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O Estado grego - Friedrich Nietzsche

 
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MensagemEnviada: 31/01/2009 - 22:22:48    Assunto: O Estado grego - Friedrich Nietzsche Responder com cita莽茫o

O Estado grego
Friedrich Nietzsche



N贸s modernos temos, com rela莽茫o aos gregos, a vantagem de dois conceitos que nos s茫o dados como consolo para um mundo onde tudo conduz 脿 escravid茫o e que, por isso, encara com pavor a palavra 鈥渆scravo鈥: falamos da 鈥渄ignidade do homem鈥 e da 鈥渄ignidade do trabalho鈥. Tudo se atormenta para perpetuar miseravelmente uma vida miser谩vel; esse medonho esfor莽o inevit谩vel imp玫e o trabalho exaustivo que agora, seduzido pela vontade, o homem, ou melhor, o intelecto humano muitas vezes olha admirado como algo cheio de dignidade. Mas a fim de que o trabalho tenha direito a um t铆tulo honrado, 茅 preciso, antes de tudo, que a pr贸pria exist锚ncia para a qual ele 茅 apenas um meio de tormento tenha mais dignidade e valor do que vem mostrando at茅 agora 脿s filosofias e 脿s religi玫es. No esfor莽o inevit谩vel(1) do trabalho de milh玫es, o que podemos encontrar, al茅m do impulso de existir a qualquer pre莽o, o mesmo impulso todo-poderoso pelo qual as plantas atrofiadas espalham suas ra铆zes sobre a rocha nua?!

Dessa assustadora luta pela exist锚ncia, s贸 podem emergir os homens isolados que imediatamente voltam a se ocupar da cultura art铆stica por meio de nobres quimeras, para que n茫o caiam no pessimismo pr谩tico, esse que a natureza despreza como sendo a verdadeira anti-natureza. Confrontado com o grego, o mundo moderno cria em geral apenas aberra莽玫es e centauros. Do mesmo modo que a criatura fabulosa na entrada da Po茅tica de Hor谩cio, o homem isolado 茅 formado de peda莽os multicoloridos, e, com freq眉锚ncia, nesse homem mostram-se ao mesmo tempo a ambi莽茫o da luta pela exist锚ncia e a da necessidade de arte: de tal fus茫o anti-natural resultou o esfor莽o inevit谩vel de desculpar e consagrar aquela primeira ambi莽茫o antes da necessidade de arte. Por isso, acredita-se na 鈥渄ignidade do homem鈥 e na 鈥渄ignidade do trabalho鈥.

Os gregos n茫o precisam dessas alucina莽玫es conceituais, entre eles se expressa com aterradora sinceridade que o trabalho 茅 um ultraje 鈥 e uma sabedoria mais velada, que raramente vem 脿 fala, mas que vive por toda parte, leva 脿 conclus茫o de que as coisas humanas tamb茅m s茫o um nada ultrajante e lastim谩vel e a 鈥渟ombra de um sonho鈥(2). O trabalho 茅 um ultraje porque a exist锚ncia n茫o tem valor em si mesma: mas ainda que essa exist锚ncia brilhe com o adorno sedutor das ilus玫es art铆sticas, e ent茫o pare莽a realmente ter um valor em si mesma, ainda assim vale aquela frase segundo a qual o trabalho 茅 um ultraje 鈥 no sentimento da impossibilidade de que, lutando pela mera sobreviv锚ncia, o homem possa ser um artista. Nos tempos modernos, n茫o 茅 o homem com necessidade de arte, mas sim o escravo quem determina as no莽玫es gerais: nas quais sua natureza tem que indicar com nomes enganosos todas as rela莽玫es, para poder viver. Tais fantasmas, como a dignidade do homem e a dignidade do trabalho, s茫o os produtos indigentes da escravid茫o que se esconde de si mesma. Tempo funesto, em que o escravo precisa de tais conceitos, em que 茅 incitado para a reflex茫o sobre si e sobre aquilo que est谩 al茅m dele! Sedutor funesto, que aniquilou a situa莽茫o de inoc锚ncia do escravo com o fruto da 谩rvore do conhecimento! Agora ele tem que se entreter dia ap贸s dia com tais mentiras transparentes, que todo bom observador reconhece na pretensa 鈥渋gualdade para todos鈥 e nos chamados 鈥渄ireitos do homem鈥, do homem como tal, ou na dignidade do trabalho. Ele n茫o pode nem de longe compreender em que n铆vel e em que altura 茅 poss铆vel falar de 鈥渄ignidade鈥, onde o indiv铆duo se ultrapassa totalmente e n茫o precisa mais trabalhar nem depor a servi莽o de sua sobreviv锚ncia individual.

