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Excerto de Os Irmãos Karamázov

 
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t. h. abrahao

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MensagemEnviada: 05/04/2005 - 03:00:32    Assunto: Excerto de Os Irmãos Karamázov Responder com citação

Exclamation Estou colocando o trecho a seguir porque me chamou a atenção o fato de se tratar de um assunto largamente elucidado em Crime e Castigo, outra obra de Dostoiévski, e remeter diretamente à filosofia de Nietzsche.


Excerto de Os Irmãos Karamázov
por Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski



"A chegada de Dmitri Fiodorovitch demorara apenas uns dois minutos, de forma que não havia motivo para interromper a palestra. Mas, desta vez, Piotr Alexandrovitch não se sentiu obrigado a responder à instante e quase irritada pergunta do Padre Paissi.

— Permita-me evitar esse tópico — disse ele com certa displicência mundana — pois constitui um tema árduo. Repare em Ivan Fiodorovitch, que se ri de nós; decerto também tem desta vez algo de curioso a dizer. Interrogue-o.

— Nada de particular, salvo urna ligeira observação, respondeu Ivan Fiodorovitch. — É que, em termos gerais, o liberalismo europeu e até mesmo o nosso diletantismo liberal russo, já há algum tempo, e com freqüência, vêm confundindo os fins concretos do socialismo com os do cristianismo. Essa extravagante conclusão é sem dúvida um traço característico. Aliás, socialismo e cristianismo confundem não só os liberais e os diletantes, como também simultâneamente os policiais — de além-fronteira, é claro. Sua anedota parisiense é bem característica, Piotr Alexandrovitch.

— Em termos gerais, torno a lhes pedir permissão para deixar esse tema, — repetiu Piotr Alexandrovitch. — E em vez disso contarei aos senhores uma outra anedota, referente ao próprio Ivan Fiodorovitch, muito interessante e característica. Há cêrca de cinco dias, em certa tertúlia local, composta principalmente por senhoras, ele declarou solenemente durante urna discussão que nada existe na terra, nada, que obrigue o homem a amar os seus semelhantes, e que se esse amor existiu e ainda existe no mundo, não é em virtude de urna suposta lei natural, mas da crença que têm os homens na sua própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, de passagem, que a Isso se reduz toda a lei natural — e que se se extirpasse ao gênero humano a sua fé na imortalidade, imediatamente se acabaria, não só o amor, corno também toda força viva capaz de prolongar a vida universal. Mais ainda: quando não houvesse mais imortalidade, tudo seria lícito, até mesmo a antropofagia. E para cúmulo, terminou afirmando que para cada indivíduo particular — como nós agora, por exemplo — que não acredite em Deus nem na imortalidade, a lei moral da natureza deve imediatamente se transformar na antítese completa do que era antes, no oposto da lei religiosa; e que o egoísmo, e até mesmo o crime, não só devem ser permitidos ao homem, mas até considerados como lei incontestável e nobre. Por este paradoxo, senhores, poderão julgar tudo que é dito pelo nosso querido, excêntrico e paradoxal Ivan Fiodorovitch.

— Queiram perdoar-me... — falou inopinadamente Dmitri Fiodorovitch. — Se não ouvi mal, o crime não só deve ser lícito mas até reconhecido como a saída lícita e lógica para o ateu! É isso mesmo?

— Isso mesmo — apoiou o Padre Paissi.

— Não o esquecerei.

E ao dizer isso, Dmitri Fiodorovitch calou-se tão de repente quão de repente falara. Todos voltaram a olhá-lo, curiosos.

— Será que efetivamente o senhor está convencido de que seriam essas as conseqüências da extinção da fé entre os homens? — perguntou o starets a Ivan Fiodorovitch.

— Sim, foi o que afirmei. Não há boas ações se não há imortalidade.

— Feliz do senhor, se acredita nisso — ou desgraçado de si!

— Desgraçado por quê? — inquiriu sorrindo Ivan Fiodorovitch.

— Porque o mais provável é que não acredite nem na imortalidade da sua alma, nem nisso que escreveu a respeito da Igreja e dos tribunais eclesiásticos.

— Pode ser que o senhor tenha razão... Mas, apesar de tudo, eu não falava por zombaria — confessou Ivan Fiodorovitch, corando de maneira estranha.

— Não, não zombava, isso é verdade. Essa idéia ainda não está resolvida no seu coração, e isso o tortura. Mas o supliciado gosta às vezes de brincar com o seu desespero, como se o procurasse esquecer. O senhor também agora se diverte corri o próprio desespero... e com artigos nos jornais, e polêmicas nos salões — sem entretanto dar crédito à sua própria dialética, com dor no coração, rindo-se dela em segredo... No seu íntimo, a questão não está resolvida, e nisso se cifra a sua grande amargura, porque ela exige que a resolvam!"




Editado pela última vez por Lenore em 11/05/2006 - 15:15:34; num total de 1 vez
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