Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



Erostrato - Jean-Paul Sartre

 
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MensagemEnviada: 10/08/2005 - 17:10:11    Assunto: Erostrato - Jean-Paul Sartre Responder com cita莽茫o

Erostrato
por Jean-Paul Sartre


脡 preciso ver os homens do alto. Eu apagava a luz e me punha 脿 janela. Eles n茫o supunham, absolutamente, que algu茅m pudesse observ谩-los de cima. Eles cuidam da fachada, 脿s vezes dos fundos, mas todos os efeitos s茫o calculados para espectadores de um metro e setenta. Quem jamais refletiu sobre o formato de um chap茅u-coco visto de um sexto andar? Eles n茫o pensam em defender os ombros e os cr芒nios com cores vivas e tecidos vistosos, n茫o sabem combater este grande inimigo do Humano: a perspectiva de alto para baixo. Eu me debru莽ava e come莽ava a rir; afinal, onde estava essa famosa 鈥減osi莽茫o ereta鈥 de que eram t茫o orgulhosos? Esmagavam-se contra a cal莽ada e duas longas pernas meio rastejantes sa铆am-lhes de sob os ombros.
A sacada de um sexto andar 鈥 eis onde eu deveria passar toda a vida. 脡 preciso escorar as superioridades morais com s铆mbolos materiais, sem o que elas se desmoronam. Ora, precisamente, qual 茅 minha superioridade sobre os homens? Uma superioridade de posi莽茫o, nada mais; estou colocado acima do humano que existe em mim e o contemplo. Eis por que gostava das torres da Notre-Dame, das plataformas da torre Eiffel, do Sacr茅-Coeur, do meu sexto andar da rua Delambre. S茫o excelentes s铆mbolos.
脌s vezes era preciso descer de novo at茅 a rua. Para ir ao escrit贸rio, por exemplo. Sentia-me sufocar. Quando se est谩 na mesma altura dos homens 茅 muito mais dif铆cil consider谩-los como formigas; eles esbarram. Uma vez, vi um tipo morto na rua. Ca铆ra de borco. Tinham-no virado, sangrava. Vi seus olhos abertos e seu ar espantado e todo aquele sangue. Dizia de mim para comigo: 鈥淚sto n茫o 茅 nada, n茫o 茅 mais emocionante do que uma pintura fresca. Pintaram-lhe o nariz de vermelho, eis tudo.鈥 Mas senti uma languidez estranha que me tomava as pernas e a nuca e desmaiei. Levaram-me a uma farm谩cia, deram-me sacudidelas nos ombros e 谩lcool. Eu os teria matado.
Sabia que eles eram meus inimigos mas eles n茫o o sabiam. Amavam-se entre si, ajudavam-se; e me teriam dado ajuda, ocasionalmente, porque acreditavam que eu era seu semelhante. Mas se pudessem adivinhar a mais 铆nfima parcela da verdade ter-me-iam batido. Fizeram-no mais tarde, ali谩s. Quando me prenderam e ent茫o souberam quem eu era, surraram-me, esmurraram-me durante duas horas, na pol铆cia, deram-me bofetadas e socos, torceram-me os bra莽os, arrancaram-me as cal莽as e depois, para terminar, atiraram meus 贸culos ao ch茫o e enquanto eu os procurava, de quatro, aplicaram-me, a rir, pontap茅s no traseiro. Sempre previ que acabariam por me bater; n茫o sou forte e n茫o posso defender-me. Alguns me vigiavam havia muito tempo 鈥 os grandes. Empurravam-me na rua, para rirem e verem o que eu faria. Eu n茫o dizia nada. Fingia n茫o ter compreendido. N茫o obstante, me pegaram. Sentia medo deles 鈥 era um pressentimento. Mas naturalmente 茅 f谩cil imaginar que minhas raz玫es para odi谩-los eram mais s茅rias.
Desse ponto de vista tudo come莽ou a ir melhor desde o dia em que comprei um rev贸lver. A gente se sente forte quando carrega constantemente consigo uma dessas coisas que podem explodir e fazer barulho. Apanhava-o no domingo, punha-o muito simplesmente no bolso da cal莽a e depois ia passear 鈥 geralmente nos bulevares. Eu o sentia repuxando minha cal莽a como um caranguejo, sentia-o de encontro 脿 minha coxa, muito frio. Pouco a pouco ele se aquecia em contato com o meu corpo. Eu andava com alguma rigidez, tinha o todo de um homem que est谩 tendo uma ere莽茫o e que, a cada passo, precisa conter-se. Deslizava com a m茫o no bolso e apalpava o objeto. De vez em quando entrava num mict贸rio 鈥 mesmo l谩 dentro eu estava vigilante, porque sempre h谩 vizinhos 鈥 tirava meu rev贸lver, sopesava-o, olhava a coronha quadriculada em preto e o gatilho negro que parece uma p谩lpebra semifechada. Os outros, ao verem, de fora, meus p茅s apartados e a barra de minhas cal莽as, acreditavam que eu urinava. Mas nunca urino nos mict贸rios.
