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O Homem Revoltado - Al茅m do Niilismo

 
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Thais Paloma

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MensagemEnviada: 26/07/2006 - 21:14:40    Assunto: O Homem Revoltado - Al茅m do Niilismo Responder com cita莽茫o

O Homem Revoltado 鈥 Al茅m do Niilismo
Albert Camus

Existem portanto para o homem uma a莽茫o e um pensamento poss铆veis no n铆vel m茅dio que 茅 o seu. Qualquer empreendimento mais ambicioso revela-se contradit贸rio. O absoluto n茫o 茅 alcan莽ado, nem muito menos criado atrav茅s da hist贸ria. A pol铆tica n茫o 茅 a religi茫o do contr谩rio, n茫o passa de inquisi莽茫o. Como a sociedade definiria um absoluto? Talvez cada qual busque, por todos, esse absoluto. Mas a sociedade e a pol铆tica t锚m apenas o encargo de ordenar os neg贸cios de todos para que cada qual tenha o lazer e a liberdade dessa busca comum. A hist贸ria n茫o pode mais ser erigida como objeto. Ela n茫o 茅 mais que uma oportunidade, que deve ser tornada prof铆cua por uma revolta vigilante.
芦A obsess茫o pela colheita e a indiferen莽a em rela莽茫o 脿 hist贸ria鈥, escreve admiravelmente Ren茅 Char, 鈥渟茫o as duas extremidades de meu arco.鈥 Se o tempo da hist贸ria n茫o 茅 feito do tempo da colheita, a hist贸ria n茫o 茅 mais que uma sombra fugaz e cruel onde o homem n茫o encontra mais seu quinh茫o. Quem se entrega a essa hist贸ria n茫o se entrega a nada e, por sua vez, nada 茅. Mas quem se dedica ao tempo de sua vida, 脿 casa que defende, 脿 dignidade dos seres vivos, entrega-se 脿 terra, dela recebendo a colheita que semeia e nutre novamente. S茫o enfim aqueles que sabem, no momento desejado, revoltar-se tamb茅m contra a hist贸ria que a fazem progredir. Isso sup玫e uma intermin谩vel tens茫o e a serenidade crispada de que nos fala o mesmo poeta. Mas a verdadeira vida est谩 presente no cora莽茫o dessa dicotomia. Ela 茅 o pr贸prio dilaceramento, o esp铆rito que paira acima dos vulc玫es de luz, a loucura pela eq眉idade, a intransig锚ncia extenuante da medida. Para n贸s, o que ressoa no~ confins dessa longa aventura revoltada n茫o s茫o f贸rmulas de otimismo, que n茫o t锚m utilidade no extremo de nossa desgra莽a, mas sim palavras de coragem e de intelig锚ncia, que, junto ao mar, s茫o at茅 mesmo virtude.

Nenhuma sabedoria atualmente pode pretender dar mais. A revolta confronta incansavelmente o mal, do qual s贸 lhe resta tirar um novo 铆mpeto. O homem pode dominar em si tudo aquilo que deve ser dominado. Deve corrigir na cria莽茫o tudo aquilo que pode ser corrigido. Em seguida, as crian莽as continuar茫o a morrer sempre injustamente, mesmo na sociedade perfeita. Em seu maior esfor莽o, o homem s贸 pode propor-se uma diminui莽茫o aritm茅tica do sofrimento do mundo. Mas a injusti莽a e o sofrimento permanecer茫o e, por mais limitados que sejam, n茫o deixar茫o de ser um esc芒ndalo. O 鈥減or qu锚?鈥 de Dimitri Karamazov continuar谩 a ecoar; a arte e a revolta s贸 morrer茫o com a morte do 煤ltimo homem.
H谩 sem d煤vida um mal que os homens acumulam em seu desejo apaixonado de unidade. Mas um outro mal est谩 na origem desse movimento desordenado. Diante desse mal, diante da morte, o homem, no mais profundo de si mesmo, clama por justi莽a. O cristianismo hist贸rico s贸 respondeu a esse protesto contra o mal pela anuncia莽茫o do reino e, depois, da vida eterna, que exige a f茅. Mas o sofrimento desgasta a esperan莽a e a f茅; ele continua ent茫o solit谩rio e sem explica莽茫o. As multid玫es que trabalham, cansadas de sofrer e morrer s茫o multid玫es sem deus. Nosso lugar, a partir de ent茫o, 茅 a seu lado, longe dos antigos e dos novos doutores. O cristianismo hist贸rico adia para al茅m da hist贸ria a cura do mal e do assassinato, que, no entanto, s茫o sofridos na hist贸ria. O materialismo contempor芒neo julga, da mesma forma, responder a todas as perguntas. Mas, escravo da hist贸ria, ele aumenta o dom铆nio do assassinato hist贸rico, deixando-o ao mesmo tempo sem justifica莽茫o, a n茫o ser no futuro, que, ainda uma vez, exige a f茅. Em ambos os casos, 茅 preciso esperar, e, enquanto isso, os inocentes n茫o deixam de morrer. H谩 vinte s茅culos, a soma total do mal n茫o diminuiu no mundo. Nenhuma par煤sia, quer divina ou revolucion谩ria, se realizou. Uma injusti莽a continua imbricada em todo sofrimento, mesmo o mais merecido aos olhos dos homens. O longo sil锚ncio de Prometeu diante das for莽as que o oprimem continua a gritar. Mas, nesse 铆nterim, Prometeu viu os homens se voltarem tamb茅m contra ele, ridicularizando-o. Espremido entre o mal humano e o destino, o terror e o arb铆trio, s贸 lhe resta sua for莽a de revolta para salvar do assassinato aquilo que ainda pode ser salvo, sem ceder ao orgulho da blasf锚mia.

