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O Velho

 
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MensagemEnviada: 11/09/2007 - 09:25:22    Assunto: O Velho Responder com cita莽茫o

O Velho

Cl贸vis Garcia




Vinha caminhando pela rua, com sua figura mi煤da e magra, com um passo lento e arrastado. Sua fisionomia, por茅m, era viva e inquisidora. Parecia curioso de tudo e seus olhinhos brilhavam em busca de algo interessante. Na verdade nada poderia haver de novo, e ele conhecia bem tudo o que iria surgir nas ruas. A sua curiosidade era mais um 铆mpeto interior, a procura de algu茅m ou alguma coisa. O que, n茫o saberia dizer. N茫o deveria esperar mais nada, sen茫o completar a sua exist锚ncia e morrer. Entretanto, continuava na sua busca.

Todos os dias sa铆a 脿 rua e, naquele seu passo demorado, que contrastava com a sua express茫o t茫o intensa, percorria as cal莽adas, sem se importar com a aten莽茫o que despertava sua figura modesta. Porque era raro encontrar um velho nas ruas da cidade. Quase todos que atingiam a aposentadoria e passavam a receber a modesta pens茫o a que tinham direito recolhiam-se aos Centros mantidos pelo Estado. Ali se encontravam melhor do que no meio dos mais jovens. Levavam uma vida tranq眉ila, confort谩vel mesmo, sendo suficiente para isso a pens茫o recebida. Conversavam, trocando suas impress玫es sobre os dias atuais e recordando o passado. Assim, reviviam sua vida anterior e o tempo passava mais rapidamente at茅 que a morte os atingisse.

Ele, por茅m, se recusava a isso. N茫o havia nenhuma lei obrigando o recolhimento aos velhos. Era apenas uma praxe estabelecida, que todos cumpriam sem pensar em qualquer outra atitude. Somente ele se rebelara, logo ele que n茫o tinha fam铆lia nem amigos. Sendo sozinho, com mais raz茫o dever-se-ia esperar que fosse residir num Centro, logo ap贸s a sua aposentadoria. Ao deixar, por茅m, o trabalho e, portanto, o alojamento onde sempre vivera, procurou um pequeno quarto para alugar. Fora dif铆cil, pois n茫o existiam mais loca莽玫es como norma, j谩 que todos viviam nos pr贸prios locais de trabalho. Num bairro pobre e 鈥渁ntigo鈥, encontrara o que queria. Era apenas um quartinho no por茫o de uma casa velha, j谩 condenada, que certamente desapareceria num dos futuros planos urban铆sticos, assim que novos locais de trabalho fossem necess谩rios. Ali habitavam desajustados como ele, toda aquela gente que o Estado tolerava porque tendia a desaparecer naturalmente, sem necessidade de qualquer medida violenta.

O velho vivia quase miseravelmente com a sua pens茫o. Fora o que escolhera, ao decidir viver fora da norma, diferente do que todos faziam. Assim como a sua figura, magra, curvada, de cabelos brancos e rosto enrugado, era diferente no movimento das ruas. Olhavam-no com espanto, com certa piedade pelo seu desajustamento, curiosidade pelo anacronismo que representava e a seguran莽a de que logo desapareceria. Dentro de pouco tempo n茫o haveria mais possibilidade de existir gente como ele.

Naquele dia o velho, depois de caminhar sem destino pelas ruas centrais, tomou uma pequena travessa, quase sem movimento. Nada o orientava, ele seguia ao acaso, sempre procurando, procurando o qu锚, nem ele mesmo sabia. Foi quando viu a loja cujo nome j谩 era uma atra莽茫o para ele: 鈥淎ntig眉idades鈥. Nada mais normal que, tamb茅m obsoleto, fosse atra铆do por uma loja de objetos de outra 茅poca. Encostou-se na vitrina e procurou ver o que havia dentro. Uma confus茫o de coisas, a maior parte das quais nem ele mesmo identificava. Resolveu entrar e olhar aquilo tudo de perto.

A sua entrada n茫o pareceu interessar ao propriet谩rio, atr谩s do balc茫o, que, com um simples olhar, o classificara como um fregu锚s improv谩vel. Assim ficou mais 脿 vontade para examinar o amontoado de coisas velhas, algumas que conhecia do seu tempo de mo莽o, outras que deveriam ser mais antigas, a maior parte das quais nem chegava a adivinhar o que era ou para que servia. Ent茫o, viu a m谩quina a um canto.

