Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



Minima Moralia - Theodor Adorno

 
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Autor Mensagem
Fabrício de Lima




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MensagemEnviada: 12/04/2010 - 16:16:45    Assunto: Minima Moralia - Theodor Adorno Responder com citação

Atrás do espelho. - Primeira medida precaucional do escritor:
inspeccionar em cada texto, em cada passagem, em cada
parágrafo se o motivo central surge suficientemente claro. Quem
quer expressar algo encontra-se tão impelido pelo motivo que se
deixa levar sem sobre ele reflectir. «No pensamento» está-se
demasiado perto da intenção, e esquece-se de dizer o que se
pretende dizer.
Nenhuma correcção é demasiado pequena ou fútil para não se
dever realizar. Entre cem alterações, cada uma isoladamente
poderá parecer pueril ou pedante; juntas podem determinar um
novo nível do texto.
Nunca ser mesquinho com as riscaduras. A extensão é indiferente,
e o receio de que o escrito não seja bastante, pueril. Por
isso, nada ter por valioso pelo facto de estar aí, escrito sobre
papel. Se muitas frases parecem variações da mesma ideia,
amiúde significam apenas diferentes tentativas de plasmar algo de
que o autor ainda não se apropriou. Deve então escolher-se a
melhor formulação e continuar com ela a trabalhar. Uma das
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técnicas do escritor é poder renunciar inclusive a ideias fecundas,
quando a construção o exige. Para a sua plenitude e força
contribuem justamente as ideias suprimidas. Tal como à mesa não
se deve comer até ao último bocado nem beber o copo até ao
fundo. De outro modo, torna-se suspeito de pobreza.
Quem deseja evitar os clichés não deve limitar-se às palavras,
se não quiser incorrer em vulgar coqueteria. A grande prosa
francesa do século XIX era nisto particularmente susceptível. A
palavra isolada raramente se revela banal: também na música o
som isolado resiste à erosão. Os clichés mais odiosos são antes
uniões de palavras do tipo das que Karl Kraus proferiu: plena e
totalmente, para o melhor ou para o pior, construídas e
aprofundadas. Nelas cicia, por assim dizer, o fluxo inerte da
linguagem batida, em vez de o escritor, mediante o rigor da
expressão, asserir a resistência exigida onde a linguagem se deve
realçar. Isto não vale só para as uniões de palavras, mas também
para a construção de formas inteiras. Se um dialéctico, por
exemplo, quisesse assinalar a mudança do pensamento no seu
avanço, começando após cada cesura com um 'mas', o esquema
literário desmentiria o propósito esquemático do raciocínio.
O matagal não é nenhum bosque sagrado. E um dever
eliminar dificuldades que surgem simplesmente da comodidade
na auto--compreensão. Não basta distinguir sem mais entre a
vontade de escrever em forma densa e adequada à profundidade
do objecto, a tentação do particular e a pretensiosa
despreocupação: a insistência suspeitosa é sempre saudável.
Quem não quiser fazer nenhuma concessão à estupidez do sadio
senso comum deve resguardar-se de adornar estilisticamente
ideias que de per si induzem à banalidade. As trivialidades de
Locke não justificam o giro críptico de Hamann.
Se houver apenas objecções mínimas contra um trabalho
concluído, indiferentemente da sua extensão, há que encará-las
com uma seriedade incomum, fora de toda a relação com a
relevância que possam ter. A carga afectiva do texto e a vaidade
tendem a minimizar todo o escrúpulo. O que se deixa passar
como uma dúvida mínima pode denotar o escasso valor objectivo
do todo.
75
A procissão saltitante de Echternach4 não é a marcha do
espírito do mundo; a limitação e a retracção não são meios de
representação da dialéctica. Esta move-se antes entre os extremos
e, mediante consequências extremas, impulsiona o pensamento
para a alteração, em vez de o qualificar. A prudência que proíbe ir
demasiado longe numa sentença quase sempre é agente do
controlo social e, portanto, da estupidificação.
Cepticismo frente à objecção predilecta de que um texto ou
uma formulação são "demasiado belos". O respeito pelo tema, ou
até pelo sofrimento, facilmente racionaliza apenas o rancor contra
aquele para quem é insuportável encontrar, na forma reificada da
linguagem, o vestígio do que os homens padecem, da
indignidade. O sonho de uma existência sem ignomínia, que se
afirma na paixão linguística, quando lhe é já proibido visualizarse
como conteúdo, deve ser dissimuladamente estrangulado. O
escritor não pode aceitar a distinção entre expressão bela e
expressão exacta. Não devem presumi-la num crítico timorato
nem tolerá-la em si mesmo. Se consegue dizer cabalmente o que
pensa, há nisso já beleza. Na expressão, a beleza pela beleza
nunca é "demasiado bela", mas ornamental, artificial, odiosa. Mas
quem com o pretexto de estar absorvido no tema renuncia à
pureza da expressão, o que faz é atraiçoá-lo.
Os textos assaz elaborados são como as teias de aranha:
densos, concêntricos, transparentes, bem arquitravados e firmes.
Absorvem em si tudo quanto ali vive. As metáforas que
esquivamente passam por eles convertem-se em presa nutritiva. A
eles acodem todos os materiais. A solidez de uma concepção pode
julgar-se segundo o recurso às citações. Onde o pensamento abriu
um compartimento da realidade, deve penetrar sem violência do
sujeito na câmara contígua. Preserva a sua relação com o objecto,
logo que outros objectos se cristalizam à sua volta. Com a luz que
dirige para o seu objecto determinado começam outros a brilhar.
O escritor organiza-se no seu texto como em sua casa. Comporta-
se nos seus pensamentos como faz com os seus papéis,
livros, lápis, tapetes, que leva de um quarto para o outro,
4 Tem lugar na Terça-feira de
Pentecostes, nesta localidade do
Luxemburgo, e consiste em dar
três passos em frente e dois saltos
para trás. (N. T.)
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produzindo uma certa desordem. Para ele, tornam-se peças de
mobiliário em que se acomoda, com gosto ou desprazer. Acariciaos
com delicadeza, serve-se deles, revira-os, muda-os de sítio,
desfá-los. Quem já não tem nenhuma pátria, encontra no escrever
a sua habitação. E aí inevitavelmente produz, como outrora a
família, desperdícios e lixo. Mas já não dispõe de desvão e é-lhe
muitíssimo difícil livrar-se da escória. Por isso, ao tirá-la da sua
frente, corre o risco de acabar por encher com ela as suas páginas.
A exigência de resistir à auto--compaixão inclui a exigência
técnica de defrontar com extrema atenção o relaxamento da
tensão intelectual e de eliminar tudo quanto tenda a fixar-se como
uma crosta no trabalho, tudo o que decorre no vazio, o que talvez
suscitasse, num estádio anterior, como palavriado, a calorosa
atmosfera em que emerge, mas agora permanece bafiento e
insípido. Por fim, já nem sequer é permitido ao escritor habitar
nos seus escritos.
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