Compreende-se ent茫o que a revolta n茫o pode prescindir de um estranho amor. Aqueles que n茫o encontram descanso nem em Deus, nem na hist贸ria est茫o condenados a viver para aqueles que, como eles, n茫o conseguem viver: rara os humilhados. O corol谩rio do movimento mais puro da ent茫o o grito dilacerante de Karamazov: se n茫o forem salvos todos, de que serve a salva莽茫o de um s贸? Dessa forma, condenados cat贸licos, nas masmorras da Espanha, recusam hoje a comunh茫o, porque os padres do regime tornaram-na obrigat贸ria em certas pris玫es. Tamb茅m eles, 煤nicas testemunhas da inoc锚ncia crucificada, recusam a salva莽茫o, se seu pre莽o 茅 a injusti莽a e a opress茫o. Essa louca generosidade 茅 a da revolta, que oferta sem hesita莽茫o sua for莽a de amor, e recusa peremptoriamente a injusti莽a. Sua honra 茅 de n茫o calcular nada, distribuir tudo na vida presente, e aos seus irm茫os vivos. Desta forma, ela 茅 pr贸diga para os homens vindouros. A verdadeira generosidade em rela莽茫o ao futuro consiste em dar tudo no presente.

Com isso, a revolta prova que ela 茅 o pr贸prio movimento da vida e que n茫o se pode neg谩-la sem renunciar 脿 vida. Seu grito mais puro, a cada vez, faz com que um ser se revolte. Portanto, ela 茅 amor e fecundidade ou ent茫o n茫o 茅 nada. A revolu莽茫o sem honra, a revolu莽茫o do c谩lculo, que, ao preferir o homem abstrato ao homem de carne e osso, nega a exist锚ncia tantas vezes quanto necess谩rio, coloca o ressentimento no lugar do amor. T茫o logo a revolta, esquecida de suas origens generosas, deixa-se contaminar pelo ressentimento, ela nega a vida, correndo para a destrui莽茫o, fazendo sublevar-se a turba zombeteira de pequenos rebeldes, embri玫es de escravos, que acabam se oferecendo hoje, em todos os mercados da Europa, a qualquer servid茫o. Ela n茫o 茅 mais revolta nem revolu莽茫o, mas rancor e tirania. Ent茫o, quando a revolu莽茫o, em nome do poder e da hist贸ria, torna-se esta mec芒nica assassina e desmedida, uma nova revolta 茅 consagrada, em nome da modera莽茫o e da vida. Estamos neste extremo. No fim destas trevas, 茅 inevit谩vel, no entanto, uma luz, que j谩 se adivinha 鈥 basta lutar para que ela exista. Para al茅m do niilismo, todos n贸s, em meio aos escombros, preparamos um renascimento. Mas poucos sa em isso.