E mesmo neste ponto alto do 鈥渢rabalho鈥 os gregos experimentaram um sentimento semelhante 脿 vergonha. Com instintos do grego antigo, Plutarco disse certa vez que nenhum jovem bem nascido, ao observar o Zeus em Pisa, ter谩 a ambi莽茫o de ser ele pr贸prio um F铆dias, ou de ser um Policleto ao ver a Hera em Argos: e tampouco desejar谩 ser Anacreonte por deleitar-se com sua poesia. Para o grego, o conceito indigno de trabalho cabe tanto para a cria莽茫o art铆stica, quanto para qualquer artesanato banal. Mas quando a for莽a urgente do impulso art铆stico faz efeito, ele precisa criar e sujeitar-se aquele esfor莽o inevit谩vel do trabalho. E assim como um pai admira a beleza e o talento de seu filho, embora pense com uma contrariedade envergonhada no ato da procria莽茫o, o mesmo acontecia no caso do grego. A admira莽茫o entusiasmada diante da beleza n茫o chegou a cega-la com rela莽茫o a seu devir 鈥 que parecia como tudo que dev茅m na natureza, como uma necessidade violenta, como um impelir-se para a exist锚ncia. O mesmo sentimento que leva o processo de procria莽茫o a ser considerado como algo a se ocultar com vergonha, embora o homem sirva nele a uma meta mais elevada do que a sua conserva莽茫o individual. Esse mesmo sentimento tamb茅m envolvia com um v茅u a g锚nese das grandes obras de arte, apesar de inaugurar-se atrav茅s delas uma forma mais elevada de exist锚ncia, do mesmo modo que uma nova gera莽茫o se forma por meio do ato de procria莽茫o. A vergonha parece penetrar, com isso, no lugar onde o homem 茅 apenas ferramenta de manifesta莽玫es da vontade, infinitamente maiores do que ele pode estimar na configura莽茫o singular do indiv铆duo.

Agora temos o conceito geral que deve ordenar as sensa莽玫es que os gregos tinham com rela莽茫o ao trabalho e 脿 escravid茫o: ambos valiam para eles como um ultraje inevit谩vel, diante do qual sentiam vergonha, ao mesmo tempo um ultraje e uma inevitabilidade. Nesse sentimento de vergonha abriga-se o conhecimento inconsciente de que a pr贸pria meta necessitava daquelas condi莽玫es, mas de que em tal necessidade reside o assustador e a ferocidade animal da natureza da Esfinge, que se estende na glorifica莽茫o da vida cultural artisticamente livre, como um belo manto sobre o corpo de uma virgem. A forma莽茫o, que constitui a principal e verdadeira necessidade da arte, repousa sobre um fundamento assustador: mas este se faz reconhecer na sensa莽茫o crepuscular de vergonha. Para que haja um solo mais largo, profundo e f茅rtil onde a arte se desenvolva, a imensa maioria tem que se submeter como escrava ao servi莽o de uma minoria, ultrapassando a medida de necessidades individuais e de esfor莽os inevit谩veis pela vida. 脡 sobre suas despesas, por seu trabalho extra, que aquela classe privilegiada deve ver-se liberada da luta pela exist锚ncia, para ent茫o gerar e satisfazer um novo mundo de necessidade.

