Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



PROUST EM DOIS TEMPOS - Alberto Lins Caldas

 
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Fabr铆cio de Lima




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MensagemEnviada: 18/05/2010 - 16:59:03    Assunto: PROUST EM DOIS TEMPOS - Alberto Lins Caldas Responder com cita莽茫o

PROUST EM DOIS TEMPOS
as miragens do texto


Dedico este 鈥渢exto鈥 ao querido, distante e sempre pr贸ximo
Mestre Gl谩ucio Veiga, que me ensinou a amar Proust, Kafka e Balzac
entre as inumer谩veis conversas sobre Kant, Hegel e Marx.

incipit

Os dois pequenos ensaios iniciais foram publicados no Di谩rio de Pernambuco em 10 e 31 de julho de 1981, quando afrontava, pela segunda vez, a Busca sem fim de Proust, tendo, em meu primeiro con-tato em 1975, me provocado um horror apaixonado que n茫o deixou registros maiores que simples notas no pr贸prio livro. Esses ensaios n茫o honram uma leitura da Busca e representam uma derrota diante de pon-tos de partida que retinham a obra dentro de teorias insuficientes para deixarem fluir a escritura e seu vazio germinativo: antolhos de uma 鈥渓iteratura鈥 trivial e rasteira criando olhos cegos como se vissem. Di-zem, esses curtos artigos, somente o 贸bvio, o culturalmente aceito e o esperado: d谩 voltas e n茫o entra: repete e n茫o sabe: reproduz e n茫o se d谩 conta. Pude somente ler a Busca em sua plenitude depois de 1989 (a segunda leitura da Com茅dia Humana em 1988 parou no quinto volu-me), quando iniciei a inscri莽茫o de 鈥淏abel鈥 e a literatura tomou outro e inesperado rumo, queimando todas as p谩ginas anteriores, todas as teori-as, saberes e pr谩ticas. Como Proust est谩 no centro daquilo que conside-ro literatura, e tenho retomado velhos escritos sobre a quest茫o, voltar 脿s minhas pr贸prias concep莽玫es sobre Proust 茅 retomar fios perdidos, ca-minhos destra莽ados, leituras sempre recome莽adas e reelaboradas, para uma escritura que se far谩 sempre contra os arredores, contra o tempo e contra a l铆ngua e, se der tempo, ainda se far谩 maior que seus inescap谩-veis limites, limites da virtualidade, n茫o da L铆ngua, da Cultura, do Pa铆s. Al茅m disso, acrescento algumas notas bordadas num imediato sem busca, sem intelig锚ncia, sem vergonha, envolvido como estou na teia rid铆cula dos gabinetes passageiros e das conversas vulgares: talvez Proust seja uma ligeira mas profunda tentativa de fuga, principalmente porque nessa noite escura s贸 resta literatura, a mesma de Proust.


O ROMANCE EM PROUST

O papel do romancista em Proust prende-se a rela莽茫o objeto-consci锚ncia. A consci锚ncia proustiana n茫o estabelece um contato direto com o objeto, que permanece inacess铆vel, na sua mat茅ria, a um apro-fundamento intelectivo. O objeto se 鈥渄issolve鈥 antes que haja este con-tato. Os sentidos s茫o impotentes para esta opera莽茫o que se far谩, n茫o na atividade sens贸ria, mas atrav茅s do artista, que funde, como um todo percept铆vel, a interioridade 脿 exterioridade, formando com isso a ima-gem liter谩ria que possibilita a posse do objeto na sua ess锚ncia. A ima-gem liter谩ria em Proust 茅 o 煤nico elemento capaz de tornar transl煤cido a opacidade do objeto.
A vida torna-se secund谩ria enquanto a cria莽茫o, ao congelar o tempo e transform谩-lo em coisa palp谩vel e real possibilidade de apro-fundamento, toma o lugar da vida; os acontecimentos cotidianos, ao serem percebidos, escondem o seu interior, enquanto a imagem liter谩ria desencadeia emo莽玫es e aventuras que, em pouco tempo, coagulam uma vida inteira nelas. Em Proust o Dram谩tico s贸 茅 real 脿 consci锚ncia en-quanto cria莽茫o. Proust recria a vida ao desprezar a vida. O personagem proustiano n茫o 茅 real, real 茅 o que sentimos, o que experimentamos, mentalmente, desse personagem.
O achado do romancista foi substituir, no objeto, as partes ina-cess铆veis por uma totalidade racionaliz谩vel, construindo a partir da铆 uma 鈥渙ntologia鈥 que, ao admitir o tempo como din芒mica que impossi-bilitaria a consci锚ncia de chegar at茅 a coisa, se fundamenta na consci-锚ncia como recriadora do mundo.
Mas em Proust existe uma for莽a que arrasta a consci锚ncia ao mundo, como que para ultrapass谩-la e chegar at茅 脿s coisas. Nesse mo-mento, aparentemente, existe uma igualdade entre o interior que perce-be e a coisa percebida. Um fr谩gil momento. Encontra-se realmente o eco da alma, o que ela projetou sobre as coisas e n茫o o exterior. Encon-tra-se tamb茅m a desilus茫o, pois se esperava um mundo em combina莽茫o com a consci锚ncia e n茫o a dissocia莽茫o entre a cria莽茫o desse mundo e o mundo.




