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Trechos do Livro do Desassossego

 
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Lenore

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MensagemEnviada: 03/08/2005 - 14:24:08    Assunto: Trechos do Livro do Desassossego Responder com citação

Invejo – mas não sei se invejo – aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou quem podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem fatos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.

...



A glória noturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido... E sinto, de repente, o sublime do monge no ermo, do eremita no retiro, inteirado da substância do Cristo nas pedras e nas cavernas do afastamento.

...



E na mesa do meu quarto sou menos reles, empregado e anônimo, escrevo palavras como a salvação da alma [...] anel de renúcia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém extático.

...



Levo comigo, só de ouvir estas sombras de discurso humano que é afinal o tudo em que se ocupam a maioria das vidas conscientes, um tédio de nojo, numa angústia de exílio entre gente real; a condenação de ser vizinho igual, perante o senhorio e o sítio, dos outros inquilinos do aglomerado, espreitando com nojo, por entre as grades traseiras do armazém da loja, o lixo alheio que se entulha à chuva no saguão que é a minha vida

...



Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais – se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.

...



Conservo dessa passagem pelo túmulo da vontade a memória de um tédio nauseado e de algumas anedotas com espírito.

Vão a enterrar, e parece que já no caminho do cemitério se esqueceu no café o passado, pois vai calado agora.

... e a posteridade nunca saberá deles, escondidos dela para sempre sob a mole negra dos pendões ganhados nas suas vitórias de dizer.

_________________
Flávia Dellamura
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O ódio é meu único vício
O desprezo é minha única virtude
O nada, meu único ideal
A.D.C
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