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O valor da vida - uma entrevista rara com Freud

 
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MensagemEnviada: 24/02/2006 - 06:50:57    Assunto: O valor da vida - uma entrevista rara com Freud Responder com cita莽茫o

O valor da vida - uma entrevista rara com Freud





O c茫o se chama L眉n, um chow presenteado por Helene Deutsch,



Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud est谩 esta entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da 茅poca. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da 鈥淪igmund Freud House鈥 publicou uma vers茫o condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Fut , n煤mero especial do 鈥淛ournal of Psychology鈥, de Nova Iorque, em 1957. 脡 este texto que aqui reproduzimos, provavelmente pela primeira vez em portugu锚s.


Tradu莽茫o de Paulo C茅sar Souza


S. Freud: Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.

(Quem fala 茅 o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cen谩rio da nossa conversa foi uma casa de ver茫o no Semmering, uma montanha nos Alpes austr铆acos. Eu havia visto o pai da psican谩lise pela 煤ltima vez em sua casa modesta na capital austr铆aca. Os poucos anos entre minha 煤ltima visita e a atual, multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de s谩bio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu esp铆rito firme, sua cortesia impec谩vel como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou. Parece que o tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde ent茫o Freud usa uma pr贸tese, para ele uma causa de constante irrita莽茫o).

S. Freud: Detesto o meu maxilar mec芒nico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a exist锚ncia 脿 extin莽茫o. Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagrad谩vel 脿 medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intoler谩vel do que os fardos que carregamos.

(Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial).

Por que (disse calmamente) deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com suas agruras, chega para todos. Eu n茫o me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas 鈥 a companhia de minha mulher, meus filhos, o p么r-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma m茫o amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?

George Sylvester Viereck : O senhor teve a fama. Sua obra influi na literatura de cada pa铆s. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. Recentemente, no seu septuag茅simo anivers谩rio, o mundo se uniu para homenage谩-lo 鈥 com exce莽茫o da sua Universidade.

S. Freud: Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embara莽ado. N茫o h谩 raz茫o em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu n茫o atribuo import芒ncia insensata aos decimais. A fama chega apenas quando morremos e, francamente, o que vem depois n茫o me interessa. N茫o aspiro 脿 gl贸ria p贸stuma. Minha mod茅stia n茫o 茅 virtude.

George Sylvester Viereck: N茫o significa nada o fato de que o seu nome vai viver?

S. Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que n茫o 茅 certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas n茫o venham a ser dif铆ceis. N茫o posso ajud谩-los muito. A guerra praticamente liquidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho 茅 minha fortuna.

(Est谩vamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia).

S. Freud: Estou muito mais interessado neste bot茫o do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.

George Sylvester Viereck: Ent茫o o senhor 茅, afinal, um profundo pessimista?

S. Freud: N茫o, n茫o sou. N茫o permito que nenhuma reflex茫o filos贸fica estrague a minha frui莽茫o das coisas simples da vida.

George Sylvester Viereck: O senhor acredita na persist锚ncia da personalidade ap贸s a morte, de alguma forma que seja?

S. Freud: N茫o penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem constituir uma exce莽茫o?

George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do p贸? O senhor n茫o tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?

S. Freud: Sinceramente n茫o. Se a gente reconhece os motivos ego铆stas por tr谩s da conduta humana, n茫o tem o m铆nimo desejo de voltar 脿 vida. Movendo-se num c铆rculo, seria ainda a mesma. Al茅m disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a express茫o de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso inv贸lucro carnal, para que serviria, sem mem贸ria? N茫o haveria elo entre passado e futuro. No que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passar谩. Nossa vida 茅 necessariamente uma s茅rie de compromissos, uma luta intermin谩vel entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.

George Sytlvester Viereck: Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as for莽as da evolu莽茫o. Ele cr锚 que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.

S. Freud: 脡 poss铆vel que a morte em si n茫o seja uma necessidade biol贸gica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Assim como amor e 贸dio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim tamb茅m toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da pr贸pria destrui莽茫o. Do mesmo modo como um pequeno el谩stico esticado tende a assumir a forma original, assim tamb茅m toda a mat茅ria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta in茅rcia da exist锚ncia inorg芒nica. O impulso de vida e os impulsos de morte habitam lado a lado dentro de n贸s. A Morte 茅 a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto 茅 o que diz o meu livro: 鈥淎l茅m do Princ铆pio do Prazer鈥. No come莽o, a psican谩lise, sup么s que o Amor tinha toda a import芒ncia. Agora sabemos que a Morte 茅 igualmente importante. Biologicamente, todo ser vivo, n茫o importa qu茫o intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessa莽茫o da 鈥渇ebre chamada viver鈥, anseia pelo seio de Abra茫o. O desejo pode ser encoberto por digress玫es. N茫o obstante, o objetivo derradeiro da vida 茅 a sua pr贸pria extin莽茫o.

