Sobre o phatos da verdade
Friedrich Nietzsche
Ser谩 que a gl贸ria realmente n茫o passa do bocado mais saboroso de nosso amor-pr贸prio? 鈥 Ela est谩 ligada aos homens mais raros, e tamb茅m aos momentos mais raros de tais homens, com ambi莽茫o. S茫o os momentos das ilumina莽玫es s煤bitas, quando o homem estica seu bra莽o imperiosamente, como que para criar um mundo, produzindo luz diante de si mesmo e espalhando-a em torno. Ent茫o, imp玫e-se a ele a certeza confortadora de que a posteridade n茫o pode ser privada daquilo que o elevou e o ocultou no ponto mais distante, da altura de sua sensa莽茫o 煤nica; na eterna necessidade, para todos os que vir茫o, desta mais rara das ilumina莽玫es, o homem reconhece a necessidade de sua gl贸ria. Em todo o futuro, a humanidade precisa dele, e como aquele momento da ilumina莽茫o 茅 o resumo e a concentra莽茫o de sua ess锚ncia mais pr贸pria, ele acredita ser imortal, como o homem de tal momento, enquanto atira para longe de si e entrega 脿 transitoriedade tudo mais, como dejeto, podrid茫o,vaidade, animalidade, ou como um pleonasmo.
脡 com insatisfa莽茫o, freq眉entemente com surpresa, que vemos cada desaparecimento e cada decl铆nio, como se presenci谩ssemos, no fundo, algo imposs铆vel. Uma grande 谩rvore cai, para nosso inc么modo, e um desmoronamento na montanha nos perturba. Cada noite de ano novo nos faz sentir o mist茅rio da contradi莽茫o entre o ser e o devir. Mas o que faz o homem mortal sofrer com mais intensidade 茅 o desaparecimento de um instante da mas alta perfei莽茫o universal, como que sem posteridade e sem herdeiros, como uma fagulha fugidia. Seu imperativo soa, muito mais, do seguinte modo: o que alguma vez existiu para perpetuar de modo mais belo o conceito de 鈥渉omem鈥 tem de estar eternamente presente. Que os grandes momentos formem uma corrente, que conectem a humanidade atrav茅s dos mil锚nios, como cimos, que a grandeza de um tempo passado seja grande tamb茅m para mim, e que a cren莽a cheia de intui莽玫es realize a gl贸ria ambicionada, 茅 este o pensamento fundamental da cultura.
Na exig锚ncia de que a grandeza deva ser eterna, incendeia-se a batalha terr铆vel da cultura; pois tudo mais, tudo o que ainda vive grita 鈥渘茫o!鈥. Preenchendo todos os cantos do mundo, como um terreno pesado do ar que todos n贸s estamos condenados a respirar, o habitual, o pequeno, o comum fumegam em torno da grandeza e se lan莽am no caminho que esta tem de seguir para alcan莽ar a imortalidade, obstruindo, sufocando, turvando, iludindo. O caminho segue atrav茅s de c茅rebros humanos! Atrav茅s dos c茅rebros de seres mesquinhos, de vida curta, quando estes, livres de determinadas car锚ncias, sempre retomam as mesmas necessidades e repelem com esfor莽o, por tempo limitado, a degrada莽茫o 鈥 a qualquer pre莽o. Quem dentre eles poderia ousar aquela dif铆cil corrida com a tocha ol铆mpica, pela qual s贸 a grandeza sobrevive? E no entanto despertam sempre alguns que sentindo-se t茫o cheios de 芒nimo 脿 vista de tal grandeza, como se a vida humana fosse uma coisa magn铆fica, e como se o fruto desta planta amarga, necessariamente considerado o mais belo, fosse o saber de que, um dia, um homem orgulhoso e est贸ico atravessou esta exist锚ncia, um outro com pensamentos profundos, um terceiro cheio de compaix茫o, e todos deixaram o ensinamento segundo o qual quem n茫o presta aten莽茫o na exist锚ncia 茅 que a vive de modo mais belo. Enquanto o homem comum leva a s茅rio, t茫o melancolicamente, esta tens茫o de ser, eles souberam dar uma risada ol铆mpica de tal coisa, ou pelo menos trata-la com um desd茅m sublime; e, com freq眉锚ncia, foi com ironia que desceram a seus t煤mulos 鈥 pois o que haveria neles para enterrar?
脡 no meio dos fil贸sofos que se deve procurar os cavalheiros mais audazes entre aqueles que procuram a gl贸ria, os que acreditam encontrar seus bras玫es inscritos em uma constela莽茫o. Sua a莽茫o n茫o se volta para um 鈥減煤blico鈥, para o alvoro莽o das massas e o aplauso aclamador dos contempor芒neos; fazem parte da sua ess锚ncia os passos solit谩rios pela estrada. Sua voca莽茫o 茅 a mais rara e, considerando de certo modo, a mais anti-natural na natureza, com isso ela vai at茅 mesmo contra as voca莽玫es semelhantes, de modo excludente e hostil. O muro de sua auto-sufici锚ncia precisa ser de diamante, para n茫o ser destru铆do nem invadido, pois tudo se movimenta contra ele, o homem e a natureza. Sua viagem para a imortalidade 茅 mais penosa e mais acidentada do que qualquer outra, e contudo ningu茅m pode acreditar com mais seguran莽a que chegar谩 脿 sua meta do que o fil贸sofo, porque ele n茫o saberia onde deve ficar, se n茫o fosse sobre as asas vastamente abertas de todos os tempos; pois o modo de ser da considera莽茫o filos贸fica consiste no desprezo pelo presente e pelo instant芒neo. Ele tem a verdade; 茅 poss铆vel que a roda do tempo role para onde quiser, mas nunca poder谩 escapar da verdade.
