Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



Os novos deuses (fragmento) - Emil Michel Cioran

 
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t. h. abrahao

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MensagemEnviada: 07/06/2007 - 04:34:01    Assunto: Os novos deuses (fragmento) - Emil Michel Cioran Responder com cita莽茫o

Os novos deuses (fragmento)
por Emil Michel Cioran



Um homem interessado na prociss茫o das id茅ias e das cren莽as irredut铆veis achar谩 digno do esfor莽o se deter por um instante sobre o espet谩culo oferecido pelos primeiros s茅culos de nossa era: descobrir谩 aqui o verdadeiro modelo de todos os tipos de conflito que se encontram, em formas atenuadas, a cada momento da hist贸ria. Perfeitamente compreens铆vel: essa 茅 a 茅poca em que o homem odiou mais, cr茅dito que se deve conceder aos crist茫os 鈥 febris, intrat谩veis, especialistas desde o come莽o na arte da detesta莽茫o; ao passo que os pag茫os j谩 n茫o podiam se valer de nada al茅m do esc谩rnio. A agress茫o 茅 um tra莽o comum aos homens e aos novos deuses.

Se algum monstro de amenidade, ignorante do t茅dio, quisesse tornar-se mesmo assim versado no assunto, ou pelo menos aprender o que ele vale, o m茅todo mais simples seria ler alguns autores eclesi谩sticos, a come莽ar por Tertuliano, o mais brilhante de todos, e terminando, digamos, com S茫o Greg贸rio de Nazianzo, rancoroso mas ins铆pido, cuja ora莽茫o contra Juliano o Ap贸stata nos d谩 ganas de convers茫o ao paganismo. Ao imperador n茫o se concede nenhuma virtude; com uma satisfa莽茫o que mal se disfar莽a, sua morte her贸ica na Guerra P茅rsica 茅 contestada, pois Greg贸rio alega que Juliano teria sido despachado por 鈥渦m b谩rbaro que, como buf茫o profissional, acompanhava os ex茅rcitos com o intuito de divertir os soldados, com suas piadas e gracejos, frente 脿s durezas da guerra鈥. Nenhuma eleg芒ncia, nenhuma preocupa莽茫o em se tornar digno de tal advers谩rio. O que 茅 imperdo谩vel, no caso do santo, 茅 que ele conhecera Juliano em Atenas, na 茅poca em que, jovens, ambos freq眉entaram as escolas filos贸ficas de l谩.

Nada 茅 mais odioso do que o tom daqueles que defendem uma causa 鈥 que se acha comprometida em apar锚ncia, mas que de fato 茅 a vencedora; daqueles que n茫o podem ocultar seu deleite ante a id茅ia do triunfo, nem podem deixar de converter seus verdadeiros terrores em amea莽as. Quando Tertuliano, sard么nico e tr锚mulo, descreve o 脷ltimo Julgamento, 鈥渙 maior de todos os espet谩culos鈥, como o chama, imagina seu pr贸prio riso ao contemplar tantos monarcas e deuses 鈥渆mitindo gemidos pavorosos nas profundezas do abismo...鈥 Essa insist锚ncia em lembrar aos pag茫os que eles estavam perdidos 鈥 eles e os seus 铆dolos 鈥 seria capaz de exasperar at茅 os mais moderados. Uma s茅rie de libelos camuflados em tratados, a apolog茅tica crist茫 representa o acme de um g锚nero bilioso.

O homem s贸 respira 脿 sombra de divindades erodidas. Quanto mais nos convencemos disso, mais nos lembramos, com terror, a n贸s mesmos que, se tiv茅ssemos vivido no momento da ascens茫o da Cristandade, poder铆amos ter sucumbido ao seu fasc铆nio. Os come莽os de uma religi茫o (tal como os come莽os de qualquer coisa) s茫o sempre suspeitos. S贸 eles, por茅m, possuem alguma realidade, s贸 eles s茫o verdadeiros; verdadeiros e abomin谩veis. N茫o assistimos 脿 funda莽茫o de um deus 鈥 qualquer que seja ou de onde quer que venha 鈥 impunemente. Nem 茅 recente tal desvantagem: Prometeu j谩 tinha chamado a aten莽茫o para ela, v铆tima ele pr贸prio de Zeus e da nova gangue do Olimpo.