George Sylvester Vierneck: Isto 茅 a filosofia da autodestrui莽茫o. Ela justifica o auto-exterm铆nio. Levaria logicamente ao suic铆dio universal imaginado por Eduard von Hartmann.

S. Freud: A humanidade n茫o escolhe o suic铆dio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de exist锚ncia. Em todo ser normal, a puls茫o de vida 茅 forte o bastante para contrabalan莽ar a puls茫o de morte, embora no final resulte mais a forte. Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa pr贸pria vontade. Seria mais poss铆vel que pud茅ssemos vencer a Morte, n茫o fosse por seu aliado dentro de n贸s. Neste sentido (acrescentou Freud com um sorriso) pode ser justificado dizer que toda a morte 茅 suic铆dio disfar莽ado.

(Estava ficando frio no jardim. Prosseguimos a conversa no gabinete. Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud.)


George Sylvester Viereck: Em que o senhor est谩 trabalhando?

S. Freud: Estou escrevendo uma defesa da an谩lise leiga, da psican谩lise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a an谩lise ilegal para os n茫o m茅dicos. A Hist贸ria, essa velha plagiadora, repete-se ap贸s cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no come莽o. Depois procuram monopoliz谩-la.

George Sylvester Vieireck: O senhor teve muito apoio dos leigos?

S. Freud: Alguns dos meus melhores disc铆pulos s茫o leigos.

George Sylvester Viereck: O senhor est谩 praticando muito psican谩lise?

S. Freud: Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito dif铆cil, tentando desatar os conflitos ps铆quicos de um interessante novo paciente. Minha filha tamb茅m 茅 psicanalista, como voc锚 v锚 ...

(Neste ponto apareceu Miss Anna Freud, acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de fei莽玫es inconfundivelmente anglo-sax么nica).

George Sylvester Viereck: O senhor j谩 analisou a si mesmo?

S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a n贸s mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros. O psicanalista 茅 como o bode expiat贸rio dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte 脿 perfei莽茫o para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.

George Sylvester Viereck: Minha impress茫o 茅 de que a psican谩lise desperta em todos que a praticam o esp铆rito da caridade crist茫. Nada existe na vida humana que a psican谩lise n茫o possa nos fazer compreender. 鈥淭our comprec鈥檈st tout pardonner鈥.

S. Freud: Pelo contr谩rio (esbravejou Freud 鈥 suas fei莽玫es mudaram, assumindo a severidade de um profeta hebreu), compreender tudo n茫o 茅 perdoar tudo. A an谩lise nos ensina n茫o apenas o que podemos suportar, mas tamb茅m o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A toler芒ncia com o mal n茫o 茅 de maneira alguma um corol谩rio do conhecimento.

(Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, porque ele n茫o perdoa a sua dissens茫o do caminho reto da ortodoxia psicanal铆tica. Seu senso do que 茅 direito 茅 heran莽a dos seus ancestrais. Uma heran莽a de que ele se orgulha como se orgulha de sua ra莽a).

Minha l铆ngua 茅 o alem茫o. Minha cultura, minha realiza莽茫o 茅 alem茫. Eu me considero um intelectual alem茫o, at茅 perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na 脕ustria. Desde ent茫o prefiro me considerar judeu.

(Fiquei algo desapontado com esta observa莽茫o. Parecia-me que o esp铆rito de Freud deveria habitar nas alturas, al茅m de qualquer preconceito de ra莽as, que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indigna莽茫o, a sua honesta ira, tornava-o mais atraente como ser humano. Aquiles seria intoler谩vel, n茫o fosse por seu calcanhar!).

Geoprge Sylvester Viereck: Fico contente, Herr Professor, de que tamb茅m o senhor tenha seus complexos, de que tamb茅m o senhor demonstre que 茅 um mortal!

