t. h. abrahao
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A Quest茫o da Morte de Deus
por Lu铆s H. Dreher
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Na breve comunica莽茫o diante de n贸s, trata-se de seguir um dos fios de uma problem谩tica maior que se tornou destino na modernidade e a persegue, a 鈥渜uest茫o da morte de Deus鈥. Com efeito, seria invi谩vel desfiar todos os fios do interior deste novelo s贸 em parte 鈥渇ilos贸fico鈥. O mais 贸bvio deles seria, talvez, o que leva a ressaltar as rela莽玫es de nossa quest茫o com o tema mais amplo do niilismo, especialmente em seu sentido reativo, n茫o especificamente nietzscheano;(1) pois que um niilismo afirmativo j谩 estaria, ele mesmo, como figura plenamente realizada, para al茅m da morte de Deus e no ambiente de seu esquecimento -- uma vez garantido, definitivamente, o esquecimento do pr贸prio Deus daquela tradi莽茫o moral e metaf铆sica em que por muito tempo situou-se o cristianismo.
Mas, deixando de lado uma abordagem direta deste tema aparentado do niilismo, optamos por perseguir o tema mais restrito da 鈥渕orte de Deus鈥 enquanto tal, numa perspectiva em parte teol贸gica e em parte hist贸rico-filos贸fica, atentando para os momentos de criatividade e viol锚ncia hermen锚utica presentes no desenrolar-se da problem谩tica. Mesmo ent茫o, a quest茫o da morte de Deus n茫o ser谩, enquanto quest茫o, tratada como um resultado, e nesse sentido, como resposta. Antes, trata-se de v锚-la como uma realidade em seu movimento, mas como movimento inconcluso e indecidido, ou at茅 indecid铆vel. Pois, como observa mais um leitor de J. Derrida: 鈥淣uma dada situa莽茫o, a confiss茫o da morte de Deus poderia ser parte de uma apolog茅tica crist茫 (Deus mesmo est谩 morto, escreve Hegel), enquanto em outra poderia ser uma forma de ate铆smo aberto (Deus est谩 morto, dizem os nietzscheanos).鈥 (2) Esta atmosfera de indecidibilidade parece-me 煤til, provendo ainda espa莽o para a perspectiva questionadora, esta sim adequada para retomar uma discuss茫o que se tornou tipicamente 鈥渕oderna鈥, sem querer esgot谩-la. Mas sobretudo sem querer congel谩-la como a vit贸ria de um humanismo autocondescendente, que se colocou no centro de um palco aonde deuses n茫o mais acorrer茫o.
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Entre os fil贸sofos que figuram de modo mais destacado na tematiza莽茫o da morte de Deus est茫o Hegel, Nietzsche e Heidegger. Num certo sentido, poder-se-ia incluir tamb茅m Feuerbach, Stirner e Schopenhauer; mas, como veremos de passagem, no nexo pr贸prio ao esfor莽o hermen锚utico que queremos envidar, especialmente Feuerbach aparece no m谩ximo como um elo, s贸 negativamente importante, da quest茫o da 鈥渕orte de Deus鈥. Acontece que Feuerbach se assume como pensador de um humanismo que j谩 est谩 mais al茅m da coloca莽茫o hegeliana de uma dial茅tica entre esp铆rito finito e infinito, dial茅tica captada pelo conceito que supera a raz茫o finita. Ora, esta coloca莽茫o hegeliana apresentara-se como reinven莽茫o da metaf铆sica ap贸s a opera莽茫o cr铆tica de Kant.