Uma tarde veio-me a id茅ia de atirar em homens. Era um s谩bado, eu sa铆 para procurar L茅a, uma loira que faz ponto em frente a um hotel da rua Montparnasse. Nunca tive rela莽玫es 铆ntimas com uma mulher; eu me sentiria roubado. Trepamos em cima delas, 茅 claro, mas elas nos devoram o baixo ventre com uma grande boca peluda e, pelo que tenho ouvido dizer, s茫o elas que ganham com a troca. Eu n茫o pe莽o nada a ningu茅m mas tamb茅m nada quero dar. Ou ent茫o precisaria de uma mulher fria e piedosa que me suportasse com repugn芒ncia. No primeiro s谩bado de cada m锚s, eu subia com L茅a para um quarto do Hotel Duquesne. Ela se despia e eu a olhava sem toc谩-la. 脌s vezes, acontecia satisfazer-me nas cal莽as, outras vezes tinha de voltar para casa. Aquela tarde n茫o a encontrei no seu posto. Esperei um momento e, como n茫o a vi chegar, supus que estivesse gripada. Era come莽o de janeiro e fazia muito frio. Eu estava desolado. Sou um imaginativo e tinha imaginado vivamente o prazer que esperava tirar daquela tarde.
Havia, na rua de Odessa, uma morena que eu notara muitas vezes, um pouco madura mas firme e carnuda; n茫o detesto as mulheres maduras; quando elas est茫o nuas parecem mais nuas do que as outras. Mas ela n茫o estava a par dos meus h谩bitos, e intimidava-me um pouco exp么-los inconsideradamente. Depois eu desconfio das novas rela莽玫es; essas mulheres podem muito bem esconder um vadio atr谩s duma porta e o tipo se introduz de repente e toma o dinheiro da gente. E ainda nos damos por felizes quando n茫o levamos alguns socos. Entretanto, aquela tarde, eu me sentia cheio de ousadia, decidi passar por casa para apanhar meu rev贸lver e tentar a aventura.
Quando abordei a mulher, um quarto de hora mais tarde, minha arma estava no bolso e eu n茫o temia mais nada. Observando-a de perto notei-lhe um aspecto miser谩vel. Parecia a minha vizinha da frente, a mulher do ajudante, e fiquei muito satisfeito, porque h谩 muito tempo tinha desejos de v锚-la nua. Ela vestia-se com a janela aberta, quando o ajudante partia, e eu permanecia muitas vezes atr谩s da cortina para surpreend锚-la. Mas, ela se arrumava no fundo do quarto. No Hotel Stella s贸 havia um c么modo livre, no quarto andar. Subimos. A mulher era muito pesada e se detinha a cada degrau, para respirar. Eu estava muito 脿 vontade; tenho o corpo magro, apesar da barriga, e seriam necess谩rios mais de quatro andares para que perdesse o f么lego. No patamar do quarto andar ela parou e p么s a m茫o direita sobre o cora莽茫o, respirando muito forte. Com a m茫o esquerda segurava a chave do quarto.
鈥 脡 alto 鈥 disse, tentando me sorrir.
Tomei-lhe a chave, sem responder, e abri a porta. Eu tinha o rev贸lver na m茫o esquerda, apontado para a frente, atrav茅s do bolso, e n茫o o larguei sen茫o ap贸s haver virado o comutador. O quarto estava vazio. No lavat贸rio havia um quadradinho de sab茫o verde. Eu sorri. Nem os bid锚s nem os pequenos quadril谩teros de sab茫o me interessavam. A mulher respirava forte, sempre atr谩s de mim, e isso me excitava. Voltei-me; ela me ofereceu os l谩bios. Repeli-a.
鈥 Dispa-se 鈥 disse-lhe.
Havia uma poltrona atapetada. Sentei-me confortavelmente. 脡 nessa hora que lamento n茫o fumar. A mulher tirou a roupa, depois estacou, deitando-me um olhar desconfiado.
鈥 Como se chama? 鈥 perguntei, recostando-me.
鈥 Ren茅e.
鈥 Bem, Ren茅e, apresse-se, estou esperando.
鈥 Voc锚 n茫o se despe?
鈥 Ora, ora, n茫o se incomode comigo.
Ela fez cair a cal莽a a seus p茅s, depois apanhou-a e colocou-a cuidadosamente sobre o vestido com o suti茫.
鈥 Voc锚 茅, ent茫o, um pequeno viciado, meu querido, um pequeno pregui莽oso? 鈥 perguntou-me. 鈥 Quer que sua mulherzinha fa莽a todo o trabalho?
Ao mesmo tempo ela deu um passo para o meu lado e, apoiando-se com as m茫os ao encosto da minha poltrona, tentou, pesadamente, ajoelhar-se entre minhas pernas. Mas eu a pus de p茅 com brutalidade.
鈥 Nada disso, nada disso.
Ela me olhou surpreendida.
鈥 Mas que 茅 que voc锚 quer que eu fa莽a?
鈥 Nada. Caminhe, ande, n茫o lhe pe莽o mais nada.
Ela se p么s a caminhar de l谩 para c谩, com um ar rid铆culo.