S. Freud: Nossos complexos s茫o a fonte de nossa fraqueza, mas com freq眉锚ncia, s茫o tamb茅m a fonte de nossa for莽a.

George Sylvester Viereck: Imagino, observei, quais seriam os meus complexos!

S. Freud: Uma an谩lise s茅ria dura ao menos um ano. Pode durar mesmo dois ou tr锚s anos. Voc锚 est谩 dedicando muitos anos de sua vida 脿 鈥渃a莽a aos le玫es鈥. Voc锚 procurou sempre as pessoas de destaque para a sua gera莽茫o: Roosevelt, o Imperador, Hindenburg, Briand, Foch, Joffre, Georg Bernard Shaw...

George Sylvester Viereck: 脡 parte do meu trabalho.

S. Freud: Mas 茅 tamb茅m sua prefer锚ncia. O grande homem 茅 um s铆mbolo. A sua busca 茅 a busca do seu cora莽茫o. Voc锚 est谩 procurando o grande homem para tomar o lugar do seu pai. 脡 parte do seu 鈥渃omplexo do pai鈥.

(Neguei veementemente a afirma莽茫o de Freud. No entanto, refletindo sobre isso, parece-me que pode haver uma verdade, ainda n茫o suspeitada por mim, em sua sugest茫o casual. Pode ser o mesmo impulso que me levou a ele. Gostaria, observei ap贸s um momento, de poder ficar aqui o bastante para vislumbrar o meu cora莽茫o atrav茅s dos seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de pavor ao ver minha pr贸pria imagem! Entretanto, receio ser muito informando sobre a psican谩lise. Eu freq眉entemente anteciparia, ou tentaria antecipar suas inten莽玫es).

S. Freud: A intelig锚ncia num paciente n茫o 茅 um empecilho. Pelo contr谩rio, 脿s vezes facilita o trabalho.

(Neste ponto o mestre da psican谩lise diverge de muitos dos seus seguidores, que n茫o gostam de excessiva seguran莽a do paciente sob o seu escrut铆nio).

George Sylvester Viereck: Por vezes imagino se n茫o ser铆amos mais felizes se soub茅ssemos menos dos processos que d茫o forma a nossos pensamentos e emo莽玫es. A psican谩lise rouba a vida do seu 煤ltimo encanto, ao relacionar cada sentimento ao seu original grupo de complexos. N茫o nos tornamos mais alegres descobrindo que n贸s todos abrigamos o criminoso e o animal.

S. Freud: Que obje莽茫o pode haver contra os animais? Eu prefiro a companhia dos animais 脿 companhia humana.

George Sylvester Viereck: Por qu锚?

S. Freud: Porque s茫o t茫o mais simples. N茫o sofrem de uma personalidade dividida, da desintegra莽茫o do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padr玫es de civiliza莽茫o demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e ps铆quico. O selvagem, como o animal, 茅 cruel, mas n茫o tem a maldade do homem civilizado. A maldade 茅 a vingan莽a do homem contra a sociedade, pelas restri莽玫es que ela imp玫e. As mais desagrad谩veis caracter铆sticas do homem s茫o geradas por esse ajustamento prec谩rio a uma civiliza莽茫o complicada. 脡 o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais desagrad谩veis s茫o as emo莽玫es simples e diretas de um c茫o, ao balan莽ar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emo莽玫es do c茫o (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os her贸is da Antig眉idade. Talvez seja essa a raz茫o por que inconscientemente damos aos nossos c茫es nomes de her贸is com Aquiles e Heitor.

George Sylvester Viereck: Meu cachorro 茅 um doberman Pinscher chamado Ajax.

(Freud tamb茅m possu铆a um chow. Mais informa莽玫es em http://www.chowchow.com.br/ - Nota do Site)

S. Freud: (sorrindo) Fico contente de que n茫o possa ler. Ele certamente seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opini茫o sobre os traumas ps铆quicos e o complexo de 脡dipo!

George Sylvester Viereck: Mesmo o senhor, Professor, sonha a exist锚ncia complexa demais. No entanto, parece-me que o senhor seja em parte respons谩vel pelas complexidades da civiliza莽茫o moderna. Antes que o senhor inventasse a psican谩lise, n茫o sab铆amos que nossa personalidade 茅 dominada por uma hoste beligerante de complexos muito question谩veis. A psican谩lise torna a vida um quebra-cabe莽as complicado.