PROUST E A MEM脫RIA

A temporalidade proustiana 茅 鈥渄epositada鈥 em dois 鈥渃omparti-mentos鈥 da mem贸ria. O primeiro, 茅 o da mem贸ria volunt谩ria. Nela, Combray estava incompleta, como se 鈥渃onsistisse apenas em dois anda-res ligados por uma estreita escada, e como se nunca fosse mais que sete horas da noite鈥. O restante permanecia na treva, escondido e 鈥渕or-to鈥. O que era lembrado vinha da intelig锚ncia que n茫o conserva, segun-do Proust, a plenitude vivida. A consci锚ncia, desse modo, 茅 impotente para a posse da vida, sendo apreendida atrav茅s da obra de arte, tendo como fonte prim谩ria a mem贸ria involunt谩ria.
A consci锚ncia proustiana 茅 a 鈥渧ergonha鈥 de ser aut么noma, de ser ordenadora, e chave mestra do recriar fecundo e constante do mun-do humano. Ela n茫o 茅 reflexo do ser social nem social na sua estrutura; 茅, antes de tudo, o boneco sem for莽as do inconsciente, que n茫o entre em rela莽茫o com o mundo f铆sico de tempo universal, mas apenas com o tempo psicol贸gico, pessoal. Por isso o romance de Proust tem como personagens e paisagens, a vida do homem Proust. Ele 茅 o pr贸prio ro-mance, a reinstaura莽茫o est谩tica da din芒mica desprezada da vida.
Proust nos fala sobre a cren莽a c茅ltica da transmigra莽茫o das al-mas, daqueles que amamos e perdemos, para objetos e animais, e que para libertarmos essas entidades, basta passar por perto ou toc谩-lo, que-brando o encanto. 鈥淟ibertadas por n贸s, venceram a morte e voltam a viver conosco鈥. Essa lenda 茅 associada ao nosso passado, 脿quilo que est谩 nas m茫os da mem贸ria involunt谩ria, e apenas ser谩 nosso quando entrarmos em contato com ela. A beleza da obra de Proust est谩 nessa atmosfera de sonho revivido pela Arte com maestria inigual谩vel.
A Madeleine proustiana 茅 a passagem, o caminho entre o cons-ciente e o inconsciente. 脡 a coisa exterior que faz a liga莽茫o entre o per-cebido presente e aquele percebido esquecido por viv锚ncias mais fortes e presentes. No momento em que Proust toca a Madeleine misturada ao ch谩, a ess锚ncia de Combray, a totalidade perdida 茅 reinstaurada. A liga-莽茫o entre dois 鈥渕undos鈥 茅 feita, mas n茫o sem um esfor莽o do conscien-te, e uma sensa莽茫o de alegria e bem-estar faz com que cesse a determi-na莽茫o do Ser, fadado 脿 morte, sem sa铆da poss铆vel da deteriora莽茫o cons-tante, e final absoluto como Ser-no-Tempo, a n茫o ser, pela fixa莽茫o des-se universo pessoal fazendo da domestica莽茫o do tempo, obra de arte. Transformar a din芒mica rebelde do mundo em 鈥渆st谩tica鈥 art铆stica 茅 papel de Proust e da arte como salva莽茫o individual.
Mas a volta dessas lembran莽as perdidas n茫o induz apenas a uma sensa莽茫o explorat贸ria por parte da vontade, mas tamb茅m um criar e recriar desse momento inconsciente, agora consciente. Essa vontade n茫o se satisfar谩 com o pouco dado pelo toque do objeto, mergulhando em busca do todo escondido e o desancorar谩 para luz.