Nada aborrece mais as mulheres do que caminhar quando est茫o nuas. Elas n茫o t锚m o h谩bito de andar sem salto. A meretriz curvava o dorso e deixava pender os bra莽os. Quanto a mim, sentia-me encantado; estava ali, tranq眉ilamente refestelado numa poltrona, vestido at茅 o pesco莽o, tinha conservado at茅 as luvas e essa senhora madura se pusera toda nua 脿s minhas ordens e volteava ao meu redor.
Ela virou a cabe莽a para o meu lado e, para salvar as apar锚ncias, sorriu-me galantemente:
鈥 Voc锚 me acha bonita? Est谩 gostando do espet谩culo?
鈥 N茫o se incomode com isso.
鈥 Olhe 鈥 perguntou-me com uma s煤bita indigna莽茫o 鈥, voc锚 tem inten莽茫o de me fazer andar muito tempo assim?
鈥 Sente-se.
Ela sentou-se na cama e n贸s nos fitamos em sil锚ncio. Ela estava toda arrepiada. Ouvia-se o tique-taque de um despertador, do outro lado da parede. De repente, eu lhe disse:
鈥 Abra as pernas.
Ela hesitou um quarto de segundo, depois obedeceu.
Olhei entre suas pernas e funguei. Em seguida, pus-me a rir t茫o forte que as l谩grimas me vieram aos olhos. Disse-lhe apenas:
鈥 Voc锚 est谩 percebendo?
E recomecei a rir.
Ela me olhou com estupor, depois corou violentamente e tornou a unir as pernas.
鈥 Porco 鈥 disse entre os dentes.
Mas eu ri ainda mais, ent茫o ela se levantou de um salto e pegou o suti茫 de sobre a cadeira.
鈥 Eh 鈥 atalhei 鈥, isso n茫o acabou. Eu lhe darei 50 francos agora mesmo, mas n茫o quero ser roubado.
Ela pegou nervosamente as cal莽as.
鈥 Para mim, basta, voc锚 compreende. N茫o sei o que voc锚 quer. E se voc锚 me fez subir para zombar de mim...
Ent茫o eu tirei o rev贸lver e lhe mostrei. Ela me olhou com um ar s茅rio e deixou cair as cal莽as sem dizer nada.
鈥 Caminhe 鈥 disse-lhe 鈥, ande.
Ela caminhou ainda cinco minutos. Depois dei-lhe minha bengala e obriguei-a a fazer exerc铆cio. Quando senti que minha cueca estava molhada, levantei-me e lhe estendi uma nota de 50 francos. Ela pegou-a.
鈥 At茅 logo 鈥 acrescentei 鈥, n茫o a cansei muito, pelo pre莽o.
Sa铆, deixando-a inteiramente nua no meio do quarto, com o suti茫 numa das m茫os e a c茅dula de 50 francos na outra. N茫o chorei o meu dinheiro; eu a perturbara e uma deca铆da n茫o se perturba facilmente. Descendo a escada, pensei: 鈥淓is o que eu queria, assust谩-los todos.鈥
Estava alegre como uma crian莽a. Carregava comigo o sabonete verde e em casa esfreguei-o muito tempo debaixo da 谩gua quente at茅 tornar-se uma delicada pel铆cula entre meus dedos; parecia bala de hortel茫 muito chupada.
Mas 脿 noite acordei sobressaltado e revi seu rosto, os olhos que ela fez quando lhe mostrei a arma, e seu ventre gordo que balan莽ava a cada um de seus passos.
鈥淐omo fui est煤pido鈥, disse com meus bot玫es. E senti um amargo remorso; eu devia ter atirado, furado aquele ventre como uma escumadeira. Essa noite e as tr锚s seguintes sonhei com seis buraquinhos vermelhos agrupados em c铆rculo, ao redor do umbigo.
Desde ent茫o, n茫o sa铆 mais sem meu rev贸lver. Eu olhava as costas das pessoas e imaginava, conforme seu andar, a maneira como cairiam se eu lhes desse um tiro. Habituei-me a ir, aos domingos, colocar-me diante do Ch芒telet, 脿 sa铆da dos concertos cl谩ssicos. Pelas 6h, ouvia a campainha e as porteiras vinham prender com ganchos as portas de vidro. Era o come莽o: a multid茫o sa铆a lentamente; as pessoas caminhavam com um passo flutuante, os olhos ainda cheios de sonho, o cora莽茫o repleto ainda de agrad谩veis sensa莽玫es. Havia muitos que olhavam em torno com um ar admirado; a rua devia parecer-lhes inteiramente azul.
Ent茫o, sorriam misteriosamente: passavam de um mundo a outro. 脡 no outro que eu os esperava. Eu enfiara a m茫o direita no bolso e apertava com toda a for莽a a coronha da arma. Ao fim de algum tempo eu me via prestes a atirar. Eu os derrubava como cachimbos de barro, eles ca铆am uns sobre os outros e os sobreviventes, tomados de p芒nico, reflu铆am para o teatro quebrando os vidros das portas. Era uma brincadeira muito enervante; minhas m茫os tremiam, por fim eu me via obrigado a tomar um conhaque no Dreher para me refazer. N茫o mataria as mulheres. Atirar-lhes-ia nos rins. Ou ent茫o na barriga da perna para faz锚-las dan莽ar.
