Fabrício de Lima

: 37 Joined: 28 Sep 2009 Posts: 37
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DISPOSIÇÃO PARA AS PARTES ULTERIORES
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Descrição da confusão caótica numa idade mítica. O oriental.
Inícios da filosofia como ordenadora dos cultos, dos mitos, organizadora
da unidade da religião.
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Inícios de uma atitude irônica para com a religião. Nova
emergência da filosofia.
5, etc. Exposição
Conclusão: o Estado de Platão como ultra-helênico, como não
impossível. A filosofia atinge aqui seu apogeu como fundadora
constitucional de um Estado metafisicamente ordenado.
ESBOÇOS
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"Verdade"
1. A verdade como dever incondicionado negando hostilmente
o mundo.
2. Análise do sentido geral da verdade (inconseqüência).
3. O pathos da verdade.
4. O impossível como corretivo do homem.
5. O fundamento do homem mentiroso porque otimista.
6. O mundo dos corpos.
7. Indivíduos.
8. Formas.
9. A arte. Hostilidade para com ela.
10. Sem não-verdade nem sociedade nem civilização. O conflito trágico.
Tudo o que é bom e tudo o que é belo dependem da ilusão: a verdade
mata — e mais ainda, ela se mata a si mesma (na medida em que
reconhece que seu fundamento é o erro).
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O que é que corresponde à ascese no que se refere à verdade? — A
veracidade como fundamento de todos os contratos e como pressuposição
da subsistência da espécie humana é uma exigência eudemônica5, à qual se
opõe o conhecimento de que o bem supremo do homem está muito mais
em ilusões: quando, segundo os princípios eudemônicos, a verdade e a
mentira devessem ser utilizadas — e é o que acontece.
Conceito da verdade proibida, isto é, de uma verdade tal que
encubra e mascare a mentira eudemônica. Antítese: a mentira proibida,
intervindo, contudo, onde a verdade permitida tem seu domínio.
O eudemonismo é uma teoria filosófica que, no tocante à moral, o
objetivo principal é a felicidade do homem (NT).
Símbolo da verdade proibida: fiat veritas, pereat mundus (faça-se a
verdade, pereça o mundo).
Símbolo da mentira proibida:fiat mendacium, pereat mundus (façase
a mentira, pereça o mundo).
O que primeiro chega à ruína por meio das verdades proibidas é o
indivíduo que as enuncia. O que chega por último à ruína por meio das
mentiras proibidas é o indivíduo. Este se sacrifica com o mundo, aquele
sacrifica o mundo a si próprio e à própria existência.
Casuística: é permitido sacrificar a humanidade à verdade?
1. Não é possível! Se Deus o quisesse, a humanidade poderia
morrer pela verdade.
2. Se isso fosse possível, seria uma boa morte e uma libertação
da vida.
3. Ninguém pode, sem um pouco de loucura, acreditar tão
firmemente possuir a verdade: o ceticismo não tardará a
chegar.
À pergunta: é permitido sacrificar a humanidade a uma loucura?,
deveríamos responder que não. Mas na prática isso acontece, porque o fato
de acreditar na verdade é precisamente loucura.
A fé na verdade — ou a loucura. Supressão dos elementos
eudemônicos:
1. enquanto minha própria fé;
2. enquanto encontrada por mim;
3. enquanto fonte de boas intenções nos outros, da fama, do
fato de ser amado;
4. enquanto desejo imperioso de resistência.
Depois da supressão desses elementos, a enunciação da verdade
será ainda possível como puro dever? Análise da crença na verdade: pois,
toda posse da verdade é, no fundo, somente uma convicção de possuir a
verdade. O pathos, o sentimento do dever, vem dessa fé e não da pretensa
verdade. A fé supõe no indivíduo uma capacidade de conhecimento
incondicionada, assim como a convicção de que jamais um ser conhecedor
poderia ir mais longe; logo, a obrigação para toda a extensão dos seres
conhecedores. A relação suprime o pathos da crença, a limitação ao
humano, pela aceitação cética de que talvez todos nós estamos no erro.
Mas como é que o ceticismo é possível? Aparece como o ponto de
vista propriamente ascético do pensamento. De fato, não acredita na fé e
assim destrói tudo o que é abençoado pela fé.
Mas até o ceticismo contém em si uma fé: a fé na lógica. O caso
extremo é, portanto, um abandono da lógica, o credo guia absurdum (creio
porque é absurdo), dúvida da razão e desmentido desta. Como isso se
produz em conseqüência da ascese. Ninguém pode viver sem lógica, como
não pode viver na ascese pura. Com isso se demonstra que a fé na lógica e
sobretudo a fé na vida é necessária, que o domínio do pensamento é,
portanto, eudemônico. Mas neste caso aparece a exigência da mentira:
quando precisamente vida e cuSatuovia (eudaimonia — eudemonismo) são
argumentos. O ceticismo se volta contra as verdades proibidas. Falta então
o fundamento para a pura verdade em si, seu instinto não passa de um
instinto eudemônico mascarado.