Muito mais que a perspectiva da salva莽茫o, foi a raiva contra o mundo antigo que se abateu sobre os crist茫os num 煤nico impulso destrutivo. Desde que vinham, em sua maioria, de outras partes, seu acesso de f煤ria contra Roma 茅 compreens铆vel. Mas de que esp茅cie de frenesi participava um cidad茫o quando se convertia? Menos preparado que aqueles, restava-lhe apenas um recurso: odiar-se a si mesmo. Sem esse desvio do 贸dio, no come莽o at铆pico, mas depois contagioso, a Cristandade teria permanecido s贸 uma seita, limitada a uma clientela estrangeira, capaz apenas de trocar os antigos deuses por um cad谩ver cravejado. Que o homem que se pergunta como teria reagido 脿 mudan莽a de pol铆tica de Constantino se coloque no lugar de um partid谩rio da tradi莽茫o, um pag茫o orgulhoso de ser pag茫o: como compactuar com a Cruz, como tolerar que aquele s铆mbolo de uma morte desgra莽ada fosse gravado nos estandartes de Roma? No entanto tais homens se resignaram a isso, e 茅 dif铆cil para n贸s imaginar o c煤mulo de derrotas internas de onde brotaria essa resigna莽茫o. Se, no plano moral, podemos conceb锚-la como a consuma莽茫o de uma crise e assim lhe conceder o status ou a desculpa de uma convers茫o, tal resigna莽茫o aparece como uma trai莽茫o t茫o logo a consideramos do ponto de vista pol铆tico. Abandonar os deuses que fizeram Roma seria abandonar a pr贸pria Roma, para formar uma alian莽a com essa 鈥渘ova ra莽a de homens nascidos ontem, n茫o tendo pa铆s nem tradi莽茫o, coligados contra qualquer institui莽茫o religiosa e civil, perseguidos pela lei, universalmente execrados por causa de suas inf芒mias, e no entanto gloriando-se dessa execra莽茫o comum鈥. A diatribe de Celso data de 178. Cerca de dois s茅culos mais tarde, Juliano escreveria: 鈥淪e nos reinados de Tib茅rio ou Cl谩udio se encontrar uma 煤nica mente distinta que se tenha convertido 脿s id茅ias crist茫s, considerem-me o maior dos impostores.鈥

A 鈥渘ova ra莽a de homens鈥 seria capaz de tudo para vencer os escr煤pulos dos mais cultivados. Como acreditar nesses novos que estavam surgindo das profundezas mais baixas e cujos gestos, todos eles, convidavam ao desd茅m? Pois o caso era: de que maneira aceitar o Deus daqueles que desprezamos e Que era, al茅m disso, de manufatura recente? Somente a idade garantia a validade dos deuses 鈥 todos eram tolerados, contanto que n茫o tivessem sido moldados h谩 pouco. O que se considerava particularmente problem谩tico era a absoluta novidade do filho: um contempor芒neo, um rec茅m-chegado... Essa figura desestimulante, que nenhum s谩bio tinha previsto ou prefigurado, 茅 que 鈥渃hocava鈥 mais. Seu aparecimento foi um esc芒ndalo que levou quatro s茅culos para ser assimilado. O Pai, um velho conhecido, era admitido; por raz玫es t谩ticas, os crist茫os se voltaram para Ele e falaram em Seu nome: n茫o eram os livros que O celebraram e cujo esp铆rito os Evangelhos perpetuaram, de acordo com Tertuliano, muitos s茅culos mais velhos que os templos, os or谩culos, os deuses pag茫os? Os apologistas, uma vez postos a caminho, chegam ao ponto de alegar que Mois茅s antecede a queda de Tr贸ia em v谩rios milhares de anos. Tais divaga莽玫es destinavam-se a combater o efeito de opini玫es como esta, de Celso: 鈥淎final, os judeus, muitos s茅culos atr谩s, se organizaram numa na莽茫o, estabeleceram leis pr贸prias que conservam ainda hoje. A religi茫o que seguem, o que quer que valha e o que quer que se diga a seu respeito, 茅 a religi茫o de seus ancestrais. Permanecendo fi茅is a ela, n茫o fazem mais do que os outros homens, que preservam sempre os costumes de seu pa铆s.鈥

