Fabr铆cio de Lima

Idade: 37 Registrado: 28/09/09 Mensagens: 37
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DI脕LOGOS ENTRE HIST脫RIA E LITERATURA
um col贸quio
alberto lins caldas
Departamento de Hist贸ria 鈥 UFRO
Centro de Hermen锚utica do Presente
www. albertolinscaldas.unir.br
albertolinscaldas@yahoo.com.br
1. HIST脫RIA:
a 鈥 a Hist贸ria 茅 o discurso burgu锚s por excel锚ncia, b谩sico discurso do capital, disciplinamento do tempo como ex-press茫o viva do disciplinamento ritualizado das produ莽玫es.
b 鈥 resultante e produtor dos poderes hier谩rquicos, funcionalizadores dos ritmos corporais: um tipo de corpo cria a Hist贸ria (o corpo-servo-das-cortes, o corpo-servo-dos-mercadores, o corpo-servo-dos-letrados) e a Hist贸ria cria um tipo de corpo (o corpo-trabalhador, o corpo-consumista, o corpo-despolitizado).
c 鈥 a fun莽茫o b谩sica da Hist贸ria 茅 criar uma cortina de fuma莽a, um ofuscamento, sobre a m谩quina tribal, escondendo q o tempo n茫o 茅 uma dimens茫o do passado, q nada est谩 no passado, nada aconteceu, q as explora莽玫es, q o horror, n茫o est谩 no passado, essa fic莽茫o despolitizada, essa zona morta de todas as metaf铆sicas, mas q o horror est谩, sempre, no imediato: q toda politicidade 茅 uma dimens茫o imediata de luta, n茫o um rememorar reacion谩rio: nada mais reacion谩rio, doente, adoecedor, ressentido q a mem贸ria.
d 鈥 a fun莽茫o-miss茫o da Hist贸ria 茅 despolitizar o imediato (煤nico l贸cus da politicidade), esvazi谩-lo de poder, tornando-o apenas o lugar dos fluxos de informa莽茫o, o lugar das m铆dias, a resultante esvaziada de um longo chegar q n茫o chega.
e 鈥 as imensas e extensas redes temporais q s茫o o passado, estendidas todas antes do imediato, se abrem cada vez mais e mais 鈥渓onge鈥, afastando a politicidade de sua a莽茫o, o corpo da sua atividade pol铆tica: a Hist贸ria 茅 essa estrat茅gia de nunca chegar ao agora. no agora, ela gagueja, titubeia, balbucia, se remete 脿 m铆dia, a opini茫o, ao senso comum.
f 鈥 pra Hist贸ria a 煤nica realidade s茫o as cinzas e os historiadores, e todos os produtores e reprodutores das fun莽玫es estatais do conhecimento, do saber, da beleza, n茫o passam de c茫es de guarda da m谩quina tribal e seu bom funcionamento. fora desse protecionismo, nem a Hist贸ria nem nenhuma Ci锚ncia, consegue justificar sua exist锚ncia, ideologia das produ莽玫es, das despolitiza莽玫es, dos disciplinamentos. h谩 muito tempo n茫o conseguimos viver fora da Hist贸ria: j谩 somos d贸ceis demais pra ousar viver fora do tempo, viver contra o tempo.
2. LITERATURA:
a 鈥 temos a impress茫o, porq ouvimos sempre, q a Literatura sempre existiu. e tome Literatura eg铆pcia, Literatura Persa, Literatura grega, Literatura Chinesa, Literatura medieval, Literatura asteca, Literatura sumeriana.
b 鈥 escrever hist贸rias, lendas, f谩bulas, mitos, poemas n茫o 茅 escrever Literatura. Literatura 茅 uma coisa muito mais perniciosa, lesiva, evasiva e hidrof贸bica (teme o q flui, o q jorra, teme os devires): 茅 uma mercadoria, q nasce sendo vendida, sendo feita pra vender, pra circular num mercado sendo transformada em dinheiro. sem dinheiro, sem o est铆mulo do dinheiro, sem mercado, sem compradores n茫o h谩 Literatura.
c 鈥 shakespeare n茫o escrevia pro deleite de uns poucos escolhidos, mas pra produzir dividendos, recolher dinheiro de espectadores e, no fim da vida, uns trocados pela venda de suas pe莽as em livro. cervantes n茫o escrevia pra seu prazer 铆ntimo, solit谩rio e pra uns escolhidos, mas para um mercado 谩vido de leitores e ele, ansioso por respeitabilidade, por reconhecimento. quanta diferen莽a dos proven莽ais q escreviam pra uma musa intoc谩vel ou agora bem pr贸xima, o marido t茫o distante. goethe n茫o escrevia pra aprimorara sua compreens茫o do mundo, mas pra brilhar nas cortes e receber em troca poder, dinheiro e prest铆gio. balzac e dostoievski vendiam criteriosamente cada capitulo pros jornais e cada vez mais por mais dinheiro, e s贸 escreviam por dinheiro. os livros de besteseleres e paulo coelho n茫o s茫o exce莽玫es na Literatura, mas a norma, o c贸digo, a forma, a raz茫o, o desejo, o sentido, os procedimentos (sempre olig谩rquicos).