Todo acontecimento da natureza é no fundo inexplicável para nós:
podemos somente constatar, a cada vez, o cenário em que o drama
propriamente dito se desenrola. Falamos então de causalidade, quando no
fundo só vemos uma sucessão de acontecimentos. Que essa sucessão deva
ser sempre produzida numa encenação determinada, é uma crença que
muitas vezes se contradiz infinitamente.
A lógica não é mais do que a escravidão nos laços da linguagem.
Esta possui nela, contudo, Um elemento ilógico, a metáfora, etc. A
primeira força opera uma identificação do não-idêntico, ela é, portanto, um
efeito da imaginação. É aí que repousa a existência dos conceitos, das
formas, etc.
"Leis da natureza". Simples relações de uma a outra e ao homem.
O homem como medida das coisas, medida que se tornou acabada
e firme. Desde que a imaginemos fluida e vacilante, cessa o rigor das leis
da natureza. As leis da sensação — como núcleo das leis da natureza,
mecânica dos movimentos. A crença no mundo exterior e no passado, na
ciência da natureza.
O que há de mais verdadeiro neste mundo: o amor, a religião e a
arte. O primeiro, por meio de todas as dissimulações e de todos os
disfarces, vê até no âmago o indivíduo que sofre e se compadece; e o
último, como amor prático, consola a dor falando de outra dimensão do
mundo e aprendendo a desprezá-lo. São as três potências ilógicas que se
reconhecem como tais.
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O acordo incondicional entre o lógico e o matemático não indica
um cérebro, um órgão diretor que se destaca anormalmente — uma razão?
uma alma? — É o perfeitamente subjetivo em virtude do qual somos
homens. É a herança amalgamada da qual todos têm parte.
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A ciência da natureza é a tomada de consciência de tudo o que
possuímos hereditariamente, o registro das leis firmes e rígidas da
sensação.
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Não há instinto do conhecimento e da verdade, mas somente um
instinto da crença na verdade; o conhecimento puro é destituído de instinto.
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Todos os instintos ligados ao prazer e ao desprazer — não pode aí
haver um instinto da verdade, isto é, de uma verdade completamente sem
conseqüências, pura, sem emoção; porque aí cessaria prazer e desprazer e
não há instinto que não pressinta uma alegria em sua satisfação. A alegria
de pensar não demonstra um desejo de verdade. A alegria de todas as
percepções sensíveis consiste no fato de terem sido conseguidos por meio
de raciocínios. O homem nada sempre até esse ponto num oceano de
alegria. Em que medida, contudo, o silogismo, a operação lógica
preparam a alegria?
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O impossível nas virtudes.
O homem não saiu desses instintos superiores, todo o seu ser revela
uma moral covarde, passa por cima de seu ser com a moral mais pura.
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Arte. Mentira piedosa e mentira gratuita. Reconduzir, contudo, esta
última a uma necessidade.
Todas as mentiras são mentiras piedosas. A alegria de mentir é
estética. De outra forma, só a verdade tem prazer em si. O prazer estético,
o maior, porque, sob a forma de mentira, diz a verdade de uma maneira
perfeitamente geral.
O outro conceito de personalidade diferente daquele das ilusões
necessárias à liberdade moral, a tal ponto que mesmo nossos instintos da
verdade se baseiam no fundamento da mentira.
A verdade no sistema do pessimismo. O pensamento é algo que
mais valia não existir.
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Como a arte é somente possível como mentira?
Meu olho, fechado, vê em si mesmo inumeráveis imagens móveis
— estas são o produto da imaginação e sei que não correspondem à
realidade. Não creio, portanto, nelas senão como imagens, não como
realidades.
Superfícies, formas.
A arte detém a alegria de despertar crenças por meio das
superfícies: mas não somos enganados! Senão a arte acabaria.
A arte nos faz deslizar numa ilusão — mas não somos enganados?
De onde vem a alegria de uma ilusão procurada, na aparência que é
sempre conhecida como aparência?
A arte trata, portanto, a aparência como aparência, não quer, pois,
enganar, é verdadeira.
A pura consideração sem desejo só é possível com a aparência que
é reconhecida como aparência, que não quer de modo algum conduzir à
crença e, nessa medida, não incita em absoluto nossa vontade.
Só aquele que pudesse considerar o mundo inteiro como aparência
estaria em condições de considerá-lo sem desejo e sem instinto: o artista e
o filósofo. Aqui o instinto cessa.
Enquanto procurarmos a verdade no mundo, ficamos sob o domínio
do instinto: mas este quer o prazer e não a verdade, quer a crença na
verdade, isto é, os efeitos de prazer dessa crença.
O mundo como aparência — o santo, o artista, o filósofo.
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Todos os instintos eudemônicos despertam a crença na verdade das
coisas, do mundo — assim toda a ciência — dirigida para o devir, não para
o ser.
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Platão como prisioneiro, posto à venda num mercado de escravos
— para que trabalho poderão os homens querer um filósofo? — Isso leva a
adivinhar para que uso querem a verdade.
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I. A verdade como a máscara de movimentos e de instintos
completamente diferentes.
II. O pathos da verdade se relacionam à crença.
III. O instinto da mentira, fundamental.
IV. A verdade é incognoscível. Tudo o que é cognoscível é
aparência. Significação da arte como aquela da aparência
verossímil. |
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