O Livro do Desassossego
por Bernardo Soares (het., Fernando Pessoa)
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Reconhe莽o hoje que falhei; s贸 pasmo, 脿s vezes, de n茫o ter previsto que falharia. Que havia em mim que prognosticasse um triunfo? Eu n茫o tinha a for莽a cega dos vencedores ou a vis茫o certa dos loucos... Era l煤cido e triste como um dia frio.
As coisas n铆tidas confortam, e as coisas ao sol confortam. Ver passar a vida sob um dia azul compensa-mede muito. Esque莽o indefinidamente, esque莽o mais do que podia lembrar. O meu cora莽茫o transl煤cido e a茅reo penetra-se da sufici锚ncia das coisas, e olhar basta-me carinhosamente. Nunca eu fui outra coisa que uma vis茫o incorp贸rea, despida de toda a alma salvo um vago ar que passou e que via.
Tenho elementos espirituais de bo茅mio, desses que deixam a vida ir como uma coisa que se escapa das m茫os e a tal hora em que o gesto de a obter dorme na mera ideia de faz锚-lo. Mas n茫o tive a compensa莽茫o exterior do esp铆rito bo茅mio 鈥 o descuidado f谩cil das emo莽玫es imediatas e abandonadas. Nunca fui mais que um bo茅mio isolado, o que 茅 um absurdo; ou um bo茅mio m铆stico, o que e uma coisa imposs铆vel.
Certas horas-intervalos que tenho vivido, horas perante a Natureza, esculpidas na ternura do isolamento, ficar-me-茫o para sempre como medalhas. Nesses momentos esqueci todos os meus prop贸sitos de vida, todas as minhas direc莽玫es desejadas. Gozei n茫o ser nada com uma plenitude de bonan莽a espiritual, caindo no rega莽o azul das minhas aspira莽玫es. N茫o gozei nunca, talvez, uma hora indel茅vel, isenta de um fundo espiritual de fal锚ncia e de des芒nimo. Em todas as minhas horas libertas uma dor dormia, floria vagamente, por detr谩s dos muros da minha consci锚ncia, em outros quintais; mas o aroma e a pr贸pria cor dessas flores tristes atravessavam intuitivamente os muros, e o lado de l谩 deles, onde floriam as rosas, nunca deixava de ser, no mist茅rio confuso do meu ser, um lado de c谩 esbatido na minha sonol锚ncia de viver.
Foi num mar interior que o rio da minha vida findou. 脌 roda do meu solar sonhado todas as 谩rvores estavam no outono. Esta paisagem circular 茅 a coroa-de-espinhos da minha alma. Os momentos mais felizes da minha vida foram sonhos, e sonhos de tristeza, e eu via-me nos lagos deles como um Narciso cego, que gozasse a frescura pr贸ximo da 谩gua, sentindo-se debru莽ado nela, por uma vis茫o anterior e nocturna, segredada 脿s emo莽玫es abstractas, vivida nos recantos da imagina莽茫o com um cuidado materno em preferir-se.
Os teus colares de p茅rolas fingidas amaram comigo as minhas horas melhores. Eram cravos as flores preferidas, talvez porque n茫o significavam requintes. Os teus l谩bios festejavam sobriamente a ironia do seu pr贸prio sorriso. Compreendias bem o teu destino? Era por o conheceres sem que o compreendesses que o mist茅rio escrito na tristeza dos teus olhos sombreara tanto os teus l谩bios desistidos. A nossa P谩tria estava demasiado longe para rosas. Nas cascatas dos nossos jardins a 谩gua era pel煤cida de sil锚ncios. Nas pequenas cavidades rugosas das pedras, por onde a 谩gua escolhia, havia segredos que tiv茅ramos quando crian莽as, sonhos do tamanho parado dos nossos soldados de chumbo, que podiam ser postos nas pedras da cascata, na execu莽茫o est谩tica duma grande ac莽茫o militar, sem que faltasse nada aos nossos sonhos, nem nada tardasse 脿s nossas suposi莽玫es.
Sei que falhei. Gozo a vol煤pia indeterminada da fal锚ncia como quem d谩 um apre莽o exausto a uma febre que o enclausura.
Tive um certo talento para a amizade, mas nunca tive amigos, quer porque eles me faltassem, quer porque a amizade que eu concebera fora um erro dos meus sonhos. Vivi sempre isolado, e cada vez mais isolado, quanto mais dei por mim.
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O homem n茫o deve poder ver a sua pr贸pria cara. Isso 茅 o que h谩 de mais terr铆vel. A Natureza deu-lhe o dom de n茫o a poder ver, assim como de n茫o poder fitar os seus pr贸prios olhos.
S贸 na 谩gua dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simb贸lica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignom铆nia de se ver.
O criador do espelho envenenou a alma humana.
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Ouvia-me lendo os meus versos 鈥 que nesse dia li bem, porque me distra铆 鈥 e disse-me, com a simplicidade de uma lei natural: 芦Voc锚, assim, e com outra cara, seria um grande fascinador.禄 A palavra 芦cara禄, mais que a refer锚ncia que continha, ergueu-me de mim pela gola,do que me n茫o conhe莽o. Vi o espelho do meu quarto, o meu pobre rosto de mendigo sem pobreza; e de repente o espelho virou-se e o espectro da Rua dos Douradores abriu-se diante de mim como um nirvana do carteiro.
A acuidade das minhas sensa莽玫es chega a ser uma doen莽a que me 茅 alheia. Sofre-a outro de quem eu sou a parte doente, porque verdadeiramente sinto como em depend锚ncia de uma maior capacidade de sentir. Sou como um tecido especial, ou at茅 uma c茅lula, sobre a qual pesasse toda a responsabilidade de um organismo.
Se penso, 茅 porque divago; se sonho, 茅 porque estou desperto. Tudo em mim se embrulha comigo, e n茫o tem forma de saber de ser.
Bernardo Soares 茅 outro heter么nimo de Fernando Pessoa. Quem acha que existe s贸 a tr铆ade Caeiro-Campos-Reis - al茅m dos poemas do pr贸prio Pessoa -, est谩 enganado. H谩 mais de 15 heter么nimos criados por este que vou chamar de cabe莽udo... cada personagem com sua vida, suas convic莽玫es e ideologias etc. etc.
脡... e a gente nessas horas faz o que? S贸 isso mesmo: =D>
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