d 鈥 isso 茅 Literatura: aquilo, ou aquela escrita q n茫o enfrenta o horror, q se despolitiza no nascedouro porq precisa vender, precisa agradar, precisa alisar sem morder, ou morder delicadamente, respeitosamente, precisa cumprir sua fun莽茫o produtora, reprodutora, capacho. fora dessas fun莽玫es a literatura escorrega sem sentido.
e 鈥 L铆ngua domesticada, L铆ngua dom茅stica, L铆ngua domesticadora; L铆ngua da-na莽茫o, L铆ngua do estado, L铆ngua de deus, L铆ngua de padres, L铆ngua de letrados, L铆ngua de professores de portugu锚s, L铆ngua de sabatinadores; L铆ngua dos filhos dos senhores de engenho, dos senhores do mercado, dos senhores das terras, dos senhores do comercio, L铆ngua comerciante, L铆ngua industrial, L铆ngua latifundi谩ria; L铆nguas das sinhazinhas casadoiras, L铆ngua de advogados, L铆ngua da lei, L铆ngua dos leitores-estudantes-filhos-de-papai; L铆ngua das igrejas, L铆ngua das salas-de-jantar, L铆ngua das salas-de-aula, L铆ngua dos shopingcenteres, L铆ngua das m铆dias, L铆ngua respeit谩vel; L铆ngua dos corpos d贸ceis, imbecis, tolos e sabidos dos leitores: todo leitor 茅 um idiota, e nada mais idiota q um leitor, q mente q busca, q est谩 em busca, quando na verdade quer apenas dominar, se expandir, fazer bonito, expor sua sapi锚ncia de quintal e quarto da mam茫e, um impotente tentando esconder sua fraqueza diante dos q 鈥渧ivem a vida na dureza鈥.
3. O DI脕LOGO:
a 鈥 q di谩logo pode haver entre dois grandes discursos, duas grandes 鈥渇orma莽玫es discursivas鈥, discursos do capital, das sociedades burguesas, discursos da domestica莽茫o, do mercado, do poder e do dinheiro? discursos q se camuflam em iluminadores, em salvadores, no bem, no certo, no bom, no melhor: discursos moralizantes, crist茫os, estatais 鈥 essas s茫o as pontes, os mediadores, o di谩logo 鈥 o estado, o mercado, a igreja, a m铆dia, a escola, o ex茅rcito, as leis. o di谩logo entre a Hist贸ria e a Literatura s茫o objetivos, concretos, reais, terra-a-terra. s茫o exemplarmente funcionais.
b 鈥 vejamos a Literatura do pa铆s de vcs. 茅 uma estrutura pan贸ptica, imperial e republicana, q vai e vem de macedo 谩 mar莽al realizando exemplarmente sua fun莽茫o estatal, nacionalizadora, mercantil. seja macedo vendendo seus livros em tabuleiros levados por escravos ou mar莽al vendendo seus livros nas melhores editoras sendo logo transformados em filmes, o conte煤do 茅 sempre o mesmo: bairrismos, localismos, nacionalismos, regionalismos escondidos, se apresentando como grandes obras. basta ver o insosso machado de assis q nunca passou de um escritor-funcion谩rio e exatamente por isso se tornou o eixo dessa Literatura de terceira categoria, Literatura q nem consegue extrapolar seu territ贸rio, ou guimar茫es rosa travestindo o mais chulo regionalismo em jogos de palavras pra esconder exatamente seu inescap谩vel regionalismo, q todos chamam universalismo precisamente porq assim se esconde sua pequenez rid铆cula.
c 鈥 vejamos a Hist贸ria. de varnhagen (o visconde de Porto Seguro) a gilberto freyre (q daria tudo pra ser visconde de qualquer coisa) a 鈥淗ist贸ria do Brasil鈥, assim como a Literatura brasileira, nascem como projeto imperial na d茅cada de trinta do s茅culo dezenove. projetos imperiais e republicanos, projetos q a obra de mentecaptos como jos茅 de alencar sintetiza bem: ela cria e recria e p玫e for莽as na na莽茫o, nos limites da na莽茫o, nos costumes da na莽茫o, na L铆ngua de oligarcas e de padres da na莽茫o. o brasil 茅 uma cria莽茫o est煤pida n茫o apenas de 鈥渇or莽as produtivas鈥, de 鈥渕odos de produ莽茫o鈥, de col么nias e rep煤blicas, de governos, de militares panacas e advogados sabich玫es, mas tudo isso 茅 assado, cozido, frito no fogo brando e perverso dos saberes, da Literatura brasileira e da Hist贸ria.
e ainda se acredita em di谩logo! |
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