N茫o tinha decidido nada ainda. Mas tomei o partido de fazer tudo como se minha decis茫o estivesse tomada. Comecei por calcular os pormenores acess贸rios. Fui exercitar-me num stand, na feira de Denfert-Rochereau. Os resultados n茫o eram dos melhores mas os homens s茫o alvos grandes, principalmente quando se atira 脿 queima-roupa. Em seguida, ocupei-me da publicidade. Escolhi um dia em que todos os meus colegas estavam reunidos no escrit贸rio. Uma segunda-feira, de manh茫. Eu era muito am谩vel com eles, por princ铆pio, embora tivesse horror de lhes apertar a m茫o. Eles tiravam as luvas para dizer bom-dia, tinham um modo obsceno de despir a m茫o, de abaixar a luva e faz锚-la deslizar lentamente ao longo dos dedos, revelando a nudez gorda e amarrotada da palma. Eu conservava sempre minhas luvas.
Segunda-feira, pela manh茫, n茫o se faz grande coisa. A datil贸grafa do servi莽o comercial acabava de trazer os recibos. Lemercier gracejou com ela gentilmente e, quando ela saiu, eles descreveram seus encantos com uma compet锚ncia enfastiada. Depois falaram de Lindbergh. Gostavam muito de Lindbergh. Eu lhes disse:
鈥 Quanto a mim, gosto dos her贸is negros.
鈥 Os pretos? 鈥 perguntou Mass茅.
鈥 N茫o, negros, como se diz em Magia Negra. Lindbergh 茅 um her贸i branco. N茫o me interessa.
鈥 V谩 ver se 茅 f谩cil atravessar o Atl芒ntico 鈥 disse asperamente Bouxin.
Expus-lhes minha concep莽茫o do her贸i negro.
鈥 Um anarquista 鈥 resumiu Lemercier.
鈥 N茫o 鈥 disse docemente 鈥, os anarquistas gostam dos homens 脿 sua maneira.
鈥 Ent茫o, seria um biruta.
Mas Mass茅, que era letrado, interveio nesse momento:
鈥 Eu conhe莽o o seu tipo 鈥 disse-me. 鈥 Chama-se Erostrato. Ele queria tornar-se ilustre e n茫o achou nada melhor do que incendiar o templo de 脡feso, uma das sete maravilhas do mundo.
鈥 E como se chamava o arquiteto desse templo?
鈥 N茫o me lembro mais 鈥 confessou 鈥, creio mesmo que n茫o se sabe o nome dele.
鈥 Ent茫o? E voc锚 se lembra do nome de Erostrato? Bem v锚 que o c谩lculo dele n茫o foi t茫o errado!...
A conversa莽茫o terminou com estas palavras, mas eu estava sossegado; eles se lembrariam dela no momento prop铆cio.
Quanto a mim, que at茅 ent茫o jamais ouvira falar de Erostrato, sua hist贸ria me encorajou. Havia mais de 2 mil anos que ele estava morto e sua a莽茫o brilhava ainda, como um diamante negro.
Comecei a crer que meu destino seria curto e tr谩gico. Isso me amedrontou a princ铆pio, depois me habituei. Encarado sob certo 芒ngulo, 茅 atroz, mas, de outro lado, d谩 ao instante que passa uma for莽a e uma beleza consider谩veis. Quando desci 脿 rua, sentia em meu corpo uma for莽a estranha. Tinha junto a mim meu rev贸lver, essa coisa que explode e faz barulho. Mas n茫o era mais nele que punha minha seguran莽a, era em mim, eu era um ser da esp茅cie dos rev贸lveres, dos petardos e das bombas. Eu tamb茅m, um dia, no fim de minha vida obscura, explodiria e iluminaria o mundo com uma chama violenta e fugaz como um clar茫o de magn茅sio.
Aconteceu-me, por essa ocasi茫o, ter muitas noites o mesmo sonho. Era um anarquista, tinha-me colocado 脿 passagem do czar e levava comigo uma m谩quina infernal. 脌 hora ajustada, o cortejo passava, a bomba explodia e sob o olhar da multid茫o n贸s vo谩vamos pelo ar, eu, o czar e tr锚s oficiais com gal玫es de ouro. Eu ficava, agora, semanas inteiras sem aparecer no escrit贸rio. Passeava pelos bulevares, no meio de minhas futuras v铆timas, ou encerrava-me no meu quarto fazendo planos. Despediram-me no come莽o de outubro. Ocupava, ent茫o, minhas horas vagas redigindo a seguinte carta, que copiei em 102 exemplares.