脡 importante saber que tais homens j谩 viveram. Nunca se imaginaria, como uma possibilidade ociosa, o orgulho do s谩bio Her谩clito, que pode ser o nosso exemplo. Em si, e pela sua pr贸pria ess锚ncia, todo esfor莽o pelo conhecimento parece insatisfeito e insatisfat贸rio; por isso, se n茫o for ensinado pela hist贸ria, ningu茅m poder谩 acreditar em uma dignidade t茫o majestosa, em uma convic莽茫o t茫o ilimitada de ser o 煤nico contemplado portentor da verdade. Tais homens vivem em seu sistema solar pr贸prio; 茅 l谩 que se deve procur谩-los. Tamb茅m Pit谩goras, Emp茅docles dedicaram a si mesmos uma estima sobre-humana, um temor quase religioso, mas o arco da compaix茫o, ligado 脿 convic莽茫o na migra莽茫o das almas e na unidade de todos os seres vivos, os conduziu de volta aos outros homens, para salva-los. Por茅m, s贸 nos cumes desertos e gelados 茅 que se pode perceber algo do sentimento de solid茫o que oprimia o eremita do templo ef茅sio de 脕rtemis. Dele n茫o emana nenhum sentimento prepotente de exalta莽茫o compassiva, nenhuma pretens茫o de querer ajudar ou salvar: 茅 como um astro sem atmosfera. Flamejando ao dirigir-se para dentro, seu olho observa com vista apagada e glacial o que est谩 fora, como se olhasse apenas para o brilho aparente. As ondas da ilus茫o e do absurdo v锚m bater ao seu redor, diretamente na fortaleza de seu orgulho; desvia-se delas com asco. Mas tamb茅m os homens de peito sens铆vel se esquivam de tal m谩scara tr谩gica; um ser como aquele pode parecer mais compreens铆vel em uma sacralidade perdida, entre est谩tuas de deuses, ao lado de uma arquitetura grandiosa e fria. Entre homens, Her谩clito era inacredit谩vel como homem; e quando ele foi visto dando aten莽茫o ao jogo de crian莽as barulhentas, pensava ali algo que nenhum mortal havia pensado nas mesmas circunst芒ncias 鈥 o jogo de Zeus, dessa grande crian莽a do mundo, e a brincadeira eterna de destruir e formar mundos. Ele n茫o precisava dos homens, nem mesmo para seu conhecimento; n茫o via nenhum valor em tudo o que se poderia aprender deles, e nem naquilo que os outros s谩bios antes dele estavam empenhados em aprender. 鈥淧rocurei e investiguei a mim mesmo鈥(1), disse ele com palavras pelas quais se indicava o investigador de um or谩culo: como se fosse ele, e ningu茅m mais, quem na verdade cumpriu e realizou aquela frase d茅lfica: 鈥淐onhece-te a ti mesmo鈥.
Mas o que ele escutou nesse or谩culo, tomou por uma sabedoria imortal, de eterno valor interpretativo, no sentido em que os discursos prof茅ticos de Sibile s茫o imortais. 脡 o suficiente para a humanidade mais long铆nqua: tal sabedoria s贸 pode se deixar interpretar como senten莽a de or谩culo, como ele, como o pr贸prio deus d茅lfico 鈥渘em fala, nem esconde鈥. Como ele pronuncia, 鈥渟em riso, sem adorno e incenso perfumado鈥, muito mais 鈥渃om boca transbordante鈥, algo que deve atravessar os mil anos do futuro. Pois o mundo precisa eternamente da verdade, e, assim, precisa eternamente de Her谩clito, embora ele n茫o care莽a do mundo. O que lhe importa sua gl贸ria! 鈥淎 gl贸ria no meio dos mortais que passam sem cessar!鈥, como ele exclama desdenhosamente. Isto 茅 algo para cantores e poetas, e tamb茅m para aqueles que, antes dele, foram conhecidos como 鈥渉omens s谩bios鈥 鈥 estes podem degustar o bocado mais saboroso de seu amor-pr贸prio, para ele tal refei莽茫o era vulgar demais. Para os homens, era sua gl贸ria que importava, n茫o ele; seu amor-pr贸prio 茅 o amor pela verdade 鈥 e mesmo essa verdade lhe diz que a imortalidade do ser humano precisa dele, e n茫o ele da imortalidade do homem Her谩clito.(1)
A verdade! Ilus茫o exaltada de um deus! O que importa aos homens a verdade!
E o que era a 鈥渧erdade鈥 heracl铆tica?!
