Fonte: Akhenaton: a hist贸ria do homem contada por um gato 鈥 por G茅rard Vincent
Cap铆tulo I 鈥 L铆ngua de gato
Meu nome 茅 Akhenaton e eu sou gato. De minha exist锚ncia compartilham Amen贸fis IV, meu irm茫o g锚meo 鈥 mas dizigoto 鈥, e o pintor 脡douard. H谩 muitos anos 鈥 dez, quinze? -, um garoto louro de olhos azul-marinho deu a 脡douard uma caixa de papel茫o vermelha, cheia de buracos. Ele levantou a tampa e descobriu dois gatinhos de olhos entreabertos. T铆nhamos cinco semanas. 鈥淯m presente para o senhor鈥, disse a crian莽a. N茫o podendo diferenciar-nos 鈥 o olhar humano 茅 de d茅bil acuidade -, 脡douard nos batizou de Akhenaton e Amen贸fis IV por uma raz茫o evidente que o leitor j谩 compreendeu.
O fara贸 cujo nome eu uso tencionou impor o monote铆smo ao povo eg铆pcio e confiar 脿 arte a miss茫o de representar o real, sem compromisso nem indulg锚ncia, a come莽ar com sua pr贸pria pessoa, que se pode ver em Karnac: m谩scara cavalar, bra莽os delgados, peito esquel茅tico, ventre intumescido, quadris femininos, uma verdadeira escultura expressionista. Talvez meu nome tenha contribu铆do para dar-me a voca莽茫o de escrever a hist贸ria do homem. Talvez me tenha sensibilizado para a percep莽茫o do imut谩vel, visto que, durante tr锚s mil锚nios, os eg铆pcios constru铆ram, esculpiram, gravaram, pintaram segundo as mesmas normas. Talvez, enfim, me tenha incitado 脿 demasiada indulg锚ncia em rela莽茫o aos animais, havendo Diodoro constatado, com estupefa莽茫o, que durante uma 茅poca de fome os eg铆pcios preferiram devorar-se entre si a comer os animas sagrados. E quase todos os animais o eram.
Aos gatos, que os intrigam e inquietam, os homens consagraram inumer谩veis obras. Pousaram sobre n贸s seu olhar, mas n茫o se preocuparam muito com o que n贸s lan莽amos sobre eles. A meta deste livro 茅 preencher tal lacuna. Mas, informo, apesar do t铆tulo aparentemente l煤dico, ele n茫o pretende fazer rir. N茫o se dirige apenas aos beberr玫es muito ilustres e malinados muito preciosos, mas a todas aquelas e todos aqueles que se preocupam em conhecer a origem de seus preconceitos e supersti莽玫es, se n茫o sua pr贸pria origem, em suma. Sei quanto os homens s茫o curiosos por sua genealogia. Sei que muitos, nesta terra, imperadores, reis, presidentes, enarcas(1), inspetores, nomenklaturistas, descendem de alguns carregadores de xepa e de cestos, de cordoeiros ou de lavadores de tripas. De igual modo sei que mendigos e mendigas, enfermi莽os e miser谩veis, que a gente v锚 dormir sob as pontes, pedir esmolas 脿 porta dos hot茅is de luxo, acabar sua triste exist锚ncia no asilo de Ivry, 脿s vezes descendem da ra莽a e linhagem dos imperadores, reis, presidentes, enarcas, inspetores, nomenklaturistas, levando-se em conta a admir谩vel transfer锚ncia dos reinos e dos imp茅rios. A mim, Akhenaton, acontece-me pensar que descendo daqueles gatos fara么nicos que, do alto das pir芒mides, olhavam escoarem-se os s茅culos e desabarem os imp茅rios. Qual Morandi, a consagrar sua vida 脿 contempla莽茫o de vasos e garrafas, ocupo a minha na observa莽茫o das agita莽玫es humanas.
Estas s茫o sempre ritmadas pela dial茅tica do senhor e do escravo. N茫o existem na animalidade. N贸s combatemos para sobreviver e acontece-nos ter como repasto a carne de esp茅cies que n茫o odiamos. Mas n茫o as guardamos como reserva em rebanhos, como fazem os homens ao cercarem seus carneiros, vacas, aves, dos mais atentos cuidados antes de os degolar e devorar . E o homem leva 脿s 煤ltimas conseq眉锚ncias o aproveitamentos dos restos: n贸s deixamos aos abutres as partes n茫o-com铆veis de nossas v铆timas, os homens com elas fazem casacos, vestidos, bugigangas, egretes para ornar os chap猫us das senhoras.