Quanto a Nietzsche e Heidegger, ambos se colocam al茅m do humanismo em geral, muito embora nos dois o discurso sobre o infinito de novo se tenha tornado problem谩tico, e apesar do fato de que nos dois o ser humano, como quer que agora seja reinterpretado, esteja decididamente 鈥渁 s贸s鈥 no come莽o da filosofia, tanto como ser de projeto e expectativa (Heidegger) quanto como ser de promessa, convocado 脿 auto-supera莽茫o (Nietzsche). De igual modo, em ambos n茫o se superou a defini莽茫o da filosofia como atividade que implica uma rela莽茫o necess谩ria com a metaf铆sica, mesmo que nos dois a necessidade desta rela莽茫o conforme um v铆nculo mais de 贸dio que de amor. Neste sentido, talvez neste somente, pode-se dizer que ambos ainda filosofam contra o registro de Hegel mas 脿 sua sombra, ainda que tenham dito 鈥渁deus鈥 脿quela definitiva formula莽茫o da raz茫o metaf铆sica e 脿quela proximidade penosamente re-conquistada entre infinito e finito, divindade e humanidade.
O texto que servir谩 de ocasi茫o, mas apenas de ocasi茫o a minhas observa莽玫es algo esparsas e certamente despretensiosas sobre a 鈥渜uest茫o da morte de Deus鈥 茅 da autoria de Heidegger, datado de 1943, e contido na colet芒nea Holzwege : 禄Nietzsches Wort Gott ist tot 芦(3) , 鈥淎 Palavra de Nietzsche: Deus est谩 Morto鈥. Em 1953, Karl L枚with observou, na parte do livro que cont茅m seu coment谩rio 脿 leitura heideggeriana de Nietzsche: 鈥淎 for莽a de seu pensamento filos贸fico [sc. de Heidegger] se liga a um motivo religioso鈥.(4) J谩 no tocante 脿 estrat茅gia de leitura de Heidegger, L枚with 茅 altamente cr铆tico. Heidegger teria tido dificuldade de 鈥渙bservar o limite t茫o preciso como um fio de cabelo em que nossa pr贸pria apropria莽茫o do pensamento de outrem transforma-se no alheamento daquele pensamento鈥.(5) Quanto a isso, 茅 claro que Heidegger reivindica 鈥減ensar o mesmo鈥(6) que Nietzsche; mas no geral, seria imposs铆vel deixar de observar a 鈥渧iol锚ncia鈥 do procedimento interpretativo de Heidegger.(7)
Quanto a mim, interessa-me anotar e aproveitar as duas observa莽玫es de L枚with sobre Heidegger, tanto a que enuncia seu 鈥渕otivo religioso鈥, quanto a que identifica o aspecto 鈥渧iolento鈥 de suas interpreta莽玫es particulares e de sua hermen锚utica, especialmente quando esta passa, como em Heidegger, a ser determinada pelo interesse no desenvolvimento de uma ontologia fundamental.(8.) Aproveito as observa莽玫es de L枚with, no entanto, por raz玫es diversas em cada caso.
No segundo caso, adianto minhas raz玫es: interessa-me aproximar-me da viol锚ncia interpretativa heideggeriana n茫o como justificada em si mesma, ou condenando-a em termos de exegese inadequada da hist贸ria da filosofia, mas em duas outras conex玫es. Primeiro, porque [1] 茅 justamente esta viol锚ncia interpretativa que permite retomar o 鈥渕otivo religioso鈥 intr铆nseco ao discurso teol贸gico-filos贸fico original sobre a 鈥渕orte de Deus鈥 na modernidade, um discurso que, por assim dizer, 鈥渄escarrilou鈥 parcialmente a partir de Hegel e definitivamente a partir de Strauss, Feuerbach e Stirner e Schopenhauer. E segundo, porque [2] a viol锚ncia interpretativa heideggeriana na verdade n茫o 茅 nova; ela d谩 seguimento a t谩ticas semelhantes adotadas tanto por Hegel quanto por Nietzsche antes dele. Para usar de uma imagem, caberia dizer que na interpreta莽茫o da quest茫o da 鈥渕orte de Deus鈥 ningu茅m 茅 literalmente inocente, mas todos s茫o c煤mplices.