OUTRO TEMPO/OUTRO PROUST

1 - Proust n茫o escreveu 鈥淓m Busca do Tempo Perdido鈥 para 鈥渃ontar sua vida鈥, seu tempo, seu mundo: mas para inscrever, num vazio denso, num deslimite de v谩cuo, no impreciso de um n茫o existir, precisas obsess玫es, precisos n贸s, precisas dobradi莽as. A Busca torna 鈥渟ua hist贸ria鈥, 鈥渟eu mundo鈥, 鈥渟eu tempo鈥, artif铆cios, coberturas, iscas carregadas de desejo, estetiza莽玫es em volta de n煤cleos de pura repeti-莽茫o. Em volta dessas obsess玫es cresce uma vegeta莽茫o textual luxurian-te: uma prolifera莽茫o viral: uma infesta莽茫o bacteriana: uma erup莽茫o: isso 茅 o texto proustiano: algo que cresceu em torno de tens玫es criando pon-tes entre outras tens玫es e seus casulos, dando-nos a sensa莽茫o de 鈥渢exto corrido鈥 (鈥渧asos comunicantes鈥: a passagem do l铆quido, do g谩s, do magma, da eletricidade, do sil锚ncio, do nada em busca de tudo): ilus玫es da repeti莽茫o que escorrem na diferen莽a. Sua meta liter谩ria 茅 vomitar esses n贸s; 茅 esconder esses n贸s; 茅 ex-p么r esses n贸s; 茅 dobradi莽alizar esses n贸s: sua magia ad-vem desses artif铆cios miraculosos. Antes de Proust praticamente ningu茅m levou este 鈥渕茅todo鈥 ao paroxismo da segrega莽茫o absoluta em torno de quase nada: uma cadeia de obsess玫es que n茫o cessa e no fim o oroboro do texto morde o rabo e come莽a a se devorar novamente, sempre diferente, numa repeti莽茫o sem fim e t茫o magistralmente orquestrada que praticamente n茫o aparece, pois o oro-boro morde outro rabo, outra cobra entre cobras envolvidas numa orgia semi贸tica.
2 - A Busca n茫o 茅 leitura que exija um tempo comum, o tempo da leitura de um livro: exige uma vida (exigiria vidas!). 脡 a leitura de uma exist锚ncia, dedicada a tudo que uma exist锚ncia precisa, mas com a Busca sempre voltando, sempre indo, sempre mergulhando, sempre sendo re-vista. Na verdade ningu茅m l锚 a Busca: n茫o se pode jamais se dizer que a Busca foi lida.
3 - N茫o h谩, na Busca, o tempo: 茅 tanto uma ilus茫o do narrador, uma pretens茫o do homem Proust quanto dos te贸ricos e cr铆ticos, levados por aquilo que diz o texto enquanto algo manifesto: sua fun莽茫o 茅, assim como a hist贸ria, as tramas, servir de isca para desviar, nos levando, fisgados, para outro lugar que o leito encantat贸rio das palavras encade-adas, das imagens, do musgo vivo e sagrado daquele flu-ir. Os n贸dulos assim se escondem, escondendo a radical ficcionalidade, a natureza de alegoria e met谩fora: o narrador nos faz esquecer a atmosfera on铆rica, pastosa, irreal de tudo aquilo: a cria莽茫o se esconde. Ele em muitos luga-res nos convence da racionalidade, da l贸gica, da perspectiva dele, da recria莽茫o do passado: e tudo 茅 somente clivagem, repeti莽茫o que se es-conde e literatura que aparece como mem贸ria (outro conceito inexisten-te em Proust), como o vivido, a hist贸ria, o tempo real e hist贸rico, o biogr谩fico. Esse mesmo biogr谩fico que Proust em 鈥淐ontre Sainte-Beuve鈥 desenvolveu como um engodo do cr铆tico franc锚s, mas ningu茅m se d谩 conta quando 鈥渆studa鈥 a Busca. Ali n茫o est谩, em nenhum momen-to e mais que qualquer outro 鈥渁utor鈥, nada de biogr谩fico, de vivencial. Em primeiro lugar, da mesma maneira