O homem atira-se aos t铆tulos e 脿s coisas. O gato satisfaz-se com o que 茅, contenta-se com o que tem. Ignora a inveja. A grama 茅 sempre mais verde na margem fronteira, diz o japon锚s. Nossa pr贸pria margem nos basta. Sabemos que a idade de ouro n茫o est谩 atr谩s de n贸s, que o eldorado n茫o est谩 adiante. N茫o somos desesperados. N茫o esperamos nada, sen茫o repeti莽茫o.
Diz-se que os povos felizes n茫o t锚m hist贸ria. N茫o existe povo feliz. Portanto s贸 existe hist贸ria. Conv茅m escrev锚-la. Vou tentar, mas entendo, modestamente, ser como Deus no universo, presente em toda parte, vis铆vel em nenhum lugar. N茫o trago mensagem alguma. 脡 preciso, se se quer viver, renunciar a ter uma id茅ia n铆tida do que quer que seja. A humanidade 茅 assim, n茫o se trata de modific谩-la, mas de conhec锚-la. A maneira pela qual falam de Deus todas as religi玫es me revolta, eis que o tratam com certeza, leviandade, familiaridade. Irritam-me sobretudo os padres, que t锚m sempre esse nome na boca. 脡 uma esp茅cie de espirro que lhes 茅 habitual: a bondade de Deus, a c贸lera de Deus, ofender a Deus, eis suas palavras. 脡 consider谩-lo como um homem e, pior ainda, como um burgu锚s.
Ouso dirigir-me ao leitor e lembrar-lhe que a Hist贸ria que ele est谩 acostumado a ler n茫o 茅 factual, que n茫o passa de uma s茅rie de julgamentos admitidos, que a ignor芒ncia 茅 a primeira necessidade da Hist贸ria, visto que simplifica e clarifica, escolhe e omite. Est谩s convencido de que teus ancestrais que viveram na Idade M茅dia ocidental eram crist茫os. Mas fica sabendo que as fontes sobre as quais se baseia tal afirma莽茫o s茫o os textos dos cl茅rigos, os 煤nicos que, naquela 茅poca, saberiam ler e escrever, e ainda era preciso que seus escritos estivessem conformes aos prejulgados do momento. Antes de leres um livro de hist贸ria, n茫o privilegies os fatos que relata, mas a pessoa do historiador. L锚 sua biografia, depois a de seu bi贸grafo, e por fim a do bi贸grafo de sua biografia. Podes faz锚-lo? N茫o, certamente. Portanto, s贸 conhecer谩s o julgamento de um certo homem, num certo momento, quadro de uma certa 茅poca da qual subsistem apenas tra莽os incompletos. O historiador 茅 o produto de uma historia que tu n茫o podes conhecer melhor do que aquela que ele exp玫e. E, a depender de sua idade, o mesmo historiador pode relatar a mesma hist贸ria de maneiras diferentes, tanto quanto ningu茅m se banha duas vezes no mesmo rio.
A ingenuidade de certos historiadores, os que d茫o um 'sentido' 脿 Hist贸ria 鈥 mas trata-se de dire莽茫o ou de significa莽茫o? -, consiste em crer (e fazer crer) que os acontecimentos se empilham como pratos que formariam uma torre capaz de atingir o c茅u da felicidade. 脡 o que denominam progresso. Um deles, brit芒nico e bastante s谩bio, vivendo no s茅culo dito 'das luzes', n茫o hesitou em escrever: 鈥淧odemos concluir com seguran莽a que, desde o come莽o do mundo, cada s茅culo aumentou e continua a aumentar as riquezas reais, a felicidade, a intelig锚ncia, e talvez mesmo as virtudes da ra莽a humana.鈥 N茫o insistamos em tal estupidez. Para n贸s, gatos, a Hist贸ria 茅 'quase' im贸vel e praticamente n茫o percebemos 'progresso' entre o massacre dos dez mil crist茫os ordenado pelo rei Sopor e pintado por D眉rer e a combust茫o de milh玫es de judeus em Auschwitz. Tamb茅m n茫o pensamos que o nariz de Cle贸patra tenha mudado o mundo nem que um pouco de humor acre, ao afetar uma 煤nica fibra de um 煤nico homem, possa suspender as infelicidades e as ru铆nas das na莽玫es. Os homens julgam as sociedades a partir deles. Declaram 'b谩rbaros' os francos, que puniam o roubo com morte e o assass铆nio com multa. Mas s茫o os mesmos a acharem normal morrer nas estradas e nelas matar o pr贸ximo. Somente os gatos, exteriores 脿 sociedade humana e n茫o pertencentes a qualquer outra 鈥 pois n茫o existe sociedade felina -, s茫o capazes de chegar 脿 objetividade. Este livro 茅 o primeiro livro de hist贸ria, n茫o sendo os outros mais do que colet芒neas de hist贸rias, tanto quanto a hist贸ria-narra莽茫o 茅 um acerto de contas e de contos. Os historiadores, mesmo os mais legitimados, s贸 percebem uma pequena parte daquilo que foi, prisioneiros que s茫o da opacidade do real e da exig锚ncia profissional de afirmar a transpar锚ncia dessa opacidade.