Sacrificar ao preconceito da antiguidade era, implicitamente, reconhecer os deuses aut贸ctones como os 煤nicos deuses leg铆timos. Os crist茫os estavam prontos, por motivos ego铆stas, a curvar-se tamb茅m a esse preconceito, mas n茫o podiam, sem se destru铆rem, ir al茅m e adot谩-lo totalmente, com todas as suas conseq眉锚ncias. Para um Or铆genes, os deuses 茅tnicos eram 铆dolos, rel铆quias do polite铆smo; S茫o Paulo j谩 os tinha reduzido 脿 categoria de dem么nios. O juda铆smo considerava-os todos falsos, a n茫o ser um, o seu pr贸prio. 鈥淪eu 煤nico erro鈥, diz Juliano, acerca dos judeus, 鈥溍 que mesmo quando procuram satisfazer seu deus, n茫o servem os outros ao mesmo tempo鈥. No entanto os elogia pela sua repugn芒ncia em seguir a moda no que diz respeito 脿 religi茫o. 鈥淒esprezo a inova莽茫o em todas as coisas e especialmente naquilo que concerne aos deuses鈥 鈥 uma afirma莽茫o que o desacreditou e que foi usada para tach谩-lo de 鈥渞eacion谩rio鈥. Mas que 鈥減rogresso鈥, pode-se perguntar, a Cristandade representa em rela莽茫o ao paganismo? N茫o existe um 鈥渟alto qualitativo鈥 de um deus para o outro, nem de uma civiliza莽茫o para a outra, e muito menos de uma linguagem para a outra. Quem ousaria proclamar a superioridade dos escritores crist茫os sobre os pag茫os? Mesmo os profetas, conquanto de uma inspira莽茫o e de um estilo diferente daquele dos Padres da Igreja 鈥 S茫o Jer么nimo o confessa 鈥 produziam avers茫o no leitor que tivesse retornado a C铆cero ou a Plauto. O 鈥減rogresso鈥, ao mesmo tempo, estava encarnado nesses Padres ileg铆veis: ent茫o, desviar-se deles era cair na 鈥渞ea莽茫o鈥? Juliano estava perfeitamente certo em preferir Homero, Tuc铆dides ou Plat茫o a todos eles. O 茅dito pelo qual proibiu os educadores crist茫os de explicarem os autores gregos tem sido duramente criticado n茫o apenas pelos seus advers谩rios, mas tamb茅m pelos seus admiradores, em todas as 茅pocas. Sem tentar justific谩-lo, n茫o se pode deixar de compreend锚-lo. Ele lidava com fan谩ticos; para obter seu respeito era preciso, ocasionalmente, exagerar tanto quanto eles mesmos, emitir algum nonsense em seu favor, ou ent茫o o teriam escarnecido como n茫o mais que um amador. Ele, assim, convida esses 鈥渋nstrutores鈥 a imitar os escritores que estavam expondo e a compartilhar as opini玫es deles sobre os deuses. 鈥淐ontudo, se eles acreditam que esses autores se enganaram quanto ao ponto mais importante, que v茫o 脿s igrejas dos galileus para oferecer coment谩rios sobre Mateus e Lucas!鈥

Aos olhos dos antigos, quanto mais deuses voc锚 reconhece, melhor voc锚 serve a divindade, da qual eles n茫o s茫o sen茫o os aspectos, as faces. Tentar limitar o seu n煤mero era uma impiedade; suprimi-los todos em favor de um 煤nico, um crime. 脡 desse crime que os crist茫os se tornaram culpados. A ironia contra eles j谩 n茫o era apropriada: o mal que estavam propagando tinha se espalhado demais. Toda a dureza de Juliano deriva da impossibilidade de trat谩-los levianamente.



(CIORAN, Emil Michel. in The New Gods. Trad.: Renato Suttana.


Editado pela 煤ltima vez por t. h. abrahao em 07/06/2007 - 04:38:23; num total de 1 vez
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