Fabr铆cio de Lima

Idade: 37 Registrado: 28/09/09 Mensagens: 37
|
|
Trevas
Eu tive um sonho que n茫o era em todo um sonho
O sol espl锚ndido extinguira-se, e as estrelas
Vagueavam escuras pelo espa莽o eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manh茫 - Veio e n茫o trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paix玫es, no horror
Dessa desola莽茫o; e os cora莽玫es esfriaram
Numa prece ego铆sta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
Os pal谩cios dos reis coroados, as cabanas,
As moradas, enfim, do g锚nero que fosse,
Em chamas davam luz; As cidades consumiam-se
E os homens juntavam-se junto 脿s casas 铆gneas
Para ainda uma vez olhar o rosto um do outro;
Felizes enquanto residiam bem 脿 vista
Dos vulc玫es e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
Queimavam-se as florestas - mas de hora em hora
Tombavam, desfaziam-se - e, estralando, os troncos
Findavam num estrondo - e tudo era negror.
脌 luz desesperante a fronte dos humanos
Tinha um aspecto n茫o terreno, se espasm贸dicos
Neles batiam os clar玫es; alguns, por terra,
Escondiam chorando os olhos; apoiavam
Outros o queixo 脿s m茫os fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para c谩 e para l谩,
Alimentando a pira, e a vista levantavam
Com doida inquieta莽茫o para o trevoso c茅u,
A mortalha de um mundo extinto; e ent茫o de novo
Com maldi莽玫es olhavam para a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas in煤teis; as mais rudes feras
Chagavam mansas e a tremer; rojavam v铆boras,
E entrela莽avam-se por entre a multid茫o,
Silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo,
E qualquer refei莽茫o comprava-se com sangue;
E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma id茅ia s贸 - e era a de morte
Imediata e ingl贸ria; e se cevava o mal
Da fome em todas as entranhas; e morriam
Os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
Os c茫es salteavam seus donos, exceto um,
Que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
Em guarda as bestas e aves e famintos homens,
At茅 a fome os levar, ou os que ca铆am mortos
Atra铆rem seus dentes; ele n茫o comia,
Mas com um gemido comovente e longo, e um grito
R谩pido e desolado, e relambendo a m茫o
Que j谩 n茫o o agradava em paga - ele morreu.
Finou-se a multid茫o de fome, aos poucos; dois,
Dois inimigos que vieram a encontrar-se
Junto 脿s brasas agonizantes de um altar
Onde se haviam empilhado coisas santas
Para um uso profano; eles a resolveram
E tr锚mulos rasparam, com as m茫os esquel茅ticas,
As d茅beis cinzas, e com um d茅bil assoprar
E para viver um nada, ergueram uma chama
Que n茫o passava de arremedo; ent茫o al莽aram
Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro - ao ver gritaram e morreram
- Morreram de sua pr贸pria e m煤tua hediondez,
- Sem um reconhecer o outro em cuja fronte
Grafara o nome "Diabo". O mundo se esvaziara,
O populoso e forte era uma informe massa,
Sem esta莽玫es nem 谩rvore, erva, homem, vida,
Massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada
Mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
Caindo os mastros aos peda莽os; e, ao ca铆rem,
Dormiam nos abismos sem fazer mareta,
mortas as ondas, e as mar茅s na sepultura,
Que j谩 findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim; a escurid茫o n茫o precisava
De seu aux铆lio - as trevas eram o Universo.
Lord Byron
(Tradu莽茫o de Castro Alves) |
|