Fabrício de Lima

: 37 Joined: 28 Sep 2009 Posts: 37
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“(...) engenhoso aparelho de aparições e eclipses, espécie complicada de tablado de mágica de prestidigitador, provocando ilusões, fantasmagorias, ressurgimentos, glorificações e apoteoses. (...) Os livros nas redações têm a mais desgraçada sorte se não são recomendados e apadrinhados convenientemente. Ao receber-se um, lê-se-lhe o título e o nome do autor. Se é de autor consagrado e da facção do jornal, o crítico apressa-se em repetir aquelas frases vagas, muito bordadas, aqueles elogios em cliché que nada dizem da obra e dos seus intuitos: se é de outro consagrado mas com antipatias na redação, o cliché é outro, elogioso sempre mas não afetuoso nem entusiástico. Há casos em que absolutamente não se diz uma palavra do livro. (...) Com os nomes novos não havia hesitações: calava-se, ou dava-se uma notícia anônima, ‘recebemos, etc’, quando não se descompunha. Aos olhos dos homens da imprensa, publicar um livro é uma ousadia sem limites, uma temeridade e uma pretensão inqualificáveis e dignas de castigo. (...) Fora deles, ninguém pode ter talento e escrever, e, por pensarem assim, hostilizam a todos que não querem aderir à sua grei, impedem com a sua crítica hostil o advento de talentos e obras, açambarcam as livrarias, os teatros, as revistas, desacreditando a nossa provável capacidade de fazer alguma coisa digna com as suas obras ligeiras e mercantis. Por acaso, se o trabalho consegue vencer a hostilidade de semelhante gente, sempre cheia de preconceitos, eles ficam a matutar, pois não admitem esforço e honestidade intelectual em ninguém: de quem o autor copiou? Os mais hábeis daqueles que estão de fora, porém, quando premeditam a infame ousadia de publicar, arranjam preliminarmente relações de amizade nos jornais, de modo a obter um bom acolhimento para o seu trabalho.”
Lima Barreto
“Recordações do Escrivão Isaías Caminha”,
Obras Completas, vol. I: 174/237/238,
Brasiliense, São Paulo, 1956. |
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