鈥淪enhor
Sois c茅lebre e vossas obras alcan莽am tiragens de 30 mil exemplares. Vou dizer-vos por qu锚: 茅 que amais os homens. Tendes o humanismo no sangue: eis a vossa sorte. Desabrochais quando estais em boa companhia; quando vedes um de vossos semelhantes, mesmo sem conhec锚-lo, sentis simpatia por ele. Admirais o seu corpo, pela maneira como 茅 articulado, pelas pernas que se abrem e se fecham 脿 vontade, pelas m茫os sobretudo; agrada-vos que haja cinco
dedos em cada m茫o e que o polegar passe a opor-se aos outros dedos. Deleitai-vos quando vosso vizinho pega uma x铆cara da mesa, porque ele tem um modo de pegar que 茅 propriamente humano e que sempre descrevestes em vossas obras como menos el谩stico e menos r谩pido que o do macaco, n茫o 茅? Por茅m muito mais inteligente. Amais tamb茅m a carne do homem, seu comportamento de um mutilado em reeduca莽茫o, seu ar de reinventar a marcha a cada passo e seu famoso olhar que as feras n茫o podem suportar. Foi f谩cil, pois, encontrar a linguagem que conv茅m para falar ao homem de si mesmo; uma linguagem pudica mas apaixonada. Os indiv铆duos atiram-se com gula aos vossos livros, l锚em-nos numa boa poltrona, pensam no grande amor infeliz e discreto que lhes dedicais e isso os consola de muitas coisas, de serem feios, covardes, cornos, de n茫o terem recebido aumento em primeiro de janeiro. E diz-se, de bom grado, de vosso 煤ltimo romance: 茅 uma boa a莽茫o.
鈥淭ereis curiosidade em saber, suponho, o que pode ser um homem que n茫o gosta dos homens. Pois bem, sou eu e eu os amo t茫o pouco que vou, agora mesmo, matar uma meia d煤zia deles; talvez vos pergunteis: por que somente uma meia d煤zia? Porque meu rev贸lver n茫o tem mais que seis cartuchos. Eis uma monstruosidade, n茫o? Al茅m do mais, um ato propriamente impol铆tico? Mas eu vos digo que n茫o posso am谩-los. Compreendo muit铆ssimo bem o que v贸s sentis. Mas o que neles vos atrai a mim me repugna. Vi, como v贸s, homens mastigarem com modera莽茫o, conservando o olho adequado, folheando com a m茫o esquerda uma revista econ么mica. 脡 culpa minha se prefiro assistir 脿 refei莽茫o das focas? O homem nada pode fazer de seu rosto sem que isso vire jogo fision么mico. Quando ele mastiga conservando a boca fechada, os cantos dos l谩bios sobem e descem, ele parece passar sem descanso da serenidade 脿 surpresa chorona. Gostais disso, eu o sei, chamais a isso vigil芒ncia do Esp铆rito. Mas a mim isso me aborrece. N茫o sei por qu锚; nasci assim.
鈥淪e n茫o houvesse entre n贸s sen茫o uma pequena diferen莽a de gosto, eu n茫o vos importunaria. Mas tudo se passa como se tiv茅sseis a gra莽a e eu n茫o. Sou livre para gostar ou n茫o de lagosta 脿 americana, mas, se n茫o gosto dos homens, sou um miser谩vel e n茫o posso encontrar lugar ao sol. Monopolizaram o sentido da vida. Espero que compreendais o que quero dizer. H谩 33 anos que esbarro em portas fechadas sobre as quais se escreveu: 'Se n茫o for humanista,
n茫o entre.' Tive de abandonar tudo o que empreendi; precisava escolher: ou era uma tentativa absurda e condenada ou era preciso que ela redundasse cedo ou tarde em seu proveito. Os pensamentos que eu n茫o lhes destinava expressamente, eu n茫o chegava a destac谩-los de mim, a formul谩-los; permaneciam em mim como leves movimentos org芒nicos. Mesmo as ferramentas de que me servia senti que lhes pertenciam; as palavras, por exemplo: desejara palavras minhas. Mas as de que disponho arrastaram-se por n茫o sei quantas consci锚ncias; arranjam-se inteiramente s贸s na minha cabe莽a em virtude de h谩bitos que tomaram nas outras e n茫o 茅 sem repugn芒ncia que as utilizo quando vos escrevo. Mas 茅 pela 煤ltima vez. Eu vos digo: ou amamos os homens ou eles n茫o nos permitem trabalhar a s茅rio. Eu n茫o quero meiostermos. Vou pegar, agora mesmo, meu rev贸lver, descerei 脿 rua e verei se 茅 poss铆vel executar bem alguma coisa contra eles. Adeus, senhor, talvez sejais v贸s quem vou encontrar. N茫o sabereis jamais com que prazer eu explodirei vossos
miolos. Se n茫o 鈥 茅 o caso mais prov谩vel 鈥 l锚de os jornais de amanh茫. L谩 vereis que um indiv铆duo chamado Paul Hilbert matou, numa crise de furor, cinco transeuntes no bulevar Edgar-Quinet. Sabeis melhor que ningu茅m o que vale a prosa dos grandes di谩rios. Compreendei que n茫o sou um 'furioso'. Estou muito calmo, ao contr谩rio, e vos pe莽o aceitar os meus melhores cumprimentos.