A partir do que foi dito, temos de consentir em apresentar, como o eco de uma verdade cruel, o fato de que a escravid茫o pertence 脿 ess锚ncia de uma cultura: decerto, com essa verdade, n茫o resta mais nenhuma d煤vida sobre o valor absoluto da exist锚ncia. Ela 茅 o abutre que r贸i o f铆gado do pioneiro prometeico da cultura. A mis茅ria dos homens que vivem penosamente ainda tem de ser aumentada para possibilitar, a um n煤mero limitado de homens ol铆mpicos, a produ莽茫o de um mundo art铆stico. Aqui est谩 a fonte daquela raiva que os comunistas e socialistas, e os seus p谩lidos descendentes, a ra莽a branca dos 鈥渓iberais鈥 de todos os tempos, nutriram contra as artes, como tamb茅m contra a antig眉idade cl谩ssica. Se a cultura fosse realmente do agrado de um povo, se aqui n茫o governassem poderes inexor谩veis, que s茫o a lei e o limite do homem singular, ent茫o o desprezo pela cultura, a glorifica莽茫o da pobreza de esp铆rito e o aniquilamento iconoclasta das pretens玫es art铆sticas seriam mais do que uma insurrei莽茫o das massas oprimidas contra homens singulares amea莽adores: seriam o grito da compaix茫o, que contornaria os muros da cultura. O impulso para a justi莽a e para a igualdade do sofrimento faria submergir todas as outras no莽玫es. Realmente, um grau excessivo de compaix茫o rompe aqui e ali todos os diques da vida cultural; um arco-铆ris do amor compassivo e da paz apareceu com os primeiros raios de luz da Cristandade, e embaixo dele nasceu seu mais belo fruto, o Evangelho de Jo茫o. Mas tamb茅m h谩 exemplos de que religi玫es poderosas petrificam por longos per铆odos um determinado n铆vel cultural, podando com foice implac谩vel tudo aquilo que ainda quer crescer com for莽a. N茫o se deve esquecer do seguinte: a mesma crueldade que encontramos na ess锚ncia de toda cultura tamb茅m est谩 na ess锚ncia de toda religi茫o poderosa, e principalmente na natureza do poder, que 茅 sempre m谩; assim, entendemos igualmente que uma cultura destrua a fortaleza elevada dos direitos religiosos, com seu grito de liberdade ou, no m铆nimo, em nome da justi莽a. Aquilo que quer viver nesta constela莽茫o assustadora das coisas, ou seja, aquilo que precisa viver 茅, no fundo de sua ess锚ncia, imagem da dor original e da contradi莽茫o original, precisando vir aos nossos olhos, 贸rg茫os de medida do mundo e da terra, como ambi莽茫o incessante da exist锚ncia e como eterna contradi莽茫o de si pr贸pria na forma do tempo, e portanto do devir. Cada instante devora o precedente, cada nascimento 茅 a morte de incont谩veis seres, gerar, viver e morrer s茫o uma unidade. Por isso, podemos comparar at茅 mesmo a cultura magn铆fica com um vencedor manchado de sangue, que em seu desfile triunfal arrasta os vencidos como escravos, amarrados a seu carro: e eles, a quem um poder benfeitor deixou cegos, continuam gritando, quase esmagados pelas rodas do carro: 鈥渄ignidade do trabalho!鈥, 鈥淒ignidade do homem!鈥 A exuberante cultura-Cle贸patra sempre joga p茅rolas de valor incalcul谩vel em seu c谩lice de ouro: essas p茅rolas s茫o as l谩grimas da compaix茫o para com os escravos e a mis茅ria dos escravos. Do amolecimento do homem moderno nasceram as monstruosas calamidades sociais do presente, e n茫o da verdadeira e profunda miseric贸rdia com rela莽茫o 脿quela mis茅ria; e se chegasse a ser verdade que os gregos sucumbiram por causa da escravid茫o, 茅 muito mais certo que n贸s sucumbiremos por causa da falta de escravid茫o: nem para os primeiros crist茫os, nem para os germ芒nicos, essa escravid茫o parecia ser indecente, quanto mais censur谩vel. Que efeito sublime tem sobre n贸s a contempla莽茫o dos servos medievais, com as rela莽玫es interiormente fortes e delicadas entre eles aquele que pertencia a uma ordem mais alta, com o cerco profundo de sua exist锚ncia 鈥 que sublime 鈥 mas t茫o cheio de censuras!