S. Freud: De maneira alguma. A psican谩lise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova s铆ntese depois da an谩lise. A psican谩lise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrol谩-los em torno do seu carretel. Ou. modificando a met谩fora, ela fornece o fio que conduz a pessoa fora do labirinto do seu inconsciente.

George Sylvster Viereck: Ao menos na superf铆cie, por茅m, a vida humana nunca foi mais complexa. A cada dia alguma nova id茅ia proposta pelo senhor ou por seus disc铆pulos torna o problema da condu莽茫o humana mais intrigante e mais contradit贸rio.

S. Freud: A psican谩lise pelo menos, jamais fecha a porta a uma nova verdade.

George Sylvester Viereck: Alguns dos seus disc铆pulos, mais ortodoxos do que o senhor, se apegam a cada pronunciamento que sai da sua boca.

S. Freud: A vida muda. A psican谩lise tamb茅m muda. Estamos apenas no come莽o de uma nova ci锚ncia.

George Sylvester Viereck: A estrutura cient铆fica que o senhor ergueu me parece ser muito elaborada. Seus fundamentos 鈥 a teoria do 鈥渄eslocamento鈥, da 鈥渟exualidade infantil鈥, do 鈥渟imbolismo dos sonhos鈥, etc... 鈥 parecem permanentes.

S. Freud: Eu repito, por茅m, que n贸s estamos apenas no in铆cio. Eu sou apenas um iniciador. Consegui desencavar monumentos soterrados nos substratos da mente. Mas ali onde eu descobri alguns templos, outros poder茫o descobrir continentes.

George Sylvester Viereck: O senhor ainda coloca a 锚nfase sobretudo no sexo?

S. Freud: Respondo com as palavras do seu pr贸prio poeta, Walt Whitman: 鈥淢as tudo faltaria, se faltasse o sexo鈥 (鈥淵et all were lacking, if sex were lacking鈥). Entretanto, j谩 lhe expliquei que agora coloco 锚nfase quase igual naquilo que est谩 鈥渁l茅m鈥 do prazer 鈥 a morte, a negocia莽茫o da vida. Este desejo explica por que alguns homens amam a dor 鈥 como um passo para o aniquilamento!Explica por que os poetas agradecem a

Whatever gods there be,
That no life lives forever
And even the weariest river
Winds somewhere safe to sea.

(鈥淨uaisquer deuses que existam/Que a vida nenhuma viva para sempre/Que os mortos jamais se levantem /e tamb茅m o rio mais cansado/Des谩g眉e tranq眉ilo no mar鈥).

George Sylvester Viereck: Shaw, como o senhor, n茫o deseja viver para sempre, mas 脿 diferen莽a do senhor, ele considera o sexo desinteressante.

S. Freud: (sorrindo) Shaw n茫o compreende o sexo. Ele n茫o tem a mais remota concep莽茫o do amor. N茫o h谩 um verdadeiro caso amoroso em nenhuma de suas pe莽as. Ele faz brincadeira do amor de J煤lio C茅sar 鈥 talvez a maior paix茫o da Hist贸ria. Deliberadamente, talvez maliciosamente, ele despe Cle贸patra de toda grandeza, reduzindo-a a uma insignificante garota. A raz茫o para a estranha atitude de Shaw diante do amor, para a sua nega莽茫o do m贸vel de todas as coisas humanas, que tira de suas pe莽as o apelo universal, apesar do seu enorme alcance intelectual, 茅 inerente 脿 sua psicologia. Em um de seus pref谩cios, ele mesmo enfatiza o tra莽o asc茅tico do seu temperamento. Eu posso ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que n茫o errei ao enfatizar a import芒ncia do instinto sexual. Por ser t茫o forte, ele se choca sempre com as conven莽玫es e salvaguardas da civiliza莽茫o. A humanidade, em uma esp茅cie de autodefesa, procura negar sua import芒ncia. Se voc锚 arranhar um russo, diz o prov茅rbio, aparece o t谩rtaro sob a pele. Analise qualquer emo莽茫o humana, n茫o importa qu茫o distante esteja da esfera da sexualidade e voc锚 certamente encontrar谩 esse impulso primordial, ao qual a pr贸pria vida deve a perpetua莽茫o.

George Sylvester Viereck: O senhor, sem d煤vidas, foi bem sucedido em transmitir esse ponto de vista aos escritores modernos. A psican谩lise deu novas intensidades 脿 literatura.