Paul Hilbert.鈥

Pus as 102 cartas em 102 envelopes e escrevi nos envelopes os endere莽os de 102 escritores franceses. Depois, coloquei tudo numa gaveta de minha mesa com seis folhas de selos.
Durante os 15 dias seguintes, sa铆 muito pouco, deixava-me tomar lentamente pelo meu crime. Ao espelho, onde ia, 脿s vezes, me olhar, verificava com prazer as transforma莽玫es de minha fisionomia. Os olhos estavam maiores; invadiam todo o rosto. Eram negros e ternos sob os 贸culos e eu os fazia rolar como planetas. Belos olhos de artista e de assassino. Mas eu esperava mudar ainda mais profundamente ap贸s a realiza莽茫o do massacre.
Tinha visto os retratos dessas duas belas raparigas, duas criadas que mataram e saquearam suas patroas. Vi suas fotografias de antes e de depois. Antes, seus rostos se balou莽avam como flores em cima das golas de algod茫o. Respiravam higiene e honestidade tentadora. Um ferro discreto havia ondulado igualmente seus cabelos. E, mais tranq眉ilizadora ainda que seus cabelos frisados, que suas golas e seu ar de visita ao fot贸grafo, havia sua semelhan莽a de irm茫s, sua semelhan莽a t茫o convencional e que punha imediatamente 脿 mostra os la莽os de sangue e as ra铆zes naturais do grupo familial. Depois, suas faces resplandeciam como inc锚ndios. Elas tinham o pesco莽o nu das futuras decapitadas.
Rugas por toda a parte, horr铆veis rugas de medo e de 贸dio, pregas, orif铆cios na carne como se um animal de garras as houvesse perseguido. E esses olhos, sempre esses grandes olhos negros e sem fundo 鈥 como os meus. Entretanto, elas n茫o se pareciam mais. Cada uma trazia 脿 sua maneira a lembran莽a do crime comum. 鈥淪e basta鈥, dizia de mim para mim, 鈥渦m crime audacioso em que o acaso influi grandemente para transformar assim essas caras de orfanato, o que n茫o posso esperar de um crime inteiramente concebido e organizado por mim?鈥 Ele se apoderar谩 de mim, resolver谩 minha fei煤ra muito humana... um crime, isso corta em duas partes a vida daquele que o comete.
Deve haver momentos em que a gente deseja voltar atr谩s, mas ele est谩 ali, bem pr贸ximo, esse mineral resplandecente, barrando a passagem. S贸 pedia uma hora para gozar o meu, para sentir seu peso esmagador. Arranjarei tudo para ter esta hora para mim; decidi fazer a execu莽茫o no alto da rua de Odessa. Aproveitaria o p芒nico para fugir, deixando-os a recolher seus mortos. Correria, atravessaria o bulevar Edgar-Quinet e viraria rapidamente na rua Delambre. N茫o precisaria sen茫o de 30 segundos para atingir a porta do pr茅dio onde moro. Nesse momento meus perseguidores estariam ainda no bulevar Edgar-Quinet, perderiam meu rastro e precisariam seguramente de mais de uma hora para encontr谩-lo de novo. Eu os esperaria em casa e, quando os ouvisse bater 脿 minha porta, tornaria a carregar meu rev贸lver e o descarregaria na boca.
Eu vivia mais profundamente. Contratara com o dono de uma pens茫o na rua Vavin a remessa, pela manh茫 e 脿 tarde, de uns bons pratinhos. O empregado tocava a campainha, eu n茫o abria, esperava alguns minutos, depois entreabria minha porta e via, num grande cesto colocado no ch茫o, pratos cheios que fumegavam.
No dia 27 de outubro, 脿s 6h da tarde, restavam-me 17 francos e meio. Peguei meu rev贸lver e o pacote de cartas e desci. Tive o cuidado de n茫o fechar a porta para poder entrar mais depressa quando tivesse executado o golpe. N茫o me sentia bem, tinha as m茫os frias e o sangue na cabe莽a, os olhos co莽avam. Olhei as lojas, o H么tel des 脡coles, a papelaria onde compro meus l谩pis e n茫o os reconheci. Dizia para mim mesmo: 鈥淨ue rua 茅 esta?鈥 O bulevar Montparnasse estava cheio de gente. Atropelavam-me, empurravam-me, tocavam-me com os cotovelos ou os ombros. Eu me deixava sacudir, faltava-me for莽a para deslizar entre eles. Vi-me, de repente, bem no meio dessa multid茫o, horrivelmente s贸 e pequeno. Como eles teriam podido fazer-me mal se tivessem querido! Eu tinha medo por causa da arma no meu bolso. Parecia-me que iam adivinhar que ela estava ali. Eles me olhariam com seus olhos duros e diriam: 鈥淓h, mas... mas...鈥 com alegre indigna莽茫o fisgando-me com suas patas de homens. Linchado!
Eles me atirariam para cima de suas cabe莽as e eu tornaria a cair nos seus bra莽os como um boneco. Julguei mais prudente adiar a execu莽茫o do meu projeto. Fui jantar na Coupole por 16 francos e 80. Restavam-me 70 c锚ntimos, que joguei no rio.
