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O Autômato - Emil Michel Cioran

 
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t. h. abrahao

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MensagemEnviada: 12/12/2007 - 00:19:48    Assunto: O Autômato - Emil Michel Cioran Responder com citação

O Autômato
por Emil Michel Cioran



Respiro por preconceito. E contemplo o espasmo das idéias, enquanto que o Vazio sorri a si mesmo... Não há mais suor no espaço, não há mais vida; a menor vulgaridade a fará reaparecer: basta um segundo de espera.

Quando se percebe existir, experimenta-se a sensação de um demente maravilhado que surpreende sua própria loucura e busca inutilmente dar-lhe um nome. O hábito embota nosso assombro de existir: somos, e vamos além, ocupamos nosso lugar no asilo dos existentes.

Conformista, vivo, tento viver, por imitação, por respeito às regras do jogo, por horror à originalidade. Resignação de autômato: simula fervor e ri disso secretamente; só submeter-se às convenções para repudiá-las às escondidas; figurar em todos os registros, mas sem residência no tempo; salvar a cara, quando seria imperioso perdê-la... Aquele que despreza tudo deve assumir um ar de dignidade perfeita, induzir ao erro os outros e até ele mesmo: cumprirá assim mais facilmente sua tarefa de falso vivente. Para que mostrar nossa ruína se podemos fingir a prosperidade? O inferno não tem boas maneiras: é a imagem exasperada de um homem franco e grosseiro, é a terra concebida sem nenhuma superstição de elegância e de civilidade.

Aceito a vida por cortesia: a revolta perpétua é de tão mau gosto como o sublime do suicídio. Aos vinte anos se rompe em impropérios contra os céus e a imundície que cobrem; depois se cansa. A pose trágica só corresponde à puberdade prolongada e ridícula; mas são necessárias mil provas para alcançar o histrionismo do desapego. Quem, emancipado de todos os princípios de costume, não dispusesse de nenhum dom de comediante, seria o arquétipo do infortúnio, o ser idealmente desgraçado. É inútil construir tal modelo de franqueza: a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se põe nela. Tal modelo seria a ruína da sociedade, pois a "doçura" de viver em comum reside na impossibilidade de dar livre curso ao infinito de nossos pensamentos ocultos. É porque somos todos impostores que nos suportamos uns aos outros. Quem não aceitasse mentir veria a terra fugir sob seus pés: estamos biologicamente obrigados ao falso. Não há herói moral que não seja ou pueril, ou ineficaz, ou inautêntico; pois a verdadeira autenticidade é o aviltamento na fraude, no decoro da adulação pública e da difamação secreta. Se nossos semelhantes pudessem constatar nossas opiniões sobre eles, o amor, a amizade, o devotamento seriam riscados para sempre dos dicionários; e se tivéssemos a coragem de olhar cara a cara as dúvidas que concebemos timidamente sobre nós mesmos, nenhum de nós proferiria um "eu" sem envergonhar-se. A dissimulação arrasta tudo o que vive, desde o troglodita até o cético. Como só o respeito das aparências nos separa dos cadáveres, precisar o fundo das coisas e dos seres é perecer; conformemo-nos a um nada mais agradável: nossa constituição só tolera uma certa dose de verdade...

Guardemos no fundo mais profundo de nós mesmos uma certeza superior a todas as outras: a vida não tem sentido, não pode tê-lo. Deveríamos nos matar imediatamente se uma revelação imprevista nos persuadisse do contrário. Se o ar desaparecesse, respiraríamos ainda; mas sufocaríamos no mesmo instante se nos fosse roubada a alegria da inanidade...



(fonte: CIORAN, Emil Michel. in Breviário de Decomposição)
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Eustaquio Maia




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MensagemEnviada: 14/12/2007 - 12:18:21    Assunto: ponderações Responder com citação


Citação:

Conformista, vivo, tento viver, por imitação, por respeito às regras do jogo, por horror à originalidade. Resignação de autômato: simula fervor e ri disso secretamente; só submeter-se às convenções para repudiá-las às escondidas; figurar em todos os registros, mas sem residência no tempo; salvar a cara, quando seria imperioso perdê-la...


Esta passagem me faz lembrar vividamente Oscar Wilde em o Retrato de Dorian Gray: “As mulheres representam a vitória da matéria sobre o espírito enquanto que os homens representam a vitória da inteligência sobre a moral.”

As mulheres são mais conformistas e resignadas que os homens: dissimulam tão naturalmente que sempre as imaginamos autênticas. Quanto a estes, fingem submeter-se a regras do tipo “homem não faz isto!” mas, nos bastidores, só Deus o sabe...

E assim caminha a humanidade: sempre em círculos e contando sempre a mesma história. Um dia desses ouvi que a história nunca se repete a não ser como farsa. Parece que é isso mesmo!


Citação:

A dissimulação arrasta tudo o que vive, desde o troglodita até o cético. Como só o respeito das aparências nos separa dos cadáveres, precisar o fundo das coisas e dos seres é perecer; conformemo-nos a um nada mais agradável: nossa constituição só tolera uma certa dose de verdade...



Estive a matutar por algum tempo sobre a questão da dissimulação. Por exemplo: um fato que sempre me intrigou era entender por que na época de Shakespeare a participação no teatro era vedada às mulheres, pois até mesmo os papéis femininos eram desempenhados pelos homens. A questão se tornou clara como o meio-dia quando li o livro Dores do Mundo, de Schopenhauer. No capítulo sobre o “esboço acerca das mulheres” ele escreve: “A dissimulação é inata na mulher; tanto na mais esperta, quanto na mais tola.” Daí cheguei à conclusão de que no tempo de Shakespeare deviam levar muito a sério a arte de representar e de dissimular para interditá-la às mulheres. Nesse sentido, o homens foram considerados menos agraciados pela natureza. Por isso deveria ser concedida a eles a oportunidade de desenvolver a qualidade que, nas mulheres, era inata.

Sempre foi claro para mim que, no mundo, o importante não é ser e sim, parecer que se é. Estamos todos, sempre como camaleões, travestidos naquilo que gostaríamos que os outros pensassem que somos. Já foi dito que o homem é três coisas: o que pensam que ele é; o que ele mesmo pensa sobre si e o que ele realmente é. Por isso, sou da opinião que o retrato mais fiel da sociedade é o travesti, pois seu comportamento nos agride na medida em que denuncia em nós o eterno e incurável propósito de estar sempre a dissimular, a enganar o próximo tanto quanto a nós mesmos.

Segundo muitas tradições e lendas, quando os deuses criaram o homem, eles viram a morte; então decidiram guardar a eternidade para si. E toda lenda tem sempre um fundo de verdade.
Do ponto de vista gnóstico o homem essencialmente nada é; nada tem e nada sabe que tenha qualquer utilidade ou importância para Deus, para o Absoluto. Assim, tudo que lhe resta a fazer é contentar-se com o que é.

_________________
"In a time of universal deceit, telling the truth is a revolutionary act." George Orwell

Eustáquio Maia


Editado pela última vez por Eustaquio Maia em 14/12/2007 - 14:02:57; num total de 2 vezes
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