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Um Fantasma - Charles Baudelaire

 
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t. h. abrahao

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MensagemEnviada: 11/04/2005 - 09:45:17    Assunto: Um Fantasma - Charles Baudelaire Responder com citação

Um Fantasma
por Charles Baudelaire



I. As trevas


Nos porões de tristeza impenetrável
Onde o destino um dia me esqueceu;
Onde jamais um róseo raio ardeu,
Só com a noite, hospedeira intratável,

Sou qual pintor que um deus, por diversão,
Na treva faz mover seus pincéis,
Ou o cozinheiro de apetites cruéis
Que assa e devora o próprio coração.

Súbito brilha e faz ali presente
Fantasma esplêndido e de graça extrema
Em oriental postura evanescente.

Ao atingir a perfeição suprema,
Nele percebo a bela visitante:
Ei-la! Negra e contudo fulgurante.



II. O Perfume


Leitor, tens já por vezes respirado
Com embriaguez e lenta gostosura
O grão de incenso que enche uma clausura
Ou de um saquinho o almíscar entranhado?

Sutil e estranho encanto transfigura
Em nosso agora a imagem do passado.
Assim o amante sobre o corpo amado
À flor mais rara colhe o que perdura.

Da cabeleira espessa como crina,
Turíbulo de alcova, ébria almofada,
Vinha uma essência rútila e indomada,

E das vestes, veludo e musselina,
Que sua tenra idade penetrava,
Um perfume de pêlos se evolava.



III. A Moldura


Como à tela se ajusta uma moldura
– Não importa do artista a sutileza –,
Isolando-a da imensa natureza,
Um não-sei-quê de mágica textura,

Assim jóias, metais e douradura
Ajustavam-se à sua irreal beleza;
Nada ofuscava-lhe a integral clareza,
E tudo lhe era como cercadura.

Dir-se-ia muita vez que ela supunha
Tudo existir para adorá-la e expunha
Sua nudez com gozo e encantamento

Às carícias do linho e do cetim,
E, suave ou brusca, a cada movimento
Mostrava a graça ingênua do sagüim.



IV. O Retrato


A Doença e a Morte tornam cinza todo
Aquele fogo que por nós ardeu.
Dos olhos a me olhar daquele modo,
Da boca onde meu ser se dissolveu,

Dos beijos sempre fiéis a uma ordem dada,
Dos êxtases mais vivos que fulgores,
Que resta? É horrível, ó minha alma! Nada
Mais que um pálido esboço de três cores

Que se extingue, como eu, na solitude,
E que o Tempo, sem pressa e em toda parte
Vai roçando com asa amarga e rude...

Negro assassino da Vida e da Arte,
Jamais hás de matar-me na memória
A que foi meu prazer e minha glória!
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