J谩 era tempo de que viesse o gato para dizer aos homens o que eles foram, o que eles s茫o. Estranhos mam铆feros b铆pedes capazes do melhor e do pior, a aperfei莽oarem a arte de destruir seus semelhantes e as t茅cnicas de sua prolifera莽茫o: trezentos milh玫es de homens h谩 dois mil anos; seguramente mais de seis bilh玫es no ano 2000; eles dominam este pequeno planeta, explorando-o talvez at茅 a total destrui莽茫o. N茫o se pode investir nem os carrascos nem as v铆timas do encargo de relatar a hist贸ria das execu莽玫es capitais. Estou aqui para tentar fazer isso. N茫o mergulharei minha pena no sangue das v铆timas dos inumer谩veis genoc铆dios perpetrados pelos homens, porque tamb茅m penso naquelas e naqueles 鈥 geralmente an么nimos 鈥 que deram seu tempo e 脿s vezes suas vidas para que alguns otimistas pudessem inventar a palavra 'felicidade'. Denunciarei os verdugos dos gatos pretos, mas farei o elogio de S茫o Filipe Neri, que instalava sua gata branca sobre o altar onde celebrava a missa.
Minha mem贸ria carrega pegadas de tudo o que viu, viveu, sofreu minha ra莽a. Sou testemunha absoluta. Vivo (ou morro) quando dezenas de milh玫es de homens e mulheres s茫o aniquilados pelas epidemias pestosas. Vivo, espectador das festas galantes cantadas e pintadas por Lulli e Watteau. Vivo nas gar莽onni猫res dos ricos e nos bord茅is para pobres, nas saunas e nas termas. Vivo (ou morro) nas trincheiras de Argonne, em Stalingrado sitiada, em Dresden incendiada, em Hiroshima aniquilada. Tudo isso, eu o relatarei numa l铆ngua que n茫o excluir谩 certo preciosismo. N贸s dormimos tanto sobre os dicion谩rios que lhes conhecemos todas as palavras, n茫o confundindo, claro, ataraxia e entel茅quia, err芒ncia e erro, avatar e acidente e, sempre, entre duas palavras, escolhendo a menor. Visto que nos falta imagina莽茫o (n茫o inventamos nada depois de Bastet), nenhuma fantasia se intercala entre aquilo que 茅 e aquilo que n贸s percebemos.
E n贸s percebemos mais o que se reproduz do que o que se modifica. Quarenta mil escravos massacrados em 71 a.C. Na batalha de Brundusium e os sobreviventes da revolta de Spartacus crucificados ao longo das vias romanas; crist茫os entregues a le玫es esfomeados nos circos, sob aplauso da multid茫o; c谩taros e outros 'her茅ticos' queimados aos milhares nas fogueira erguidas pela Inquisi莽茫o; judeus massacrados em seus guetos pelos cruzados; astecas v铆timas de um genoc铆dio e de um etnoc铆dio, militantes comunistas m谩rtires sob Hitler e carrascos sob St谩lin 鈥 alguns exemplos, entre muitos outros, da 'repeti莽茫o'.
