quase sem interrupção;
não há pensamento, obra excelente que não seja uma exceção, um caso imprevisto, singular,
incrível, perfeitamente isolado, como um aerólito produzido por uma ordem de coisas
diferente daquela que nos governa. — Com respeito a cada um em particular, a história de
uma existência é sempre a história de um sofrimento, porque toda a carreira percorrida é
uma série ininterrupta de reveses e de desgraças, que cada um procura ocultar porque sabe
que longe de inspirar aos outros simpatia ou piedade, dá-lhes enorme satisfação, de tal
modo se comprazem em pensar nos desgostos alheios a que escapam naquele momento; —
é raro que um homem no fim da vida, sendo ao mesmo tempo sincero e ponderado, deseje
recomeçar o caminho, e não prefira infinitamente o nada absoluto.(Schopenhauer;Dores do mundo)
Se se pudesse pôr diante dos olhos de cada um as dores e os espantosos tormentos
aos quais a sua vida se encontra incessantemente exposta, um tal aspecto enchê-lo-ia de
medo; e se se quisesse conduzir o otimista mais endurecido aos hospitais, aos lazaretos e
aposentos de torturas cirúrgicas, às prisões, aos lugares de suplícios, às pocilgas dos
escravos, aos campos de batalha e aos tribunais criminais, se se lhe abrissem todos os antros
sombrios onde a miséria se acolhe para fugir aos olhares de uma curiosidade fria, e se por
fim o deixassem ver a torre de Ugolino, então, com certeza, também ele acabaria por
reconhecer de que espécie é este melhor dos mundos possíveis.(Schopenhauer;Dores do mundo) |
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