que no 鈥渙bjeto cadeira鈥 (ainda e sempre palavra) n茫o h谩 nada da palavra 鈥渃adeira鈥; em segundo, porque o vivido n茫o se torna, 鈥渁ssim como foi鈥, numa narrativa: a narrativa tem l贸gicas pr贸prias, e mesmo a mais fria descri莽茫o 茅 somente algo separado daquilo que descreve: a ilus茫o historiogr谩fica 茅 uma marca que, se n茫o des-obstru铆da, esconde a escrita, a ficcionalidade e sua pr贸-pria condi莽茫o. A verdade comunicativa, sua positividade e resposta, se aplica plenamente na trivialidade do cotidiano. Na literatura essa trivia-lidade (quando o texto, que 茅 dissipa莽茫o e n茫o ente, sujeito e travessia, 茅 tratado como se fosse uma reprodu莽茫o, um reflexo desse mundo trivi-al) leva, normalmente, 脿 teorias rid铆culas e prim谩rias.
4 - Da mesma maneira que nenhum Deus est谩 em nenhuma ora莽茫o, realidade, c茅u, inferno, plano ou corpo, - o tempo, a mem贸ria, a hist贸ria ou o vivido jamais est茫o em nenhum texto e, principalmente, no texto proustiano: est茫o l谩 somente como uma miragem do texto: sem essas miragens n茫o h谩 o texto: sem essas miragens n茫o h谩 o real.
5 - A Busca n茫o 茅 a escritura de uma 鈥渧ida lembrada鈥, mas a escritura de uma vida, a cria莽茫o de uma vida, uma inven莽茫o essencial (茅 assim que o ser 茅). A tessitura n茫o do recordado, mas o avesso do bor-dado ao se destecer, ou a conquista de Pen茅lope, a aus锚ncia do tecido, a liberdade do destecer e do destecido enquanto tecido, a liberdade subs-tancial do destecido: a Busca 茅 um destecido: o tecido do esquecimento, n茫o um positivista recordar, que 茅 sempre um dizer e n茫o um dizer-o-que-foi: a ilus茫o jur铆dica, policial, cient铆fica, a mesma ilus茫o historio-gr谩fica, n茫o pode ser aplicada 脿 literatura (ou 脿 arte): as colm茅ias do texto revelam o pr贸prio ser: n茫o 茅 que as colm茅ias do ser produzam as colm茅ias do texto, mas que as colm茅ias do texto re-velam o pr贸prio ser.
6 - A Busca n茫o 茅 circular: o fim n茫o remete ao come莽o; tam-b茅m n茫o 茅 linear: 茅 estruturalmente dissipativa; caos ordenando-se se-gundo n贸dulos precisos que falsamente se articulam; temporalidade delirante, on铆rica, m铆tica. Da mesma maneira que o 鈥渢empo do mundo鈥 (todos os tempos das gal谩xias culturais) n茫o 茅 um tempo cient铆fico (f铆-sico, hist贸rico, psicol贸gico), mas essencialmente m铆tico, tempo de des-dobramentos singulares no eixo de exist锚ncia do imediato do presente (com os desdobramentos que criam o tempo como uma dimens茫o m铆ti-ca e tr铆bia), o tempo proustiano 茅 desdobramento dissipativo onde nada realmente se relaciona com nada: o efeito de rela莽茫o 茅 ilus茫o narrativa.
7 - Todo 鈥渃onhecimento objetivo鈥 ou 鈥渟aber鈥 que possa advir de uma obra liter谩ria 茅 t茫o somente uma duplica莽茫o da pr贸pria teoria (Filosofia, Ci锚ncia) que a projeta na obra como subst芒ncia dela e n茫o como algo de/em si mesma.
8 - Dizem que 茅 preciso ter paci锚ncia para ler as compactas tr锚s mil p谩ginas da Busca, mas n茫o se trata de livro comum. Da mesma maneira que n茫o se l锚 a B铆blia de uma vez, a Busca exige uma vida, idas e vindas, trilhas e caminhos, perdi莽玫es e achamentos: jamais relei-tura: a Busca n茫o 茅 jamais relida: 茅 sempre lida.