Qui莽谩 em virtude de minhas origens asi谩ticas (sou um gato siam锚s), sinto-me poroso nesta manh茫 de 1潞 de agosto, quando se cruzam os que saem de f茅rias e os que dela retornam, a matarem-se vez por outra nas auto-estradas superlotadas. Nas praias mediterr芒neas, as preocupa莽玫es cotidianas tentam transformar-se em iscas de felicidade. Os corpos se desnudam e se bronzeiam; nada-se; veleiros passam sossegadamente; as lanchas arrebentam alguns cr芒nios; o ronco de seus motores abafa o conte煤do ins铆pido das conversas; sai-se 谩 noite para dan莽ar ou jogar no cassino. Por que se agitam eles sem parar? Penso naquele painel de laca que encimava o trono dos imperadores da China e no qual se podia ler: 鈥淣茫o aja鈥. Fa莽o minhas estas palavras de Conf煤cio: 鈥淎quele que governa um povo dando-lhe o bom exemplo 茅 como a Estrela Polar, que permanece im贸vel enquanto todas as outras se lhe movem em torno.鈥 N贸s somos a Estrela Polar dos homens, a lembrar-lhes que quem se conduz verdadeiramente como chefe n茫o toma parte da a莽茫o. Deixamos os melhores dos humanos 鈥 os menos piores 鈥 tentarem conhecer os outros, primeiro passo em dire莽茫o 脿 sabedoria, concentrando-nos para nos conhecermos a n贸s mesmos, segundo passo em dire莽茫o a uma sabedoria superior. Vemos os homens de cima, empoleirando-nos numa 谩rvore, num teto, numa sacada, num revelim. Eles vivem no r茅s do ch茫o, afigurando-se, porque participantes dessa contig眉idade horizontal, ver a totalidade do espet谩culo. Os c茫es, a trotarem ao n铆vel das n谩degas humanas, partilham a mesma ilus茫o. Uns e outros vangloriam-se de haver tudo visto e tudo compreendido. A ingenuidade deles nos leva a sorrir, mas o sorriso de um gato, contrariamente 脿s alega莽玫es de Alice, deixa-lhe im贸vel o focinho, que se mant茅m 煤mido e fresco.
Nada dura que n茫o mude e n茫o venha a ser, por que tentar compreender o universo? Nossa felina pregui莽a 茅 total, n茫o tencionamos perturbar a a莽茫o pela a莽茫o, dado que ela j谩 se desfaz enquanto se cumpre. No s茅culo passado, um certo Hung Hsih-chuan pretendeu realizar o T'ai-P'ing, 'a grande harmonia'. Para facilitar sua empresa, proclamou-se segundo filho de Deus, igual a Cristo em dignidade. Desencadeou a maior guerra camponesa da historia da humanidade. Houve milh玫es de mortos e tudo voltou a ser como antes. Por que agir? Os alem茫es dominaram a Europa pela for莽a das armas; foram vencidos. Dominam-na agora pela for莽a econ么mica. Por que agir? Os japoneses conquistaram uma parte do mundo com seus camicases e outros soldados; foram vencidos. Hoje ocupam-lhe uma parte muito maior com seus ve铆culos, suas cadeias hi-fi e seus computadores. Por que agir? O yang 茅 a luz, o calor, a atividade, o homem, o dominador, a esquerda do corpo; o yin 茅 a escurid茫o, o frio, a passividade, a mulher, o dominado, o dorso e a parte direita do corpo. Um e outro s茫o ao mesmo tempo o bem e o mal; s茫o esses dois sopros que nos permitem continuar nosso caminho. E nosso caminhar, o de n贸s outros, gatos, n茫o 茅 mais do que rodear incessantemente nosso territ贸rio, defend锚-lo sem tentar estend锚-lo, distrair-nos a observar a insignific芒ncia dos homens, esperar a morte que nos trar谩 a paz. Sim, na alvorada deste 1潞 de agosto, sinto-me poroso. Impor a pr贸pria vontade aos outros 茅 deveras ilus贸rio. Imp么-la a si mesmo 茅 conformar-se 脿 lei da Natureza. Tratemos de desfrutar deste acaso 鈥 ou de evitar sofrer dele por demais 鈥 e obede莽amos a essa lei.
