O homem e a morte
Manuel Bandeira
O homem j谩 estava deitado
Dentro da noite sem cor.
Ia adormecendo, e nisto
脌 porta um golpe soou.
N茫o era pancada forte.
Contudo, ele se assustou,
Pois nela uma qualquer coisa
De pressago adivinhou.
Levantou-se e junto 脿 porta
鈥 Quem bate? Ele perguntou.
鈥 Sou eu, algu茅m lhe responde.
鈥 Eu quem? Torna. 鈥 A Morte sou.
Um vulto que bem sabia
Pela mente lhe passou:
Esqueleto armado de foice
Que a m茫e lhe um dia levou.
Guardou-se de abrir a porta,
Antes ao leito voltou,
E nele os membros gelados
Cobriu, hirto de pavor.
Mas a porta, manso, manso,
Se foi abrindo e deixou
Ver 鈥 uma mulher ou anjo?
Figura toda banhada
De suave luz interior.
A luz de quem nesta vida
Tudo viu, tudo perdoou.
Olhar inef谩vel como
De quem ao peito o criou.
Sorriso igual ao da amada
Que amara com mais amor.
鈥 Tu 茅s a Morte? Pergunta.
E o Anjo torna: 鈥 A Morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.
鈥 Imaginava-te feia,
Pensava em ti com terror...
脡s mesmo a Morte? Ele insiste.
鈥 Sim, torna o Anjo, a Morte sou,
Mestra que jamais engana,
A tua amiga melhor.
E o Anjo foi-se aproximando,
A fronte do homem tocou,
Com infinita do莽ura
As magras m茫os lhe cerrou...
Era o carinho inef谩vel
De quem ao peito o criou.
Era a do莽ura da amada
Que amara com mais amor.
BANDEIRA, Manuel. "O homem e a morte". In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Jos茅 Aguilar Editora, 1974. p. 276-277.