Fiquei tr锚s dias no meu quarto, sem comer, sem dormir. Tinha fechado as persianas e n茫o ousava aproximar-me da janela nem acender a luz. Na segunda-feira algu茅m tamborilou 脿 porta. Retive a respira莽茫o e esperei. Depois de um minuto tornaram a bater. Fui, nas pontas dos p茅s, colar o olho ao buraco da fechadura. Vi somente um peda莽o de pano preto e um bot茫o. O tipo bateu ainda, depois desceu. N茫o sei quem era. 脌 noite tive vis玫es novas, de palmeiras, 谩gua escorrendo, um c茅u violeta acima de uma c煤pula. N茫o tinha sede, porque, de hora em hora, ia beber na torneira da pia. Mas sentia fome. Revi tamb茅m a meretriz morena. Era num castelo que eu mandara construir nas Causses Noires, a 20 l茅guas de qualquer povoa莽茫o. Ela estava nua e s贸 comigo. Forcei-a a p么r-se de joelhos sob a amea莽a de meu rev贸lver, e a andar de gatinhas, depois prendi-a a um pilar e, ap贸s lhe haver longamente explicado o que ia fazer, crivei-a de balas.
Essas imagens perturbaram-me de tal maneira que tive de satisfazer-me. Depois fiquei im贸vel no escuro, a cabe莽a absolutamente vazia. Os m贸veis puseram-se a estalar. Eram 5h da manh茫. Teria dado qualquer coisa para deixar meu quarto, mas n茫o podia descer por causa das pessoas que andavam nas ruas.
Veio o dia. N茫o sentia mais fome, mas comecei a suar: ensopei a camisa. Fora fazia sol. Ent茫o, pensei: 鈥淓le est谩 escondido num quarto escuro. H谩 tr锚s dias Ele n茫o come nem dorme. Bateram 脿 porta e Ele n茫o abriu. Daqui a pouco Ele vai descer 脿 rua e matar谩.鈥 Tinha medo de mim mesmo. 脌s seis da tarde a fome voltou. Estava louco de c贸lera. Esbarrei em dado momento nos m贸veis, depois acendi a luz nos quartos, na cozinha, no banheiro. Pus-me a cantar como um possesso, lavei as m茫os e sa铆. Foram necess谩rios dois bons minutos para p么r todas as minhas cartas na caixa. Eu as enfiava em pacotes de dez. Devo ter estragado alguns envelopes. Depois, segui pelo bulevar Montparnasse at茅 a rua de Odessa. Parei diante do mostru谩rio de uma camisaria e, quando vi minha cara, pensei: 鈥溍 para esta tarde.鈥
Postei-me no alto da rua de Odessa, n茫o longe de um bico de g谩s, e esperei. Duas mulheres passaram. Estavam de bra莽os dados, e a loura dizia:
鈥 Tinham colocado tapetes em todas as janelas e eram os nobres do pa铆s que faziam a figura莽茫o.
鈥 Eles est茫o sem dinheiro? 鈥 perguntou a outra.
鈥 N茫o h谩 necessidade de ser pronto para aceitar um trabalho que rende cinco lu铆ses por dia.
鈥 Cinco lu铆ses! 鈥 exclamou a morena, deslumbrada. Ela ajuntou, passando por mim: 鈥 Ademais, acho que usar as roupas de seus antepassados devia diverti-los.
Distanciaram-se. Sentia frio mas suava em bicas. Depois de um instante vi chegarem tr锚s homens; deixei-os passar; eu precisava de seis. O da esquerda olhou-me e estalou a l铆ngua. Desviei a vista.
脌s sete e cinco, dois grupos que se seguiam de perto desembocaram no bulevar Edgar-Quinet. Havia um homem e uma mulher com duas crian莽as. Atr谩s deles vinham tr锚s velhas. Dei um passo 脿 frente. A mulher parecia zangada e sacudia o menino pelo bra莽o. O homem disse com voz arrastada:
鈥 Como 茅 cacete, esse chato!
Meu cora莽茫o batia t茫o forte que senti dores nos bra莽os.
Avancei e fiquei diante deles, im贸vel. Meus dedos, no bolso, estavam moles em volta do gatilho.
鈥 Com licen莽a 鈥 disse o homem, empurrando-me.
Lembrei-me de que tinha fechado a porta do meu apartamento e isso me contrariou; teria de perder um tempo precioso para abri-la. As pessoas se distanciaram. Voltei-me e segui-as maquinalmente. Mas n茫o tinha mais vontade de atirar nelas. Perderam-se na multid茫o do bulevar. Quanto a mim, apoiei-me 脿 parede. Ouvi bater 8h, 9h, e repetia comigo mesmo: 鈥淧or que 茅 que preciso matar todos esses indiv铆duos que j谩 est茫o mortos?鈥 e tinha vontade de rir. Um c茫o veio farejar meus p茅s.