Era um aut么mato, sem d煤vida alguma. Mas n茫o um aut么mato desses que conhecemos hoje, antropom贸rficos, flex铆veis, com movimento pr贸prio, capaz de fazer qualquer trabalho. Era um modelo antiquado, sobre rodas, ocupando toda uma por莽茫o da parede lateral da loja. O velho se lembrava, quando ainda crian莽a, de ter visto m谩quinas desse tipo. Eram os modelos primitivos de aut么matos. Serviam, principalmente, para c谩lculos, para trabalhos que facilitassem estudos e pesquisas, substituindo eletronicamente o racioc铆nio humano. Pelo que se lembrava, eram dotados de voz mas n茫o tinham a iniciativa, dependendo de provoca莽茫o para dar as respostas necess谩rias. Sua forma lembrava muito vagamente um ser humano, com rodas substituindo os p茅s, a fim de ser empurrado de um para outro lugar onde fosse necess谩rio, uma grande caixa, cheia de bot玫es e chaves, como se fosse o corpo, um aparelho menor no que seria a cabe莽a, receptor e emissor. N茫o havia qualquer pe莽a que pudesse lembrar bra莽os. Somente j谩 no seu tempo de estudante 茅 que os aut么matos se tornavam semoventes, com pernas e p茅s, e passaram a ter bra莽os, at茅 evoluir para os modelos modernos que imitam t茫o perfeitamente o corpo humano. Aquele tipo primitivo, ali no canto da loja, parecia anacr么nico e abandonado.

鈥淐omo eu mesmo鈥, pensou o velho, e se aproximou da m谩quina. Antes, por茅m, que pudesse tocar no aut么mato, j谩 o dono da loja estava ao seu lado:

鈥 Deseja alguma coisa?, perguntou, conquanto quisesse significar que o melhor seria o velho ir embora pois certamente n茫o poderia desejar nada. Pelo seu aspecto n茫o poderia ser um fregu锚s, n茫o deveria possuir recursos para comprar o que fosse.

鈥 Essa m谩quina... gaguejou o velho, sem poder dizer mais nada.

鈥 Sim?, fez o dono.

N茫o estava disposto a perder mais tempo com aquele indiv铆duo que servia apenas para incomod谩-lo.

鈥 Essa m谩quina... gostaria de v锚-la funcionar, conseguiu dizer o velho.

鈥 Por qu锚? Pretende compr谩-la?

鈥 Ainda n茫o sei. 脡 muito cara?

鈥 Custa setenta valores, disse o dono, e isso parecia encerrar a quest茫o.

O velho engoliu em seco. Setenta valores era uma quantia imposs铆vel. Isto 茅, se ele pretendesse comprar o aut么mato, para o que n茫o havia raz茫o alguma. Fora movido apenas pela sua curiosidade permanente. Como que se desculpando, agradeceu e saiu.

Voltou diretamente para casa, para o seu quartinho solit谩rio e pobre. Nesse dia nada mais fez sen茫o ficar deitado no seu catre, pensando. A m谩quina n茫o lhe sa铆a da cabe莽a, como se fosse uma solu莽茫o ou como se lhe tivesse enviado um apelo. Apelo que teria de atender.

No dia seguinte voltou 脿 loja, mas n茫o teve coragem de entrar. Procurou ver atrav茅s da vitrina o aut么mato, no canto. L谩 estava ele, grande demais, pesado e in煤til. Parecia-lhe lan莽ar um chamado. Sim, ele tamb茅m estava solit谩rio, naquela loja, n茫o servindo para mais nada sen茫o para atrair olhares ir么nicos daqueles que conheciam os rob么s modernos, t茫o pr谩ticos e eficientes. O velho se sentiu preso.

Voltou nos outros dias at茅 que teve for莽a suficiente para entrar de novo. O propriet谩rio n茫o pareceu reconhec锚-lo. Levantando a cabe莽a, perguntou secamente:

鈥 Que deseja?

鈥 Aquele aut么mato, apontou o velho 鈥 poderia experiment谩-lo?