Quem n茫o pode refletir sem melancolia sobre a configura莽茫o da realidade, quem aprendeu a compreende-la como sendo o nascimento cont铆nuo e doloroso daquele homem cultural emancipado em cujo servi莽o todo o resto tem de consumir-se, tamb茅m n茫o ser谩 mais enganado pelo brilho mentiroso que os modernos estendem sobre a origem e o significado do estado. O que mais o estado pode significar para n贸s, sen茫o o meio com o qual o processo social descrito anteriormente 茅 levado adiante, sendo garantida sua dura莽茫o sem entraves. O impulso para a sociabilidade ainda pode ser muito forte nos homens isolados, mas a mola de ferro do estado oprime tanto as massas mais numerosas que agora aquela separa莽茫o qu铆mica da sociedade precisa ser produzida, acompanhando sua nova constru莽茫o piramidal. De onde surge, por茅m, este poder s煤bito do estado, cuja meta est谩 al茅m do exame e al茅m do ego铆smo do homem singular? Como se gerou o escravo, a toupeira cega da cultura? Em seu instinto de direito popular, os gregos o denunciaram, e mesmo no apogeu de sua civiliza莽茫o e de sua humanidade, jamais deixaram de pronunciar palavras como: 鈥淥 vencido pertence ao vencedor, com mulher e filho, com bens e sangue. 脡 a viol锚ncia que d谩 o primeiro direito, e n茫o h谩 nenhum direito que n茫o seja em seu fundamento arrog芒ncia, usurpa莽茫o, ato de viol锚ncia鈥.

Aqui vemos novamente a rigidez sem compaix茫o com que a natureza, para chegar 脿 sociedade, forjou a ferramenta cruel do estado 鈥 aquele conquistador com m茫o de ferro, que nada mais 茅 do que a objetiva莽茫o do instinto mencionado. Quem considera a grandeza e poder indefin铆veis desse conquistador nota que se trata apenas de meios para uma inten莽茫o, que se evidencia neles, mas tamb茅m se oculta. Como se uma vontade m谩gica emanasse deles, as for莽as mais fracas aderem-se velozmente, de modo enigm谩tico, e 茅 miraculosa a sua transforma莽茫o em uma afinidade que at茅 ent茫o n茫o existia, na presen莽a daquela avalanche de viol锚ncia que de repente ganha volume, e sob o encanto daquele n煤cleo criador.

A monstruosa inevitabilidade do estado, sem o qual a natureza n茫o conseguiria se redimir pela sociedade, no brilho e no espelho do g锚nio, exprime-se quando vemos como os que foram submetidos pouco se preocupam com a origem assustadora do estado, tanto que n茫o h谩 no fundo nenhum acontecimento que a historiografia ensine de maneira pior do que a realiza莽茫o daquelas usurpa莽玫es s煤bitas, violentas e, pelo menos em um ponto, n茫o esclarecidas. Exprime-se quando os cora莽玫es se contrap玫em involuntariamente frente 脿 m谩gica do estado em gera莽茫o, com o pressentimento de uma inten莽茫o de fundo invis铆vel, no lugar onde o entendimento calculador s贸 茅 capaz de ver uma adi莽茫o de for莽as; e por fim, quando se considera ardentemente o estado como meta e cume de sacrif铆cios e deveres do homem singular. Que conhecimentos o prazer instintivo do estado n茫o supera! Mas dever铆amos pensar que voltar os olhos para o surgimento do estado seria procurar sua salva莽茫o a uma dist芒ncia enorme. E onde n茫o se podem ver os monumentos de seu surgimento, terras devastadas, cidades destru铆das, homens que voltaram a ser selvagens, 贸dio ardente entre povos?! O estado, de nascimento infame, 茅 uma fonte cont铆nua e fluida de fadiga para a maioria dos homens, em per铆odos que retornam constantemente, o archote devorador da esp茅cie humana 鈥 e no entanto um som nos faz esquecer de n贸s mesmos, um grito de guerra que entusiasmou incont谩veis feitos her贸icos verdadeiros, talvez o objeto mais elevado e digno para a massa cega e ego铆sta, que s贸 nos momentos mais monstruosos da vida do estado tem a estranha express茫o da grandeza em sua face!