Ainda hoje, existe um certo sentido em que o idioma da 鈥渕orte de Deus鈥 soa como mitologia fant谩stica aos ouvidos do senso comum que simplesmente escuta o discurso sobre Deus, e certamente aos ouvidos dos crentes que o ouvem.(9) Com efeito: como poderia Deus morrer, o Deus que foi concebido pela tradi莽茫o como s贸 sob um aspecto relacionado com o tempo, e, neste sentido, s贸 sob um aspecto mut谩vel e sujeito 脿 conting锚ncia, da qual o morrer 茅 a suprema intensifica莽茫o? Em outras palavras: que condi莽玫es te贸ricas devem ter preexistido na compreens茫o de Deus para que se pudesse falar, mais e mais, da morte de Deus?(10) Para esclarecer pelo menos parte destas condi莽玫es te贸ricas, devemos regressar aos in铆cios da formula莽茫o daquela que Hegel chamou de 鈥渁 religi茫o da modernidade鈥, que 鈥渞epousa sobre o sentimento: Deus mesmo est谩 morto.鈥(11)
Notas
(1) Para uma excelente apresenta莽茫o dos sentidos do niilismo, especialmente em Nietzsche, cf. Arthur C. DANTO. Nietzsche as Philosopher. New York: MacMillan, 1968.
(2) Kevin HART. Jacques Derrida: The God Effect. In: Philip BLOND. (Ed.) Post-Secular Philosophy : Between Philosophy and Theology, London: Routledge, 1998: 鈥淚n one situation the confession of God's death might be part of a Christian apologetics (God himself is dead, wrote Hegel) while in another it might be a forthright atheism (God is dead, say the Nietzscheans)鈥, p. 259-80, cit. p. 270.
(3) Martin HEIDEGGER. Nietzsches Wort 'Gott is tot'. In: Holzwege. 6. Aufl. Frankfurt: Vittorio Klostermann, 1980, p. 205-63.
(4) Karl L脰WITH, Martin Heidegger: Denker in d眉rftiger Zeit. 2. Aufl. G枚ttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1960, p. 72.
(5) Ibid., p. 79.
(6) HEIDEGGER, Nietzsches Wort 'Gott is tot', p. 209; L脰WITH, Martin Heidegger, p. 82.
(7) L脰WITH, Martin Heidegger, p. 82, 83 et passim.
(8.) Ibid., p. 75.
(9) Evidentemente, o que se faz ent茫o com tal 鈥渧eredito鈥 pode ser muito diferente de caso para caso: ou uma volta ao Deus do te铆smo e da metaf铆sica tradicional, no geral imune ao tempo; ou uma desist锚ncia de pensar Deus na filosofia, com o que se recai no humanismo enquanto tese tamb茅m metaf铆sica, desenvolvimento que se v锚 bem nos s茅culos XVIII e XIX, e consolidado, j谩 como pressuposi莽茫o, no positivismo do s茅culo XX.
(10) Ou bastaria, noutra perspectiva, pronunciar o veredito do esvaziamento do 鈥渕ar inteiro鈥 (鈥淲ie vermochten wir, das Meer auszutrinken?鈥; cf. Nietzsche apud HEIDEGGER, Nietzsches Wort 'Gott is tot', p. 211) a partir da hipertrofia da subjetividade, logo a partir de condi莽玫es intr铆nsecas 脿 defini莽茫o do humano somente, e de sua lida pr谩tica com o mundo e sua posi莽茫o existencial nele?
(11) Georg W. F. HEGEL, Glauben und Wissen, oder die Reflexionsphilosophie der Subjektivit盲t, in der Vollst盲ndigkeit ihrer Formen, als Kantische, Jacobische und Fichtesche Philosophie. (=Jenaer Kritische Schriften III). Hamburg: Meiner, 1986, p. 134; cf. a refer锚ncia ao texto de Hegel em HEIDEGGER, Nietzsches Wort 'Gott is tot', p. 210.
texto na 铆ntegra e notas em: http://www.eticaefilosofia.ufjf.br/5_2_dreher.htm |
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