9 - A Busca n茫o 茅 鈥渞etrato de uma sociedade鈥, 鈥渄escri莽茫o de uma 茅poca鈥, 鈥渂iografia romanceada鈥, 鈥渕ergulho no universo da bur-guesia francesa鈥, 鈥渆xerc铆cio de mem贸ria鈥, 鈥渆xerc铆cio de leitura鈥, 鈥渞e-constru莽茫o da hist贸ria de uma vida鈥: a Busca, assim como as 鈥渕itolo-gias鈥, s茫o desvendamentos do ser: assim como o real se constitui, assim como n贸s somos formatados, assim a Busca se des-dobra: des-vendar o pr贸prio ser 茅 a raz茫o da sua exist锚ncia.
10 - A Busca 茅 m贸bile sem suporte, sem mat茅ria, armado e em movimento, corrigindo a cada plano, num m煤ltiplo di谩logo, sua apre-senta莽茫o de existir. Com uma intelig锚ncia daquela leitura diz e desdiz sempre de maneiras diferentes, dependendo sempre do arranjo feito pela leitura, feita-constru铆da pelos movimentos da Busca: sujeito aut么-nomo, oscila莽茫o livre. Como a Busca 茅 viva, a leitura pode mat谩-la: como 茅 morta, sem forma, sem estrutura, v谩cuo des-animado, pode ser posta a viver. In-animada, quando se p玫e a viver n茫o depende de n贸s; animada, comunga com as cristaliza莽玫es do mundo mineral e s贸 existe por n贸s. O morto ouvindo a vida; a vida amando a morte.
11 - A obra de arte liter谩ria n茫o 茅 algo que conjuga os tra莽os da virtualidade futura a partir do seu-ponto-de-cria莽茫o, mas sempre do seu-ponto-de-leitura. 脡 a vit贸ria do nada sobre o tudo; a conquista do vazio sobre o objeto; o avan莽o do sujeito contra o limite; o fr谩gil suces-so da literatura sobre o mercado; a supera莽茫o da pequena-burguesia pela arte.
12 - Marcel Proust 茅 dobra vazia da Busca: ela 茅 quem pode tentar explic谩-lo, preench锚-lo, faz锚-lo viver, existir ou ter existido: ja-mais a Busca ser explicada ou preenchida por ele. Marcel Proust n茫o existiu: 茅 um poss铆vel personagem da Busca, uma dobra de alguma poss铆vel leitura. O homem Marcel Proust s贸 pode ser falado depois da Busca, jamais como sua origem (ilus茫o da pr贸pria obra).
13 - A ilus茫o balzaquiana de Proust e dos proustianos resiste somente se mantido conceitos naturalizados como suporte cr铆tico (Na-tureza, Sociedade, Hist贸ria). O retorno balzaquiano, a volta de caracte-res, de personagens e de lugares (as espec铆ficas repeti莽玫es de Balzac), na Busca, 茅 leitura, aplica莽茫o metodol贸gica (v铆cio cr铆tico). O Swann do 鈥減rimeiro volume鈥 n茫o 茅 o Swann do 鈥渧olume segundo鈥: e n茫o 茅 por-que envelheceu, casou com Odete, ou porque 茅 pai de uma chata: 茅 outro: a densidade vazia da Busca constr贸i sempre outro (n茫o caiamos na conversa do 鈥渘arrador鈥: a ilus茫o dele 茅 a mesma da cr铆tica e a alegria das metodologias que encontram o que buscavam): n茫o se envelhece como se envelhece na Com茅dia Humana: o retorno proustiano n茫o 茅 o retorno balzaquiano: as cren莽as de Balzac investiram a Com茅dia de uma 鈥渘atureza historiogr谩fica鈥, de uma 鈥渧erdade de cart贸rio鈥 inextir-p谩vel por quase todas as leituras, mesmo as mais 鈥渆svaziantes鈥: na Com茅dia n茫o h谩 o vazio denso, o v谩cuo que atrai qualquer realidade, n茫o h谩 o contra Sainte-Beuve, o contra a hist贸ria, o contra a Natureza, o contra a L铆ngua: na Busca, t茫o cheia, t茫o plena, t茫o impada de tudo at茅 a n谩usea, h谩 