No que concerne 脿 altura solar da sua arte, temos que definir os gregos a priori como 鈥渙s homens pol铆ticos em si鈥; e realmente a hist贸ria n茫o conhece nenhum outro exemplo de um desencadeamento t茫o medonho do impulso pol铆tico, de um sacrif铆cio t茫o incondicional de todos os outros interesses a servi莽o desse instinto de estado 鈥 no m谩ximo, poderiam ser indicados com o mesmo t铆tulo os homens do Renascimento italiano, para uma compara莽茫o ou por motivos semelhantes. Entre os gregos, esse impulso 茅 t茫o carregado que sempre volta a se enfurecer contra si mesmo e a fincar os dentes na pr贸pria carne. Essa rivalidade sangrenta de uma cidade contra a outra, de uma fac莽茫o contra a outra, essa cobi莽a mort铆fera das pequenas guerras, o triunfo de tigre sobre o cad谩ver do inimigo abatido, em poucas palavras a renova莽茫o ininterrupta daquelas cenas de batalha e horror em Tr贸ia, em cuja contempla莽茫o vemos Homero mergulhar cheio de entusiasmo, como aut锚ntico heleno 鈥 em que sentido interpretar tal barb谩rie inocente do estado grego? De onde ele retira sua desculpa diante da cadeira do juiz do direito eterno? Orgulhoso e quieto, o estado avan莽a: quem o conduz pela m茫o 茅 a magn铆fica mulher que floresce, a sociedade grega. Por essa Helena, ele fez aquela guerra 鈥 que juiz de barba grisalha poderia condena-lo? 鈥

No meio dessa misteriosa conex茫o que pressentimos entre o estado e a arte, cobi莽a pol铆tica e gera莽茫o art铆stica, campo de batalha e obra de arte, entendemos por estado, como j谩 foi dito, a mola de ferro que impele o processo social. Sem estado, no natural bellum omnium contra omnes,(3) a sociedade n茫o pode de modo algum lan莽ar ra铆zes em uma escala maior e a鈥檒em do 芒mbito familiar. Agora, ap贸s a forma莽茫o do estado por toda parte, o impulso do bellum omnium contra omnes, de tempos em tempos, concentra-se em terr铆veis nuvens de guerra dos povos, descarregando-se como que em trov玫es e rel芒mpagos mais raros, mas tamb茅m muito mais fortes. Nos intervalos, contudo, sobra tempo para a sociedade germinar e verdejar, sob o efeito daquele bellum concentrado e dirigido para dentro, a fim de deixar a flor luminosa do g锚nio brotar assim que surjam alguns dias mais quentes.

