t. h. abrahao
Fundador PN

Idade: 41 Registrado: 22/01/05 Mensagens: 574 Localiza莽茫o: s茫o jos茅 do rio preto - sp
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Barrow-on-Furness
por Fernando Pessoa (脕lvaro de Campos)
I
Sou vil, sou reles, como toda a gente
N茫o tenho ideais, mas n茫o os tem ningu茅m.
Quem diz que os tem 茅 como eu, mas mente.
Quem diz que busca 茅 porque n茫o os tem.
脡 com a imagina莽茫o que eu amo o bem.
Meu baixo ser por茅m n茫o mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
脡brio, por intervalos, de um Al茅m.
Como todos n茫o creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto n茫o morro, falo c leio.
Justificar-me? Sou quem todos s茫o...
Modificar-me? Para meu igual?...
鈥 Acaba l谩 com isso, 贸 cora莽茫o!
II
Deuses, for莽as, almas de ci锚ncia ou f茅,
Eh! Tanta explica莽茫o que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E n茫o compreendo mais do que de p茅.
Por que o havia de compreender?
Pois sim, mas tamb茅m por que o n茫o havia?
脕guia do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...
脫 universo, novelo emaranhado,
Que paci锚ncia de dedos de quem pensa
Em outras cousa te p玫e separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, 脿 indif'ren莽a?
Por mim, s贸 me levanto da barrica.
III
Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferen莽a subjetiva!
Qual "leva ao mar"! Tua presen莽a esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que n茫o se ativa,
Morre a p么r etiquetas ao grande ar...
Escancarado Furness, mais tr锚s dias
Te, aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibil铆ssimas vistorias...
Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu ir谩s do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...
IV
Conclus茫o a sucata! ... Fiz o c谩lculo,
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu cora莽茫o 茅 um enorme estrado
Onde se exp玫e um pequeno anim谩lculo
A microsc贸pio de desilus玫es
Findei, prolixo nas min煤cias f煤teis...
Minhas conclus玫es Dr谩ticas, in煤teis...
Minhas conclus玫es te贸ricas, confus玫es...
Que teorias h谩 para quem sente
o c茅rebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?
Fecho o caderno dos apontamentos
E fa莽o riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou ...
V
H谩 quanto tempo, Portugal, h谩 quanto
Vivemos separados! Ah, mas a alma,
Esta alma incerta, nunca forte ou calma,
N茫o se distrai de ti, nem bem nem tanto.
Sonho, hist茅rico oculto, um v茫o recanto...
O rio Furness, que 茅 o que aqui banha,
S贸 ironicamente me acompanha,
Que estou parado e ele correndo tanto ...
Tanto? Sim, tanto relativamente...
Arre, acabemos com as distin莽玫es,
As subtilezas, o interst铆cio, o entre,
A metaf铆sica das sensa莽玫es 鈥
Acabemos com isto e tudo mais ...
Ah, que 芒nsia humana de ser rio ou cais! |
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