somente brechas imensas onde corre o vento das lingua-gens da leitura. A nobreza ou a burguesia balzaquianas s茫o estud谩veis por marxismos, positivismos e teorias liter谩rias; por economias, socio-logias e estruturalismos; a nobreza ou a burguesia proustiana n茫o exis-te: s茫o dobras falsas, miragens textuais, v铆cios das cr铆ticas, das leituras e das historiografias que ali v茫o em busca daquilo que dominam, para n茫o enfrentarem o vazio, o sil锚ncio, a imagina莽茫o, o caos.
14 - O 鈥渆u鈥 balzaquiano 茅 o mesmo dos jornais, das Ci锚ncias, da Filosofia, do senso comum, da 鈥淟iteratura鈥: o 鈥渆u鈥 da Busca mente: s铆ntese e supera莽茫o dos 鈥減ontos de vista鈥, 茅 nulidade de ser que se torna sempre o 鈥渆u鈥 do leitor: sempre fora: sempre al茅m das p谩ginas: como o fora das 鈥淢eninas鈥 de Vel谩squez. 脡 ali de fora que vem esse 鈥渆u鈥: esse eu 茅 um fora: tudo na Busca est谩 sempre fora.
15 - No entanto h谩 um Proust em Balzac, um horizonte de leitu-ra, de literatura, de vazio e v谩cuo: quando ele deixa de ser 鈥渞omancis-ta鈥, 鈥渆scritor鈥, 鈥渃ronista da sua 茅poca鈥: da mesma maneira que o Flau-bert de 鈥淢adame Bovary鈥 e o Nerval de 鈥淪ilvia鈥, Proust 茅 o grande mestre de Balzac: aquele de quem nasce o melhor desses tr锚s escritores. Inverter a equa莽茫o seria n茫o compreender as dire莽玫es liter谩rias, sempre opostas, dispersivas, radiculares e m煤ltiplas. Ao mesmo tempo n茫o h谩 a Busca sem mim (leitor, obsessivo numa busca qualquer): portanto, as-sim como Proust vem antes de Balzac, de Flaubert ou Nerval, venho eu antes de Proust. Mas tamb茅m h谩 a Busca nas 鈥淐onfiss玫es鈥 de Rousse-au, nas atmosferas e na l铆ngua de Chateaubriand, no brilho m煤ltiplo e contradit贸rio de Hugo, em 鈥淢adame Bovary鈥, em 鈥淪ilvia鈥 e 鈥淎ur茅lia鈥 de Nerval, num conto de William Wilkie Collins chamado 鈥淯ma Cama Terrivelmente Esquisita鈥, em Gide, em Baudelaire, nos parnasianos, nos simbolistas e nos impressionistas: uma literatura, uma obra, nasce como reuni茫o de tra莽os, atmosferas, imagens, tons dispersos em muitas outras obras, liter谩rias ou n茫o, em muitas vozes anteriores, presentes ou futuras (tempos e homens e coisas atra铆dos pelo v贸rtice), que ela articu-la 鈥渧isceralmente鈥 num corpo agora e enfim definitivamente reunido, como aquela amada perdida, dispersa em infinitos rostos para sempre incompletos, ou aqueles sinais dispersos em mulheres diversas que se re煤nem numa mulher agora encontrada.
16 - Exatamente porque ali n茫o h谩 nada 茅 que podemos ver tudo, ou ver o que sempre se quis ver, ou o que se disse que l谩 estaria para ver.
17 - A 鈥渆nergia de decifra莽茫o鈥 e a 鈥減rocura de ess锚ncia鈥 da Busca reduzem o universo a uma explos茫o de palavras, imagens, signos em choque, em fluxo, no tempo. O 鈥渞esultado鈥 hologr谩fico da leitura 茅 o vazio (sempre insuficiente): a densidade m谩xima anula o som, a luz, o significado, o significante: tudo 茅 arrastado para n茫o-ser: e assim a lite-ratura se realiza: o que parece 鈥渞etrato de uma 茅poca鈥 se torna 鈥渂uraco negro鈥: todas as outras realidades s茫o arrastadas ali para dentro: po铆茅sis.
18 - Aquele que encontra a Busca vai perd锚-la, mas quem per-d锚-la vai ach谩-la.