Tendo em vista o mundo pol铆tico dos helenos, n茫o quero ocultar em quais manifesta莽玫es do presente acredito reconhecer perturba莽玫es perigosas da esfera pol铆tica, t茫o cr铆ticas para a arte quanto para a sociedade. Se deve haver homens que, por nascimento, situam-se fora dos instintos do povo e do estado, deixando o estado prevalecer somente quando o tomam em seu pr贸prio interesse: tais homens inevitavelmente haver茫o de imaginar como meta 煤ltima do estado a mais imperturb谩vel vida em conjunto de grandes comunidades pol铆ticas, nas quais seria permitido que eles perseguissem antes de tudo as pr贸prias inten莽玫es, sem limites. Com essas no莽玫es na cabe莽a, ir茫o fomentar a pol铆tica que oferece a tais inten莽玫es a maior seguran莽a, enquanto 茅 impens谩vel que devam se sacrificar como que conduzidos por um instinto inconsciente, 脿 tend锚ncia estatal, impens谩vel justamente porque carecem daquele instinto. Todos os outros cidad茫os do estado permanecer茫o 脿s escuras, seguindo cegamente aquilo que a natureza intenta atrav茅s deles com seu instinto estatal; s贸 os que est茫o de fora deste instinto sabem o que eles querem do estado e o que o estado deve conceder-lhes. Por isso n茫o h谩 como impedir que tais homens adquiram uma grande influ锚ncia sobre o estado, porque eles o consideram como meio, enquanto todos os outros, sob o poder daquelas inten莽玫es inconscientes do pr贸prio estado, 茅 que s茫o apenas meios para as finalidades do estado. E agora, para alcan莽ar as mais elevadas exig锚ncias de suas metas ego铆stas pelos meios estatais, antes de tudo o estado deve libertar-se completamente daquelas contra莽玫es terr铆veis e irregulares da guerra, de modo a ser usado racionalmente; e, nessa situa莽茫o, a guerra 茅 uma impossibilidade. Aqui conv茅m, primeiro, podar e abrandar o m谩ximo poss铆vel os impulsos pol铆ticos particulares e, pela fabrica莽茫o de grandes corpos estatais equilibrados e das garantias m煤tuas de seguran莽a entre eles, tornar altamente improv谩vel o 锚xito de uma guerra de ofensiva, e com isso da guerra em geral. 脡 assim que procuram arrancar de qualquer detentor isolado do poder as quest玫es da decis茫o de guerra e paz, sobretudo para que possam apelar ao ego铆smo das massas ou de seus representantes: para tanto t锚m de apagar lentamente os instintos mon谩rquicos dos povos. Aproximam-se desse fim pela expans茫o generalizada da concep莽茫o de mundo liberal e otimista, que tem suas ra铆zes nas doutrinas do Iluminismo e da Revolu莽茫o Francesa, isto 茅, em uma filosofia totalmente n茫o-germ芒nica, n茫o-metaf铆sica, autenticamente superficial e rom芒nica. No movimento nacionalista dominante hoje em dia e na expans茫o do direito de voto universal, n茫o posso deixar de ver antes de tudo os efeitos do medo da guerra, sim, e enxergo no fundo desse movimento que quem propriamente tem medo s茫o aqueles eremitas monet谩rios, internacionalistas, despatriados, que, por sua falta natural do instinto estatal, aprenderam a utilizar abusivamente a pol铆tica e os estado e a sociedade como aparatos de seu pr贸prio enriquecimento, por meio da bolsa. Contra o desvio da tend锚ncia estatal para a tend锚ncia monet谩ria, a ser temido deste ponto de vista, o 煤nico ant铆doto 茅 a guerra e sempre a guerra: em cuja agita莽茫o fica muito claro, pelo menos, que o estado n茫o se fundamenta no medo do dem么nio da guerra, como institui莽茫o protetora dos homens ego铆stas, mas que no amor 脿 terra natal e ao pr铆ncipe produz-se um 铆mpeto 茅tico, que aponta uma determina莽茫o muito mais elevada. Assim, quando indico, como caracter铆stica perigosa da pol铆tica presente, uma mudan莽a dos pensamentos revolucion谩rios a servi莽o de uma aristocracia monet谩ria ego铆sta e desestatizada, quando, do mesmo modo, compreende a monstruosa expans茫o do otimismo liberal como resultado da economia monet谩ria moderna, ca铆da em m茫os que lhe s茫o estranhas, e vejo todos os males da situa莽茫o social, incluindo a decad锚ncia necess谩ria da arte, ou nascerem daquela raiz ou crescerem junto com ela num emaranhado: terei que entoar oportunamente um canto de louvor 脿 guerra. Atemorizante, seu arco de prata ressoa: e cai como a noite, 茅 Apolo, o deus que consagra e purifica o estado. Mas primeiro, como diz o come莽o da Il铆ada, ele atira a flecha nos animais de carga e nos c茫es(4). E s贸 ent茫o de encontro aos pr贸prios homens, e por toda parte os cad谩veres ardem sobre fogueiras. Que seja dito ent茫o: a guerra 茅 uma necessidade para o estado, tanto quanto o escravo 茅 para a sociedade. E quem gostaria de se privar desses conhecimentos, se perguntassem honestamente pelos fundamentos da perfei莽茫o inigual谩vel da arte grega?