Quando o homem corpulento passou por mim sobressaltei-me e segui-o. Eu via a prega de sua nuca vermelha entre o chap茅u-coco e a gola do sobretudo. Ele balan莽ava um pouco o corpo e respirava forte, era um tipo robusto. Saquei o rev贸lver 鈥攅ra brilhante e frio, aborrecia-me, n茫o me lembrava bem do que devia fazer com ele. Ora eu o olhava, ora olhava a nuca do sujeito. A prega da nuca sorria-me como uma boca sorridente e amarga.
Eu perguntava a mim mesmo se n茫o ia jogar meu rev贸lver num esgoto. De repente o tipo voltou-se e me olhou com um ar irritado. Dei um passo atr谩s.
鈥 脡 para lhe... perguntar...
Ele n茫o parecia ouvir, olhava minhas m茫os. Eu conclu铆 penosamente:
鈥 Pode me dizer onde 茅 a rua da Gait茅?
Seu rosto era enorme e seus l谩bios tremiam. N茫o disse nada, estendeu a m茫o. Recuei de novo e disse:
鈥 Eu queria...
鈥 Nesse momento senti que eu ia come莽ar a urrar. Mas n茫o queria. Disparei-lhe tr锚s balas contra o ventre. Ele caiu, com um ar idiota, sobre os joelhos e sua cabe莽a rolou sobre o ombro esquerdo.
鈥 Porco 鈥 disse-lhe 鈥, grande porco!
Escondi-me. Ouvi-o tossir. Ouvi tamb茅m gritos e uma galopada atr谩s de mim. Algu茅m perguntou: 鈥淨ue 茅 isso, est茫o brigando?鈥 Logo depois algu茅m gritou: 鈥淧ega o assassino! Pega o assassino!鈥 N茫o pensei que esses gritos me dissessem respeito.
Mas me pareciam sinistros, como a sereia dos bombeiros quando eu era crian莽a. Sinistros e ligeiramente rid铆culos. Corri com toda a for莽a de minhas pernas.
Cometi, por茅m, um erro imperdo谩vel: em vez de tornar a subir a rua de Odessa em dire莽茫o ao bulevar Edgar-Quinet, eu a desci em dire莽茫o ao bulevar Montparnasse. Quando o percebi, era muito tarde; estava j谩 bem no meio da multid茫o, rostos assombrados voltavam-se para mim (lembro-me do de uma mulher muito pintada que trazia um chap茅u vermelho com um penacho) e ouvi os imbecis da rua de Odessa gritarem: 鈥淧ega o assassino鈥, 脿s minhas costas. Uma m茫o pousou no meu ombro. A铆 perdi a cabe莽a; eu n茫o queria morrer sufocado por essa multid茫o.
Ainda dei dois tiros. As pessoas puseram-se a gritar e se separaram. Entrei correndo num caf茅. Os fregueses se levantaram 脿 minha passagem mas n茫o tentaram deter-me. Atravessei o caf茅 em todo o seu comprimento e tranquei-me no banheiro. Restava ainda uma bala no rev贸lver.
Passou-se um momento. Eu me sentia sufocado e arquejava. Tudo mergulhara num sil锚ncio extraordin谩rio como se as pessoas se tivessem calado propositadamente. Levantei minha arma at茅 os olhos e vi seu pequeno orif铆cio negro e redondo; a bala sairia por ali; a p贸lvora me queimaria o rosto. Deixei cair de novo o bra莽o e esperei. No fim de um instante eles se aproximaram vagarosamente; deveria ser um grupo grande a julgar pelo barulho dos p茅s no soalho. Eles cochicharam um pouco e depois calaram-se. Eu arquejava sempre e pensava que me ouviam respirar do outro lado do tabique. Algu茅m avan莽ou cautelosamente e mexeu na ma莽aneta da porta. Devia estar encostado de lado, 脿 parede, para evitar minhas balas. Tive assim mesmo 芒nsia de atirar 鈥 mas a 煤ltima bala era para mim. 鈥淨ue 茅 que esperam?鈥, pensei. 鈥淪e eles se atirassem
contra a porta e a derrubassem imediatamente, eu n茫o teria tempo de me matar e me pegariam vivo.鈥 Mas eles n茫o se apressavam, davam-me tempo para me matar. Aqueles porcos tinham medo. No fim de algum tempo uma voz elevou-se.
鈥 Vamos, abra que n茫o lhe faremos mal.
Houve um sil锚ncio e a mesma voz repetiu:
鈥 Voc锚 sabe que n茫o pode escapar.
N茫o respondi, arquejava sempre. Para me encorajar a atirar eu dizia a mim mesmo: 鈥淪e eles me agarram, v茫o bater-me, quebrar-me os dentes, furar-me um olho, talvez.鈥 Eu queria saber se o sujeito gordo estava morto. Talvez eu o tivesse apenas ferido... e as outras duas balas talvez n茫o houvessem atingido ningu茅m. Eles preparavam alguma coisa, estavam atirando um objeto pesado sobre o soalho? Apressei-me a meter o cano da arma na boca e mordi-o com for莽a. Mas n茫o podia atirar, nem mesmo p么r o dedo no gatilho. Tudo voltara a tornar-se silencioso.
Ent茫o joguei o rev贸lver fora e abri a porta.
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