Por vezes, interrogo-me sobre a origem de nossa pregui莽a. O professor Jacques Sternberg, da Universidade Cat贸lica de Louvain, antrop贸logo, zo贸logo e te贸logo de reputa莽茫o mundial, adianta uma hip贸tese interessante. Segundo ele, Deus teria criado o gato 脿 sua imagem. O gato fez-se, portanto, pregui莽oso, visto que Deus, todo poderoso, n茫o necessitara fatigar-se para criar o universo. N茫o querendo o gato fazer nada, criou Deus o homem para o servir. Ao gato ele dera suas qualidades: indol锚ncia, lucidez, sistema sensorial sofisticado; ao homem ele deu neurose, dom da bricolagem, paix茫o pelo trabalho e vaidade. Gra莽as a tais qualidades subsidi谩rias, o homem, ao longo dos s茅culos, edificou uma s茅rie de civiliza莽玫es baseadas na inven莽茫o, na produ莽茫o, no consumo intensivo, as quais edificaram-se, combateram-se, destru铆ram-se todas uma 脿 outra mas assumiram, apesar de suas impiedosas e sangrentas lutas, a miss茫o de que haviam sido investidas pela pot锚ncia divina: oferecer ao gato o conforto, a toca e a coberta. Assim 茅 que o homem inventou milh玫es de objetos in煤teis, freq眉entemente absurdos, tais como o barbeador el茅trico, a bomba at么mica, o autom贸vel, o avi茫o a jato e o TGV, a maioria destinada a matar o tempo, muito embora o homem, obsedado pela inevitabilidade da morte, quisesse que o tempo vivesse. Mas (e isto deve ser dito em louvor ao homem) tamb茅m inventou alguns utens铆lios indispens谩veis ao bem-estar do gato: o aquecedor de ambiente, a almofada, a tigela, a caixa de serragem, o tapete, o cesto de vime e o r谩dio para os gatos mel么manos.
Essa hip贸tese cientificamente nova valeu ao professor Sternberg a convoca莽茫o a Roma pelo cardeal Ratzinger, respons谩vel pela Congrega莽茫o da Doutrina da F茅. Ele teve a insol锚ncia de comparecer, um gato preto sobre cada ombro. Licenciado da Universidade Cat贸lica de Louvain, percorreu o mundo metido num h谩bito de burel e de corda ao pesco莽o, a repetir: 鈥淯m homem 茅 civilizado na medida em que compreende o gato.鈥 o esc芒ndalo emocionou as senhoras donas de gatos e os poetas. Os meios de comunica莽茫o mobilizaram-se. O Vaticano cedeu. Por meio da enc铆clica Feles amici hominibus sunt, Jo茫o Paulo II selou para a eternidade (esperemo-lo) a reconcilia莽茫o entre a Igreja e o gato.
Os notici谩rios das 20 horas nos informam que, por ocasi茫o do plano governamental de duplica莽茫o das auto-estradas e das vias de TGV no Hex谩gono, o INSEE e o INED, conjugando esfor莽os, coordenaram uma grande pesquisa sobre a rela莽茫o dos homens com a velocidade.
脌 pergunta 鈥淧or que deseja andar cada vez mais depressa?鈥 as respostas foram as seguintes:
- Para chegar mais r谩pido at茅 a frente da tela de tev锚: 20%;
- Para me bronzear por mais tempo quando saio de f茅rias: 12%;
- Para encontrar a pessoa amada: 8%;
- Para ler: 0,01%;
- N茫o sei: 40%;
- N茫o responderam: 19,99%.
Aos que responderam 鈥減ara me bronzear por mais tempo鈥, fez-se a seguinte pergunta:
Por que gosta de bronzear-se?
Respostas:
- Para n茫o pensar mais: 70%;
- Para ficar mais bonito (ou mais bonita): 20%;
- N茫o responderam: 10%.
脌quelas e 脿queles cuja resposta foi 鈥淧ara n茫o pensar mais鈥, perguntou-se (quest茫o aberta):
Quando pensa, em que pensa?
Respostas:
- Em nada: 80%;
- Em meus problemas profissionais:10%;
- Em meus problemas familiares: 8%;
- No sentido da Hist贸ria: 1%;
- Na hist贸ria do sentido: 1%.
Como recomenda Epicuro, desprendo-me de todas as preocupa莽玫es triviais, que s茫o outros tantos obst谩culos 脿 conquista da beatitude. N茫o creio na exist锚ncia da alma, mas, se se entende assim a uma certa aptid茫o para sofrer, para pensar o mundo e pensar-se no mundo, sei que ela desaparecer谩 comigo. N茫o tendo necessidade nem de suportes pol铆ticos nem de prote莽玫es complacentes, n茫o busco a amizade de ningu茅m; aceito as que se apresentam. Contrariamente aos c茫es, aos asnos e aos homens, rejeito qualquer humilha莽茫o, podendo sempre partir e encontrar o necess谩rio para sobreviver. N茫o escreverei certamente, ap贸s haver recebido uma palmada, que 鈥渁 execu莽茫o foi menos terr铆vel do que fora a espera, que o castigo me afei莽oou ainda mais 脿quela que mo havia imposto, pois eu encontrara na dor, na vergonha mesma, uma mistura de sensualidade que me deixara mais desejo do que temor鈥. E n茫o admito que Malebranche tenha dado pontap茅s no ventre de sua gata prenhe, atribuindo os gritos dela aos 'esp铆ritos animais'.