Quem considera a guerra e sua uniforme possibilidade, a condi莽茫o de soldado, com rela莽茫o 脿 ess锚ncia do estado descrita at茅 aqui, deve concluir que, pela guerra e na condi莽茫o de soldado, uma imagem 茅 colocada diante de nossos olhos, talvez o modelo original do estado. Aqui vemos, como efeito geral da tend锚ncia guerreira, uma separa莽茫o e uma divis茫o imediata da massa ca贸tica em castas militares, pela qual a constru莽茫o da 鈥渟ociedade guerreira鈥 se ergue em forma de pir芒mide, sobre uma vasta camada inferior dos escravos. A finalidade inconsciente do movimento como um todo p玫e sob seu jugo cada homem singular, provocando uma esp茅cie de transforma莽茫o qu铆mica nas particularidades de naturezas heterog锚neas, at茅 que alcancem uma afinidade com suas finalidades. Nas castas superiores nota-se um pouco melhor o que est谩 em jogo, no fundo, nesse processo: a gera莽茫o do g锚nio militar 鈥 que conhecemos como o fundador original do estado. Em alguns estados, por exemplo na Constitui莽茫o Espartana de Licurgo, pode-se distinguir claramente o molde daquela id茅ia fundamental do estado, a gera莽茫o do g锚nio militar. Imaginemos agora o estado militar original em viva atividade, em seu 鈥渢rabalho鈥 pr贸prio, e levemos toda a t茅cnica da guerra para diante de nossos olhos. N茫o podemos evitar de corrigir nosso conceito, espalhado por toda parte, da 鈥渄ignidade do homem鈥 e 鈥渄ignidade do trabalho鈥, perguntando-nos se o conceito de dignidade tamb茅m serve para o trabalho que tem como finalidade o aniquilamento de homens 鈥渄ignos鈥, se serve tamb茅m para os homens a quem esse 鈥渢rabalho digno鈥 茅 confiado, ou se nessa tarefa guerreira do estado tais conceitos n茫o se anulam mutuamente, como coisas contradit贸rias entre si. Eu teria de pensar que o homem guerreiro 茅 um meio para o g锚nio militar, e que seu trabalho tamb茅m 茅 apenas um meio para o mesmo g锚nio; n茫o 茅 como homem em sentido absoluto e como n茫o-g锚nio que lhe cabe um grau de dignidade, mas ele como meio para o g锚nio 鈥 que tamb茅m pode admirar seu aniquilamento como meio para a obra de arte guerreira, 鈥 aquela dignidade, nesse caso, de ser dignificado como meio para o g锚nio. Mas o que se mostra aqui em um 煤nico exemplo vale do sentido mais geral: cada homem, como conjunto de seus atos, tem dignidade 脿 medida que 茅 instrumento do g锚nio, de modo consciente ou inconsciente; a conseq眉锚ncia 茅tica que se conclui imediatamente da铆 茅 que o 鈥渉omem em si鈥, o homem em sentido absoluto n茫o possui nem dignidade, nem direito, nem deveres: o homem s贸 pode justificar sua exist锚ncia como a de um ser totalmente determinado, servindo a finalidades inconscientes.

Segundo essas considera莽玫es, o Estado perfeito de Plat茫o 茅 certamente algo maior do que pode acreditar mesmo o seu adorador de sangue mais quente, sem falar na express茫o risonha de superioridade, com a qual nossos eruditos 鈥渉istoriogr谩ficos鈥 sabem rejeitar tal fruto da antiguidade. Aqui, uma inten莽茫o po茅tica inventa e pinta com rudeza a meta pr贸pria do estado, a exist锚ncia ol铆mpica e a gera莽茫o e prepara莽茫o sempre renovadas do g锚nio, diante de que tudo mais n茫o passa de instrumento, aux铆lio e condi莽茫o de possibilidade. Plat茫o olhou atr谩s e os pilares de Hermes, terrivelmente devastados na vida do estado em sua 茅poca, e percebeu ainda algo de divino em seu interior. Acreditou que era poss铆vel extrair esta imagem divina, e que o lado exterior, furioso e barbaramente desfigurado, n茫o pertencia 脿 ess锚ncia do estado: todo o ardor e a eleva莽茫o de sua paix茫o pol铆tica se lan莽am sobre esta cren莽a, sobre este desejo 鈥 ele se consome nessa brasa. Que ele n茫o tenha colocado o g锚nio em seu conceito geral no cume de seu estado perfeito, mas apenas o g锚nio da sabedoria e do saber, que ele tenha exclu铆do por completo o seu estado os artistas geniais, isso foi uma conseq眉锚ncia intransigente do julgamento socr谩tico sobre a arte, que Plat茫o tinha feito seu, uma batalha consigo mesmo. Essa lacuna mais exterior e quase acidental n茫o deve nos impedir de reconhecer, do conjunto da concep莽茫o do estado plat么nico, o hier贸glifo imenso de um ensinamento secreto da conex茫o entre estado e g锚nio, que permanecer谩 sendo eternamente o que se deve interpretar em sua profundidade: o que pretendemos ter adivinhado de tal escrito secreto ficou dito neste pref谩cio. 鈥


