Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram



Sem título - Vladímir Maiakóvski

 
Novo tópico   Responder tópico    Paraíso Niilista - Índice -> Fórum Poemas e Poesia
Exibir tópico anterior :: Exibir próximo tópico  
Autor Mensagem
t. h. abrahao

Fundador PN


Idade: 42
Registrado: 22/01/05
Mensagens: 574
Localização: são josé do rio preto - sp

MensagemEnviada: 14/06/2008 - 07:13:05    Assunto: Sem título - Vladímir Maiakóvski Responder com citação

Sem título
por Vladímir Maiakóvski



Cruz,
braços em cruz,
esgares de espantalhos,
mantendo o prumo,
a pique no alto cume.
A noite engrossa,
não vejo mais de um palmo.
Lua.
E embaixo de mim,
o gelo de Mashuk.
Agora nem sequer mantenho a linha
de equilíbrio, —
boneco de cartão que agita os braços.
Logo vão me ver.
Estou à mostra aqui em cima.
Olhem:
Espias-Pínkerton fervilham no Cáucaso.
Já me viram.
Já fizeram circular o sinal.
Entes queridos,
amigos,
uma esteira de gente,
senhas por todo o globo,
consenso universal.
Para o ajuste de contas,
os duelistas vêm na frente.
Se ouriçam,
se eriçam,
acorrem, mais e mais...
Cospem nas mãos.
Espalmam as mãos sucosas.
Com as mãos,
com o vento,
sem pena,
zás-trás,
meu rosto, esbofeteado, vira esponja porosa.
Galerias, —
primícias de butiques de luvas,
Damas,
sacaríneo-cheirosas, perfumadas,
desenluvam-se,
alvejam-me,
uma chusma
de butiques de luvas no meu rosto, —
bofetadas.
Jornais,
revistas,
nada de olhar sem rumo!
Em socorro dos objetos que me voam às fuças
lufa,
de cada página,
uma fúria de insultos.
Falatório na orelha!
Unhá-lo com calúnias!
Eu, um aleijado, com mazelas de amor.
Preparem uma tina para a própria lixívia.
Que mal faço a vocês?
Por que tanto rancor?
Sou coração apenas,
sou apenas poesia.
Mas de baixo:
— Não!
Você é o inimigo secular.
Já pegamos um dos seus, —
aquele hussardo.
Venha cheirar a pólvora, o chumbo,
está no ar.
Camisa aberta!
Não é hora de festejar um covarde.
Mais açoite que a chuva,
mais vigor que o trovão,
sobrancelha
ajustada
a sobrancelha,
baterias, fuzis,
um batalhão,
de cada Mauser, de cada Browning,
certeiras,
de cem,
de dez passos,
de dois, —
cara a cara —
carga após carga.
Param, reanimam-se, depois
novo enxurro de chumbo —
descarga.
Liquidado!
Coração chumbado!
Não há mais que temer o temor!
No fim do final, —
ei-lo finado.
E finou-se o temor e o tremor.

A matança acabou.
A alegria borbulha.
Degustando detalhes,
passos miúdos dispersam-se.
Somente no Kremlin
os farrapos do poeta
brilham com o vento,
uma bandeira rubra.
E o céu
como antes
lírico-estrelante.
Os astros
a olhar,
siderados de assombro,
e a Ursa Maior,
hipertrovadorante!
Para quê?
Insinuar-se, num assomo,
rainha dos poetas?
Desde eras-Ararat arrastas,
ó Enorme,
essa Arca-ou-Colher
no dilúvio dos céus!
A bordo,
estrelonauta,
um irmão ursiforme:
eu grito meus versos ao cósmico escarcéu!
Rápido!
Rápido!
Rápido!
Transespaço!
Além!
Olho firme!
O sol irradia os picos.
Do cais, os dias sorriem.


MAIAKÓVSKI, Vladímir. “Sem título”. In: Sobre isto. Trad. de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.
Voltar ao topo
Exibir o perfil do usuário Enviar mensagem privada Enviar e-mail Visitar o website do usuário MSN Messenger
Mostrar os tópicos anteriores:   
Novo tópico   Responder tópico    Paraíso Niilista - Índice -> Fórum Poemas e Poesia Todos os horários são GMT - 3 Horas
Página 1 de 1

 
Ir para:  
Você não pode enviar mensagens novas neste fórum
Você não pode responder mensagens neste fórum
Você não pode editar suas mensagens neste fórum
Você não pode excluir suas mensagens neste fórum
Você não pode votar em enquetes neste fórum





    RSS Paraíso Niilista
  Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram
Copyright © Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram
:: Caso encontre erros, aprenda com eles ::
[On-line há ]
[última atualização: 23/01/2026]
  [Powered by]
intelligence...