鈥 Custa setenta valores, disse o dono, considerando respondida a quest茫o.

鈥 Sim, eu sei. Mas poderia experiment谩-lo?

O dono certamente se aborrecera com a insist锚ncia. Mas qualquer coisa na figura pat茅tica do velho o fez abrandar:

鈥 Cuidado com ele, n茫o v谩 estrag谩-lo. Essas m谩quinas antigas s茫o f谩ceis de quebrar.

O velho sabia disso, porque tamb茅m ele era uma m谩quina antiga. Por isso mesmo estava habilitado a lidar com o aut么mato. Os dois se entenderiam. Dirigiu-se ao rob么.

A voz era fanhosa e revelava o tempo enorme em que ficara sem funcionar. T茫o fanhosa e gasta como a do velho. Os dois se compreenderam imediatamente.

Depois de uma pequena conversa莽茫o, em que o entendimento fora perfeito n茫o obstante algumas respostas estranhas, porque o aut么mato n茫o fora constru铆do para simples conversas amig谩veis, o velho resolveu suspender a experi锚ncia. N茫o convinha abusar da toler芒ncia do propriet谩rio da loja. Agradecendo, saiu no seu passo lento. Da porta ainda voltou a cabe莽a e foi como se o rob么 lhe tivesse dirigido um aceno de despedida. Sim, eles haviam se comunicado, como que uma compreens茫o m煤tua surgira entre eles.

Nessa noite o velho ficou pensando. Seus olhos agora adquiriam a calma adequada ao seu aspecto idoso e fatigado. Sabia que encontrara o que vinha procurando. Algu茅m com quem compartilhar a sua vida, a sua solid茫o. Mais que um companheiro, um amigo. Por isso n茫o quisera ir para o Centro. L谩 os outros velhos, com seus problemas pessoais, suas recorda莽玫es, seus ego铆smos, seriam apenas habitantes do mesmo lugar. Nunca encontraria, entre eles, o afeto de que necessitava, o amigo de que precisava para as longas horas do tempo curto que ainda lhe restava viver. Sabia, agora, que esse amigo fora encontrado. Velho como ele, deslocado e anacr么nico, uma liga莽茫o afetiva surgira desde o primeiro encontro. Fora atra铆do por aquele aut么mato, que n茫o tinha forma humana, mas que o compreendia como nunca fora compreendido pelos outros homens. E tomou a sua decis茫o.

No dia seguinte, ao entrar na loja, foi direto ao dono:

鈥 Tenho uma proposta. Quero comprar aquela m谩quina, preciso dela.

鈥 S茫o setenta valores.

O propriet谩rio parecia n茫o ter mais nada a dizer, como um aparelho de repeti莽茫o.

鈥 Est谩 certo. Mas n茫o posso pagar de uma vez. Proponho entregar-lhe mensalmente uma certa quantia, digamos cinco valores, at茅 cobrir o pre莽o total.

Aquilo n茫o era usual. N茫o se conhecia mais o sistema de venda a presta莽玫es, desaparecido na nova estrutura econ么mica do Estado. Mas o dono sabia lidar com antig眉idades. Por estranha que parecesse, era uma proposta de compra. E aquela m谩quina obsoleta tinha poucas possibilidades de ser vendida.

鈥 Est谩 certo, disse. Mas somente poder谩 levar o aut么mato quando tiver pago todo o pre莽o.

鈥 Bem, aceito essa condi莽茫o contanto que o senhor me permita vir v锚-lo diariamente, conversar com ele.

No dono surgiu o comerciante, agora que a transa莽茫o estava se efetivando:

鈥 O pre莽o n茫o inclui o transporte. Quando terminar o pagamento dever谩 providenciar por sua conta a retirada.

Aquilo importaria em novo sacrif铆cio. Apesar das rodas, n茫o tinha for莽as para empurrar aquela m谩quina pelas ruas, mesmo porque seria t茫o estranho que certamente teria dificuldades com a pol铆cia de tr芒nsito. Somente se conseguisse alugar um ve铆culo de carga. Em quanto n茫o ficaria isso? Mas era um problema a ser resolvido mais tarde.

鈥 Est谩 bem. No fim do m锚s farei o primeiro pagamento.

