MINHA LOUCURA
por Charles Bukowski
Existem graus de loucura, e por mais louco que voc锚 seja, mais 贸bvio ser谩 para as outras pessoas. A maior parte da minha vida eu escondi minha loucura dentro de mim, mas ela est谩 l谩. Por exemplo, algumas pessoas falar茫o para mim sobre isso ou aquilo e enquanto essas pessoas est茫o me entediando com suas generalidades banais, eu irei imagin谩-las com a cabe莽a, dele ou dela, descansando sob a guilhotina, ou vou imagin谩-las em uma enorme frigideira, fritando, enquanto me olham com seus olhos assustados. Em situa莽玫es reais como essas, eu provavelmente tentaria um resgate, mas enquanto elas est茫o falando comigo eu n茫o consigo imaginar isso. Ou, com um humor melhor, eu poderia imagin谩-las andando de bicicleta longe de mim. Eu simplesmente tenho problemas com seres humanos. Animais, eu amo. Eles n茫o mentem e raramente tentam atac谩-lo. 脌s vezes eles s茫o espertos, mas isso 茅 permitido. Por qu锚?
A maioria da minha juventude e vida adulta foi em quartos min煤sculos, confort谩vel, olhando as paredes, as sombras rasgadas, as ma莽anetas dos arm谩rios. Eu sabia da f锚mea e a desejava, mas eu n茫o queria tentar atravessar as dificuldades para consegui-la. Eu sabia do dinheiro, mas de novo, como com a f锚mea, eu n茫o queria fazer as coisas necess谩rias para consegui-lo. Tudo o que eu queria era suficiente para um quarto e para algo para beber. Eu bebia sozinho, geralmente na cama, com todas as persianas fechadas. 脌s vezes eu ia aos bares checar os tipos, mas os tipos eram os mesmos 鈥 n茫o muito e freq眉entemente menos do que aquilo.
Em todas as cidades, eu conferi as bibliotecas. Livro depois de livro. Poucos livros disseram algo para mim. Eles eram, na maioria, poeira na minha boca, areia no meu pensamento. Nenhum se relacionava comigo ou com o que sentia: onde estava - nenhum lugar - o que tinha 鈥 nada 鈥 e o que queria 鈥 nada. Os livros do s茅culo somente eram feitos do mist茅rio de ter um nome, um corpo, andando, falando, fazendo coisas. Ningu茅m parecia preso com a minha loucura particular.
Em alguns dos bares eu fiquei violento, havia brigas nos becos, a maioria perdi. Mas eu n茫o estava brigando com ningu茅m em particular, eu n茫o estava bravo, eu s贸 n茫o entendia as pessoas, o que elas eram, o que faziam, como elas pareciam. Eu ia preso e sa铆a, era despejado dos quartos. Dormia em bancos de pra莽a, em cemit茅rios. Eu estava confuso, mas n茫o era infeliz. N茫o era depravado. S贸 n茫o conseguia entender nada do que existia. Minha viol锚ncia era contra a 贸bvia armadilha, eu estava gritando e eles n茫o entendiam. E mesmo nas brigas mais violentas eu olhava para o meu oponente e pensava, por que ele est谩 bravo? Ele quer me matar. A铆 eu tinha que socar para tirar a besta de mim. As pessoas n茫o t锚m senso de humor, elas s茫o t茫o s茅rias a respeito de si mesmas.
Em algum lugar, e eu n茫o tenho id茅ia de onde vem, eu pensava, talvez eu devesse ser um escritor. Talvez eu possa escrever as palavras que eu n茫o li, talvez fazendo isso eu consiga tirar o tigre das minhas costas. E assim comecei e d茅cadas passaram sem muita sorte. Agora, eu era um escritor louco. Mais quartos, mais cidades. Eu afundei e afundei. Congelando uma vez em Atlanta em uma barraca de papel茫o, vivendo com um d贸lar e vinte cinco cents a semana. Sem encanamento, sem luz, sem aquecimento. Congelando com minha camisa californiana. Uma manh茫 eu achei um peda莽o de l谩pis e comecei a escrever poemas nas margens de velhos jornais no ch茫o.
Finalmente, aos 40, meu primeiro livro foi lan莽ado, um pequeno livro de poemas, 鈥楩lower, Fist and Bestial Wail鈥. O pacote de livros chegou pelo correio e eu o abri e aqui estavam os livrinhos. Eles se esparramaram na cal莽ada, todos os livrinhos, e eu me ajoelhei sobre eles, estava de joelhos, e peguei um 鈥楩lower Fist鈥 e beijei. Isso foi h谩 trinta anos.
Ainda escrevo. Nos primeiros quatro meses deste ano eu escrevi 250 poemas. Eu ainda sinto a loucura me atravessar, mas ainda n茫o tenho a palavra do jeito que a quero, o tigre ainda est谩 nas minhas costas. Eu vou morrer com aquele filho da puta nas minhas costas, mas eu lutei. E se h谩 algu茅m louco o suficiente para querer ser um escritor, eu diria para continuar, cuspir no olho do sol, acertar o principal, 茅 a melhor loucura, os s茅culos precisam de ajuda, os tipos gritam por luz e apostam na alegria. D锚 isso a eles. H谩 palavras suficientes para todos n贸s.