19 - A Busca deve coincidir com uma busca para que essa bus-ca infle o vazio, o v谩cuo que o atraiu. 脡 essa busca que criar谩 a Busca. N茫o h谩 uma Busca de Proust: 茅 o 煤nico, ou um dos primeiros, escritores sem busca, sem escritura, sem l铆ngua, sem mat茅ria: sua paix茫o desa-guou, se misturou com tantas outras 谩guas que 茅 imposs铆vel haver sepa-ra莽玫es.
20 - Uma literatura que nos assalta com uma superabund芒ncia de impress玫es: linguagem sem chaves: essa impossibilidade de achar o fio (labirinto sem centro, sem entrada e sem sa铆da: sem labirinto), de agarrar o animal, conjugando conflitos, a莽ulando for莽as, destravando obsess玫es, compondo linguagens, vozes, dis-cursos.
21 - Na busca n茫o h谩 sequer um narrador: o Marcel 茅 somente um dos m煤ltiplos narradores articulados, camuflados em dobradi莽as, em apar锚ncias: h谩 narradores at茅 para frases articuladas: essa multipli-cidade cria a ilus茫o de um 煤nico narrador: ilus茫o do pr贸prio 鈥渁utor鈥.
22 - A hiperdensidade (o ac煤mulo de duplicidades, de inver-s玫es, de flu铆res, de multiplica莽玫es generalizadas, de descri莽玫es galopan-tes, de min煤cias encadeadas, de articula莽玫es distantes ou muito pr贸xi-mas) cria o inverso do denso, do real, do concreto: faz desaparecer o ser: s贸 na apar锚ncia h谩 alguma coisa. Obscuridade em vez de ilumina-莽茫o; opacidade em vez de transpar锚ncia, vazio em vez de cheio. A con-seq眉锚ncia para certa leitura 茅 a transforma莽茫o de tudo em esquemas, modelos, hist贸rias: algo que facilite a leitura: como se ali houvesse alguma coisa e n茫o todas as coisas, ou a possibilidade de todas as coi-sas: a pr贸pria virtualidade nua: entre o caos e o ser. Reduzir a Busca a uma hist贸ria, a uma vis茫o de mundo, a uma filosofia, a uma 鈥渂iografia romanceada鈥, facilita as coisas, reduz e anula a Busca a ser uma sim-ples hist贸ria, mais uma hist贸ria. Ali h谩 uma filosofia e uma vis茫o de mundo vazias, em desforma de v谩cuo para atrair outros mundos, crian-do um espa莽o privilegiado de literatura: um hiperespa莽o, um lugar de todos os lugares, um imenso 鈥渂uraco de Alice鈥.
23 - A Busca olha para todos os pontos, quando olha. Por isso n茫o h谩 olhar proustiano, mas uma 鈥渕谩quina ins贸lita鈥, olho-de-mosca ligado a uma seq眉锚ncia infinita de olhos-de-mosca, movimento aluci-nante de ver que descria o olhar.
24 - A bibliografia proustiana 茅 quest茫o 脿 parte. Uma for莽a a rasga em duas: h谩 os que pr茅-sentem o nada, o v谩cuo que atrai toda realidade, re-significando-a, e os que se entregam descaradamente ao 鈥渞omance biografia鈥. O que prevalece 茅 esta segunda perspectiva, prin-cipalmente porque os que sentem o v谩cuo, o ser que atrai os seres, a literatura na sua ess锚ncia, a alquimia realizada, a literatura (a arte) co-mo o ritual da ca莽a futura, magia que recria mundos, n茫o conseguem articular uma concep莽茫o de literatura que escape aos 鈥渃onceitos b谩si-cos鈥 da ocidentalidade nem 脿 id茅ia de literatura como algo-ligado a L铆ngua, a Hist贸ria, a G锚neros, a Autores e Geografias.

(Alberto Lins Caldas,Litera Mundi,PROUST EM DOIS TEMPOS)
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