Come莽ou ent茫o um per铆odo de sacrif铆cio intenso para o velho. Cinco valores representavam a metade do seu ganho mensal e n茫o havia a possibilidade de obter extras. Com o aluguel do quarto, pouco sobrava para a alimenta莽茫o, j谩 que em outras despesas como roupas ou distra莽玫es nem poderia pensar. Seu aspecto se tornou mais miser谩vel, se 茅 que isso era poss铆vel. A precariedade de alimenta莽茫o o deixou mais magro e amarelo. As roupas se desfaziam, mas o brilho do seu olhar era agora mais intenso, sem aquela nota de curiosidade, como se seu impulso interior tivesse se apaziguado e n茫o houvesse mais necessidade da permanente procura.

Foram meses terr铆veis, mas o velho encontrava consolo nas horas que passava diariamente junto 脿 m谩quina. J谩 se familiarizara com todos os seus pormenores, com as pequenas demoras no funcionamento de alguns setores, com a rouquid茫o da voz. Tinham se tornado velhos amigos.

Quando, finalmente, depois de quatorze longos e penosos meses, o rob么 se tornou seu, o velho pareceu adquirir novo vigor. Agora j谩 podia levar o aut么mato para o seu quarto, t锚-lo inteiramente para si, sem a presen莽a inc么moda do dono da loja. Poderia conversar longamente, sem hor谩rio, sem que precisasse se arrastar pelas ruas at茅 aquela travessa. T茫o contente estava que se esqueceu do problema do transporte.

Ao entrar na loja para o 煤ltimo pagamento, parecia um novo homem. Com a atitude de quem se sentia rico e seguro, entregou ao dono os 煤ltimos cinco valores que encerravam a transa莽茫o.

鈥 Est谩 pago, disse com orgulho.

鈥 Sim, e agora quando pretende lev谩-lo? Preciso do espa莽o, por isso trate de retir谩-lo logo.

Todo o entusiasmo do velho desapareceu. O desgaste f铆sico daqueles meses marcou sua fisionomia e atitude, mostrando um homem que havia perdido sua for莽a vital. Como resolver o problema? Precisaria de pelo menos quinze valores para conseguir um transporte. E com o setor oficial n茫o poderia fazer neg贸cio a prazo. Teria de dispor da quantia total, o que significava mais uns meses de sacrif铆cio.

鈥 Poderia... poderia deix谩-lo mais algum tempo aqui? Preciso economizar para pagar o transporte.

O dono, diante daquela figura lastim谩vel, concedeu:

鈥 Est谩 bem, mas cobrarei a taxa de um valor por m锚s pela guarda do robot.

E novamente o velho teve de ag眉entar a fome e a mis茅ria para que finalmente chegasse o dia em que o aut么mato seria definitivamente seu, instalado no modesto quarto que era o seu lar.

Chegado, enfim, o momento, j谩 estava quase sem for莽as. Sentia-se, por茅m, compensado de tudo que sofrera. O aut么mato estava em sua casa, em seu quarto. Era o seu companheiro para os dias que ainda lhe restavam viver. Dias que o sacrif铆cio dos 煤ltimos tempos deveria ter encurtado irremediavelmente.

Desde ent茫o o velho n茫o mais foi visto vagando pelas ruas. Passava o tempo todo na companhia do rob么 e os dois pareciam agora um 煤nico ser, t茫o intimamente ligados se tornaram. Ambos estavam no fim de suas exist锚ncias, mas nada mais importava ao velho, que se sentia feliz. Sua busca incans谩vel terminara, o amigo sonhado fora finalmente encontrado.

E quando, pouco tempo depois, o Setor de Controle de Nascimentos e Mortes foi notificado, os funcion谩rios acharam o velho sentado numa cadeira em frente ao aut么mato. Sua fisionomia era pl谩cida, com a sombra de um sorriso, como quem morreu num momento de felicidade.

Os funcion谩rios se espantaram de encontrar um aut么mato de modelo t茫o antiquado. Tentaram faz锚-lo trabalhar. Mas era muito antigo e seu maquinismo chegara tamb茅m ao fim. Nunca mais aquele rob么 voltaria a funcionar. Agora, serviria somente como sucata.





Publicado originalmente em

Al茅m do tempo e do espa莽o: antologia de ciencific莽茫o.

S茫o Paulo: Edart, 1965.

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