Notas

(1) As palavras alem茫s Not e Bed眉rfnis s茫o traduzidas, muitas vezes, por 鈥渘ecessidade鈥. Como sempre, no caso de sin么nimos, tais palavras possuem uma diferen莽a sutil de significado, que a tradu莽茫o normalmente deixa de lado. No caso deste terceiro pref谩cio, n茫o se pode abrir m茫o da diferen莽a, pois o autor se utiliza dela repetidamente. A palavra Not, no texto, quer dizer algo que n茫o pode ser evitado, uma necessidade no sentido de algo que precisa ser feito inevitavelmente. Por isso, optamos por traduzir Not com a express茫o esfor莽o inevit谩vel, enquanto o termo 鈥渘ecessidade鈥, aqui, fica reservado para Bed眉rfnis 鈥 por exemplo, na tradu莽茫o do verbo bed眉rfen, do qual o substantivo 茅 derivado, por 鈥渘ecessitar鈥, ou em Kunstbed眉rfnis: 鈥渘ecessidade de arte鈥. (N. do T.)

(2) 鈥淪ombra de um sonho鈥: cita莽茫o de uma express茫o de Homero, retirada de uma passagem da Odiss茅ia, mais precisamente do canto XI, quando Odisseu narra ao rei Alcinoo sua ida ao Hades. Com seus companheiros, ele consulta a alma do adivinho Tir茅sias, que lhe indica o caminho a ser seguido no retorno a 脥taca. Mas Odisseu tamb茅m encontra as almas de outros conhecidos, entre elas a de sua m茫e, com quem tem a oportunidade de falar novamente. Durante a conversa, ela evita o seu abra莽o, o que o leva a perguntar se a deusa Pers茅fone, mulher de Hades, lhe teria enviado apenas um 鈥渇antasma ilus贸rio鈥. Na resposta, a m茫e de Odisseu diz: 鈥淣茫o, n茫o te engana Pers茅fone, a filha de Zeus poderoso: esse o destino fatal dos mortais, quando a vida se acaba, pois os tend玫es de prender j谩 deixaram as carnes e os ossos. Tudo foi presa de for莽a indom谩vel das chamas ardentes logo que o esp铆rito vivo a ossatura deixou alvacenta. A alma, depois de evolar-se, esvoa莽a qual sombra de sonho.鈥 (XI, 219-224 鈥 Tradu莽茫o de Carlos Alberto Nunes)

(3) Guerra de todos contra todos.

(4) No canto I da Il铆ada, depois de ter sido expulso do acampamento grego, o sacerdote Crises dirige uma ora莽茫o a Apolo, pedindo que se vingue. Segue-se a descri莽茫o do momento em que o deus vem em aux铆lio de Crises: 鈥淥 cora莽茫o indignado, se atira dos cumes do Olimpo; atravessado nos ombros leva o arco e o cascas bem lavrado. A cada passo que d谩, cheio de ira, ressoam-lhe as flechas nos ombros largos; 脿 noite semelha, que baixa terr铆vel. Longe das naves se foi assentar, donde as flechas dispara. Do arco de prata come莽a a irradiar-se um clangor pavoroso. Primeiramente, investiu contra os mulos e c茫es veloc铆ssimos; mas logo ap贸s contra os homens dirige seus dardos pontudos, exterminando-os...鈥 (Il铆ada I, 44-52)



NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Cinco pref谩cios para cinco livros n茫o escritos. 3潞 Edi莽茫o. Tradu莽茫o e pref谩cio: Pedro S眉ssekind. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2005.
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