Posso dormir 20 horas por dia e gozar assim de uma quietude catastem谩tica. Quanto aos desejos, s茫o de tr锚s esp茅cies. Desejos naturais e necess谩rios: beber, comer, dormir, estar aquecido, vez por outra conhecer Nefertiti. Desejos naturais e n茫o-necess谩rios, que diversificam o prazer e que tento satisfazer: prefiro, ao camundongo de passagem, as iguarias requintadas que 脡douard me prepara. Quanto aos desejos nem necess谩rios, nem naturais, como a riqueza, as honrarias, a gl贸ria, de que s茫o t茫o 谩vidos os homens, n茫o os experimento.
脡 principalmente no que se refere 脿 morte que me separo dos homens. Ela 茅 para mim desaparecimento total e fim absoluto da vida. Todo bem e todo mal residem na sensa莽茫o, e a morte 茅 o desaparecimento desta. A morte faz fremerem os homens mas nada 茅 para mim, pois, enquanto eu existo, ela n茫o 茅 e, quando 茅, eu n茫o sou mais. Fantasma e quimera, s贸 existe quando n茫o existe. Por isso, Dem贸crito, Epicuro, Lucr茅cio, Montaigne e Swift, esses pessimistas absolutos, s茫o meus mestres de pensamento. S茫o Jer么nimo afirmava que Lucr茅cio, havendo enlouquecido, se teria suicidado para infligir-se o castigo reservado aos 铆mpios. Lucr茅cio n茫o acreditava nos deuses. Para ele, o homem era nada em rela莽茫o ao todo, e um todo em rela莽茫o ao nada. Crian莽a, como o marujo que as vagas furiosas rejeitam sobre a orla, o homem jaz por terra, impotente para falar, desprovido de qualquer meio de viver, desde o primeiro instante em que, confrontado com o ritmo da luz, a Natureza o arranca 脿 for莽a ao ventre de sua m茫e. Jamais se recuperar谩 dessa mis茅ria inicial e permanecer谩, vida afora, estrangeiro num mundo para ele inintelig铆vel. Vindo do nada, a ele o homem retornar谩 de corpo e alma, depois de consagrar sua vida ao temor da morte e 脿 inven莽茫o de uma exist锚ncia no al茅m, para adaptar-se 脿 sua perp茅tua ansiedade. Para suportar tal espera, alimentar-se-谩 de ilus玫es: ilus茫o do progresso; ilus茫o de uma poss铆vel sabedoria trazida pela filosofia; ilus茫o de uma eventual comunica莽茫o com seu pr贸ximo; ilus茫o do amor, que n茫o passa de uma luta da carne, sem sa铆da e sem alegria, n茫o sendo o amplexo sen茫o a realidade tr谩gica do fracasso. Como n茫o existe nenhum mundo antes, depois, em outro lugar, a 煤nica coisa a fazer 茅 n茫o fazer nada e contemplar, im贸vel, impass铆vel, sereno, o tr谩gico desenrolar-se dessa deambula莽茫o que conduz do nada ao nada. Tal 茅 a atitude dos gatos. Os 谩tomos, por um momento agregados para me constituir, a mim, Akhenaton, espalhar-se-茫o depois de minha morte, e s贸 restar茫o estas palavras.
O que acabo de escrever, leitoras, leitores, parecer-vos-谩 talvez brutal, mas os pr铆ncipes, em sua felicidade, parecem-me sobremaneira dignos de l谩stima por serem privados de ouvir a verdade e for莽ados a escutar aduladores, e n茫o amigos. H谩 os que pensam que se pode mudar o homem e os que se resignam a tom谩-lo pelo pouco que ele 茅. Estou entre estes 煤ltimos. Quanto ao leitor que se indignasse com minha pretens茫o, retorquir-lhe-ia: 鈥淧or humildade, n茫o temo ningu茅m鈥.
Notas:
(1) enarcas 鈥 ir么nico neologismo para designar os ex-alunos da E.N.A., 脡cole Nationale d'Administration (N. da T.).
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"In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act." George Orwell
Eust谩quio Maia