S. Freud: Tamb茅m recebeu muito da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. 脡 surpreendente at茅 que ponto a sua intui莽茫o prenuncia as novas descobertas. Ningu茅m se apercebeu mais profundamente dos motivos duais da conduta humana, da insist锚ncia do princ铆pio do prazer em predominar indefinidamente. O Zaratustra E diz: 鈥淎 dor grita: Vai! Mas o prazer quer eternidade Pura, profundamente eternidade鈥. A psican谩lise, pode ser menos amplamente discutida na 脕ustria e na Alemanha do que nos Estados Unidos, a sua influ锚ncia na literatura 茅 imensa, por茅m, Thomas Mann e Hugo von Hafmannsthak muito devem a n贸s. Schnitzler percorre uma via que 茅, em larga medida, paralela ao meu pr贸prio desenvolvimento. Ele expressa poeticamente o que eu tento comunicar cientificamente. Mas o Dr. Schnitzler n茫o 茅 apenas um poeta, 茅 tamb茅m um cientista.

George Sylvester Vieireck: O senhor n茫o 茅 apenas um cientista, mas tamb茅m um poeta. A literatura americana est谩 impregnada da psican谩lise. Hupert Hughes Harvrey O鈥橦iggins e outros se fazem de seus int茅rpretes. 脡 quase imposs铆vel abrir um novo romance sem encontrar refer锚ncia 脿 psican谩lise. Entre os dramaturgos, Eugene O鈥橬eill e Sydney Howard t锚m profunda d铆vida para com o senhor. 鈥淎 The Silver Cord鈥, por exemplo, 茅 simplesmente uma dramatiza莽茫o do complexo de 脡dipo.

S. Freud: Eu sei e apresento o cumprimento que h谩 nessa constata莽茫o. Mas tenho receio da minha popularidade nos Estados Unidos. O interesse americano pela psican谩lise n茫o se aprofunda. A populariza莽茫o leva 脿 aceita莽茫o superficial sem estudo s茅rio. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psican谩lise porque brincam com seu jarg茫o! Eu prefiro a ocupa莽茫o intensa com a psican谩lise, tal como ocorre nos centros europeus. A Am茅rica foi o primeiro pa铆s a reconhecer-me oficialmente. A 鈥淐lark University鈥 concedeu-me um diploma honor谩rio quando eu ainda era ignorado na Europa. Entretanto, a Am茅rica fez poucas contribui莽玫es originais 脿 psican谩lise. Os americanos s茫o julgadores inteligentes, raramente pensadores criativos. Os m茅dicos nos Estados Unidos e ocasionalmente tamb茅m na Europa, procuram monopolizar para si a psican谩lise. Mas seria um perigo para a psican谩lise deix谩-la exclusivamente nas m茫os dos m茅dicos, pois uma forma莽茫o estritamente m茅dica 茅, com freq眉锚ncia, um empecilho para o psicanalista 脡 sempre um empecilho, quando certas concep莽玫es cient铆ficas tradicionais ficam arraigadas no c茅rebro estudioso.

(Freud tem que dizer a verdade a qualquer pre莽o! Ele n茫o pode obrigar a si mesmo a agradar a Am茅rica, onde est谩 a maioria de seus admiradores. Apesar da sua intransigente integridade, Freud 茅 a urbanidade em pessoa. Ele ouve pacientemente cada interven莽茫o, n茫o procurando jamais intimidar o entrevistador. Raro 茅 o visitante que deixa sua presen莽a sem algum presente, algum sinal de hospitalidade! Havia escurecido. Era tempo de eu tomar o trem de volta 脿 cidade que uma vez abrigara o esplendor imperial dos Hasburgos. Acompanhada da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levavam do seu ref煤gio na montanha 脿 rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e triste, ao dar o seu adeus).

S. Freud: N茫o me fa莽a parecer um pessimista (disse ele ap贸s o aperto de m茫o). Eu n茫o tenho desprezo pelo mundo. Expressar desd茅m pelo mundo 茅 apenas outra forma de cortej谩-lo, de ganhar audi锚ncia e aplauso. N茫o, eu n茫o sou um pessimista, n茫o, enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! N茫o sou infeliz 鈥 ao menos n茫o mais infeliz que os outros.

(O apito de meu trem soou na noite. O autom贸vel me conduzia rapidamente para a esta莽茫o. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabe莽a grisalha de Sigmund Freud desapareceram na dist芒ncia).


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