E j谩 a revolta, na verdade, sem pretender tudo resolver, pode pelo menos tudo enfrentar. A partir deste instante, a luz jorra sobre o pr贸prio movimento da hist贸ria. Em torno dessa fogueira devoradora, combates de sombras agitam-se por um momento, depois desaparecem, e cegos, tocando suas p谩lpebras, exclamam que isto 茅 a hist贸ria. Os homens da Europa, abandonados 脿s sombras, desviaram-se do ponto fixo e reluzente. Eles trocam o presente pelo futuro, a humanidade pela ilus茫o do poder, a mis茅ria dos sub煤rbios por uma cidade fulgurante, a justi莽a cotidiana por uma verdadeira terra prometida. Perdem a esperan莽a na liberdade das pessoas e sonham com uma estranha liberdade da esp茅cie; recusam a morte solit谩ria e chamam de imortalidade uma prodigiosa agonia coletiva. N茫o acreditam mais naquilo que existe, no mundo e no homem vivo; o segredo da Europa 茅 que ela n茫o ama mais a vida. Os seus cegos acreditaram de modo pueril que amar um 煤nico dia da vida equivalia a justificar s茅culos inteiros de opress茫o. Por isso, quiseram apagar a alegria do quadro do mundo, adiando-a para mais tarde. A impaci锚ncia dos limites, a recusa da vida na duplicidade, o desespero de ser homem levaram-nos, finalmente, a uma desmedida desumana. Ao negarem a justa grandeza da vida, precisaram apostar na sua pr贸pria excel锚ncia. Na falta de coisa melhor, eles se divinizaram e sua desgra莽a come莽ou: estes deuses t锚m os olhos vazados. Kaliayev e seus irm茫os do mundo inteiro recusam elo contr谩rio, a divindade, j谩 que rejeitam o poder ilimitado de matar. Eles escolhem, e nos d茫o como exemplo, a 煤nica regra original em nossos dias: aprender a viver e a morrer e, para ser homem, recusar-se a ser deus.

No meio-dia do pensamento, a revolta recusa a divindade para compartilhar as lutas e o destino comuns. N贸s escolheremos Itaca, a terra fiel, o pensamento audacioso e frugal, a a莽茫o l煤cida, a generosidade do homem que compreende. Na luz, o mundo continua a ser nosso primeiro e 煤ltimo amor. Nossos irm茫os respiram sob o mesmo c茅u que n贸s, a justi莽a est谩 viva. Nasce ent茫o a estranha alegria que nos ajuda a viver e a morrer e que, de agora em diante, n茫o recusamos a adiar para mais tarde. Na terra dolorosa, ela 茅 o joio inesgot谩vel, o amargo alimento, o vento forte que vem dos mares, a antiga e a nova aurora. Com ela, ao longo dos combates, iremos refazer a alma deste tempo e uma Europa que nada excluir谩. Nem esse fantasma, Nietzsche, que, durante doze anos ap贸s sua derrocada, o Ocidente ia evocar como a imagem arruinada de sua mais elevada consci锚ncia e de seu niilismo; nem esse profeta da justi莽a sem ternura, que descansa, por um erro, na quadra dos incr茅us no cemit茅rio de Highgate; nem a m煤mia deificada do homem de a莽茫o em seu caix茫o de vidro; nem nada do que a intelig锚ncia e a energia da Europa forneceram incessantemente ao orgulho de uma 茅poca desprez铆vel. Todos, na verdade, podem reviver junto aos m谩rtires de 1905, mas com a condi莽茫o de compreender que eles se corrigem uns aos outros e que, sob o sol, um limite refreia todos. Um diz ao outro que n茫o 茅 Deus; aqui se encerra o romantismo. Nessa hora em que cada um de n贸s deve retesar o arco para competir novamente e reconquistar, na e contra a hist贸ria, aquilo que j谩 possui, a magra colheita de seus campos, o breve amor desta terra, no momento em que, finalmente, nasce um homem, 茅 preciso renunciar 脿 茅poca e aos seus furores adolescentes. O arco se verga, a madeira geme. No auge da tens茫o, al莽ar谩 v么o, em linha reta, uma flecha mais inflex铆vel e mais livre.

脡 uma 鈥渃r铆tica鈥 interessante ao niilismo. N茫o 茅 uma fal谩cia ou um sofisma, esse 鈥渁l茅m do niilismo鈥 pode ser algo bem dif铆cil de alcan莽ar, at茅 mesmo pode parecer inconceb铆vel, pois, como n茫o cria valores n茫o poderia se render aos valores impostos e criados. Na forma de uma aspira莽茫o errante pela vida. 脡 uma coisa meio que nietzscheana s贸 que ao reverso digamos, pois se Nietzsche pretende o super-homem, Camus pretende a humaniza莽茫o do que j谩 existe. Ele quer acreditar no que est谩 a铆, n茫o nega a realidade objetiva, mas n茫o a toma como ponto de partida para a uma poss铆vel do valor que supostamente teria a vida.
脡 um esfor莽o para acreditar no nada. Seria louv谩vel se n茫o fosse t茫o in煤til render-se assim a tal esperan莽a...Mas, Camus 茅 muito bom...


Tha铆s Paloma


Editado pela 煤ltima vez por Lenore em 27/07/2006 - 16:22:12; num total de 2 vezes
Editado pela 煤ltima vez por sinnedos em 26/07/2006 - 21:28:20; num total de 10 vezes
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