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Poesia e outras drogas

 
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t. h. abrahao

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MensagemEnviada: 28/07/2006 - 22:37:57    Assunto: Poesia e outras drogas Responder com citação

Poesia e outras drogas


A literatura mundial seria provavelmente bem mais pobre, se todos fossem tão disciplinados quanto Thomas Mann. Pó branco, cogumelo mágico ou erva maldita: os alucinógenos foram liberação para muitos autores. E perdição.



Citação:
Ainda me lembro com exatidão do efeito dessa injeção. Súbito fiquei totalmente desperto. Um sentimento de felicidade, estranho e difícil de descrever, tomou conta de mim.

A morfina deu asas ao escritor suíço Friedrich Glauser, na época da Primeira Guerra Mundial. Seu corpo tornava-se "um só sorriso", o cotidiano perdia a importância, o mundo parecia transmutar-se.
Durante o século 19, os autores procuraram conscientemente essa outra percepção do mundo, através das drogas. Para então descrevê-la, buscando novos caminhos poéticos.
Os poetas românticos foram os primeiros a explorar dessa forma o misterioso mundo do inconsciente. Assim, os Hinos à noite de Novalis foram compostos sob o efeito do ópio.
Também o escocês Robert Louis Stevenson inventou num delírio alucinótico a dupla personalidade de seu Dr. Jekyll e Mr. Hyde. E, na França, o grupo de poetas ligados a Charles Baudelaire criou um verdadeiro "clube do haxixe".


Ode ao pó branco

No século 20, a droga da moda para os poetas foi a cocaína:

Citação:
A dissolução do eu, doce, profundamente desejada
Tu me dás...

Assim Gottfried Benn cantou em verso o pó branco. Secundado por William S. Burroughs, em seu romance autobiográfico Junkie:

Citação:
Se Deus jamais criou alguma coisa melhor, então ele a guardou para si.

Seja como for, pelo menos o LSD, a mescalina e os cogumelos mágicos, Ele não reservou para uso pessoal. As novas drogas estariam destinados a ampliar a consciência da geração seguinte de autores, os hippies.


Novos mundos ou subjetividade pura?

Uma coisa é certa: a literatura mundial seria bem mais pobre, se todos os artistas fossem abstinentes e tão obedientes à disciplina burguesa como um Thomas Mann.
Mas quão real é esse vislumbre de outros mundos? O próprio Baudelaire já relativizava em seu poema sobre o haxixe:

Citação:
Ele revela ao indivíduo nada além de si mesmo.

E como descrever à altura o experimentado durante o delírio? E se, expressa em linguagem sóbria, a revelação soar apenas banal?
No torpor da droga, o escritor norte-americano Aldous Huxley chegou a uma conclusão que até a ele mesmo pareceu pouco poética:
No universo tudo está em ordem.


Pacto com o demônio

E por fim: quem quer saber o que amalgama o mundo, em seu âmago mais profundo, acaba selando um pacto com o diabo. Em outras palavras: a experimentação com alucinógenos, visando escrever melhor, não levou poucos autores à dependência.
Como prova o caso de Benjamin von Stuckrad-Barre, celebrado literato pop de nossos dias. Em entrevista a um jornal, ele reconheceu em 2004 como chegara à beira do abismo, através do consumo de cocaína, esperando recolher material para um romance borbulhante de vida. Até reconhecer - ainda a tempo:

Citação:
Meu instrumento de trabalho, o cérebro, está em jogo.

Hoje em dia Von Stuckrad-Barre se alegra de não haver publicado o "bla-bla-bla nonsense" produzido sob drogas.


Estrada sem retorno

Outros não acham mais a saída para a dependência. Georg Trakl, Klaus Mann, Hans Fallada, Jack Kerouac, Irmgard Keun e Joseph Roth: esses e muitos outros autores morreram em conseqüência do consumo excessivo de álcool ou narcóticos.
Friedrich Glauser, morto pela morfina aos 42 anos de idade, não se iludia quanto ao fim da história:

Citação:
o Paraíso Niilista acredita que todas as justificativas inventadas para justificar o vício são muito bonitas do ponto literário ou poético. Concretamente, é uma desgraça. Pois a pessoa se arruína, a si e a sua vida. Twisted Evil



Fonte


Editado pela última vez por t. h. abrahao em 28/07/2006 - 22:39:33; num total de 1 vez
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Eustaquio Maia




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MensagemEnviada: 29/07/2006 - 09:14:32    Assunto: drogas Responder com citação

É isso aí! Por isso minha lucidez e minha sobriedade são as únicas drogas a que me permito. De que adianta eu tentar uma fuga pela droga só porque a minha realidade é uma droga? Já não basta esta última droga (a realidade) cujo vício temos que administrar até que a nossa pálida amiga, a morte, venha nos libertar? Vivemos num mundo de escravos. Há servidões de todas as maneiras. Nessa dialética do senhor e do escravo, ambos são escravos. Este último é servo porque se deixa explorar, o primeiro (o senhor) vive na eterna dependência do segundo, pois quem necessita de escravos também é escravo. A história está repleta de episódios de indivíduos que, quando perdem seus bens e seus escravos, que lhe conferem poder e status, preferem recorrer ao recurso extremo do suicídio.

Segundo Schopenhauer mesmo nos diz, o médico vê o homem em sua frequeza, o jurista o vê em sua maldade, o teólogo, em sua imbecilidade.
Então, como posso ser um bom cristão e amar ao próximo como a mim mesmo? Como posso amar àqueles que só vêem essas misérias nos outros mas jamais as enxergam em si mesmos? O inferno são os outros (Jean-Paul Sartre).

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Eustáquio Maia


Editado pela última vez por Eustaquio Maia em 29/07/2006 - 09:19:12; num total de 1 vez
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Eustaquio Maia




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MensagemEnviada: 29/07/2006 - 22:40:57    Assunto: mundo de servidão Responder com citação

Vejam também este ensaio interessante que encontrei sobre a incrível religião do individualismo, clicando aqui.

Outra obra muito célebre que recomendo, e que ilustra perfeitamente o mundo de escravos que é este, no qual vivemos, é Servidão Humana (Human Bondage), novela de William Somerset Maugham, a qual também virou filme e pode ser conferida aqui.

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Eustáquio Maia


Editado pela última vez por Eustaquio Maia em 29/07/2006 - 22:50:43; num total de 1 vez
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