E para onde ela foi? Um sonho que escapa, apagado das faces humanas com outros sonhos! 鈥 N茫o foi a primeira!
Talvez um dem么nio sem sentimentos n茫o soubesse dizer, daquilo que nomeamos com as met谩foras orgulhosas 鈥渉ist贸rias do mundo鈥, 鈥渧erdade鈥 e 鈥済l贸ria鈥, nada al茅m das seguintes palavras:
鈥淓m algum canto perdido do universo que se expande no brilho de incont谩veis sistemas solares surgiu, certa vez, um astro em que animais espertos inventaram o conhecimento. Esse foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da hist贸ria do mundo, mas n茫o passou de um minuto. Ap贸s uns poucos suspiros da natureza, o astro congelou e os animais espertos tiveram de morrer. Foi bem a tempo: pois, se eles vangloriavam-se por terem conhecido muito, concluiriam por fim, para sua grande decep莽茫o, que todos os seus conhecimentos eram falsos; morreram e renegaram, ao morrer, a verdade. Esse foi o modo de ser de tais animais desesperados que tinham inventado o conhecimento.鈥(2)
Seria esse o destino do homem, se ele fosse um animal que busca conhecer; a verdade o levaria ao desespero e ao aniquilamento, a verdade de estar eternamente condenado 脿 inverdade. Ao homem, entretanto, conv茅m a cren莽a na verdade alcan莽谩vel, na ilus茫o que se aproxima de modo confi谩vel. Ser谩 que ele n茫o vive propriamente por meio de um engano constante? Ser谩 que a natureza n茫o lhe faz segredo de quase tudo, mesmo do que est谩 mais pr贸ximo, por exemplo de seu pr贸prio corpo, do qual s贸 possui uma 鈥渃onsci锚ncia鈥 fantasmag贸rica? Ele est谩 aprisionado nessa consci锚ncia, e a natureza jogou fora a chave. Curiosidade fat铆dica dos fil贸sofos, que possibilitou olhar para fora e para baixo, por uma fresta na cela da consci锚ncia: talvez o homem pressinta, ent茫o, que se ap贸ia no 铆nfimo, no insaci谩vel, no repugnante, no cruel, no m贸rbido, na indiferen莽a de sua ignor芒ncia, agarrado a sonhos, como sobre o dorso de um tigre.
鈥淒eixem-no agarrar-se鈥, grita a arte. 鈥淎cordem-no鈥, grita o fil贸sofo, no pathos da verdade. Mas ele mesmo mergulha em um sono m谩gico ainda mais profundo, enquanto acredita estar sacudindo aquele que dorme 鈥 talvez sonhe ent茫o com 鈥渋d茅ias鈥 ou com a imortalidade. A arte 茅 mais poderosa do que o conhecimento, pois ela 茅 que quer a vida, e ele alcan莽a apenas, como 煤ltima meta, 鈥 o aniquilamento. 鈥
Notas
(1) Os tr锚s fragmentos citados por Nietzsche nest epar谩grafo s茫o, segundo a tradu莽茫o brasileira: 鈥淎 sibila que, com voz delirante, fala entre caretas, sem ornamentos e sem floreios, faz ecoar seus or谩culos por mil anos, pois recebe a inspira莽茫o do deus que h谩 nela.鈥 (Fragmento 92); 鈥淥 autor, de quem 茅 o or谩culo de Delfos, n茫o diz nem subtrai nada, assinala o retraimento.鈥 (Fragmento 93); 鈥淯ma coisa a todas as outras preferem os melhores: a gl贸ria sempre brilhante dos mortais; a multid茫o est谩 saturada como o gado.鈥 (Fragmento 29); todo este trecho sobre Her谩clito encontra-se repetido no cap铆tulo VIII do livro A filosofia na idade tr谩gica dos gregos, de 1873. (N. do T.)
(2) Um outro texto de Nietzsche, de 1873, intitulado 脺ber Wahrheit und L眉ge im aussermoralischem Sinn (Sobre a verdade e a mentira em sentido extra-moral), tem in铆cio com a seguinte passagem: 鈥淓m algum canto perdido do universo que se expande no brilho de incont谩veis sistemas solares surgiu, certa vez, um astro em que animais espertos inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da hist贸ria do mundo, mas n茫o passou de um minuto. Ap贸s uns poucos suspiros da natureza, o astro congelou e os animais espertos tiveram de morrer鈥. Em seguida, o autor explica: 鈥溾 Esta 茅 a f谩bula que algu茅m poderia inventar, e mesmo assim n茫o teria ilustrado suficientemente o modo lament谩vel, v茫o, fugidio, sem sentido e sem import芒ncia com que o intelecto humano se apresenta no meio da natureza. Houve eternidades em que ele n茫o existiu; e se mesmo acontecesse agora, nada se passaria...鈥 O par谩grafo seguinte do pref谩cio tamb茅m reaparece no decorrer desse texto, com pequenas altera莽玫es. (N. do T.)
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Cinco pref谩cios para cinco livros n茫o escritos. 3潞 Edi莽茫o. Tradu莽茫o e pref谩cio: Pedro S眉ssekind. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2005.