Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram


 
Seção Poemas
 

esperança

A vida se manifesta do fato
Não importa o seu agrado
Nasce-se como ator convocado
Dentre tantos outros átomos
Os meus vivos nesse acaso

Mal tive tempo de pensar
Acordei tiranizado
Esmagado numa fôrma
Domesticado com culpa
Insuflado com vácuo
Preso a tudo que é preciso
Para se viver a farsa
Da medíocre sanidade
Repetindo o abecedário
           [mil vezes
Feliz em ser escravo
Numeral e ordinário

Ostentando orgulho em sofrer
Um dia, um ano, uma vida
             [malograda
Anêmica e calada
À espera de aplausos
Por ser humilhada
Por ser resignada
Por ser virtuosa
Em sua perseverança
Inofensiva de obedecer
Em se roer até os ossos
Como prega o ensinamento
Bem-aventurado quem teme
E reza para ser ignorado
Pois inda existem animais
De ambição e violência
Que não foram amestrados
Pela virtude dos fracos

Quando dei por mim era tarde
Os passos lentos arrastavam
O grilhão do condenado:
Mãos à obra, criatura!
Daqui não se escapa
O mundo está cercado

A liberdade sem escolha
Perdeu a paciência
Vendeu todas virtudes
Comprou o mais belo vício
Se alistou na guerra perdida
Jurando morte à própria vida

II

Poderia amar o que tenho
Mas só amo o que falta
Poderia aprender a viver
Se felicidade fosse ler
           [as cicatrizes
Que tenho prazer em escrever
Reabrir, ver sangrar e descrever

Mas ser feliz é uma mentira
Então feliz quem se mente
              [essa tristeza
De sofrer sorrindo, sorrir sofrendo
Sem no fim emudecer pálido
E pensar antes de morrer
          [antes morrer
Antes nem ter nascido

Por que a esperança não morre?
Eu sei, sempre quis saber
Por que me fazem esquecer?
Gritando razões com afasia
Pregando amnésia por covardia
Se não tenho a regalia
De quem finge e não pensa
Com a burrice por descendência

Se sonho acordado
O sol me ofusca e guia
E num tropeço a dor me acorda
Num quarto vazio sem porta
Onde a solidão é minha amiga
E respiro o taedium vitae
Que prefere viver apartado
Da estupidez de todo sonhar
E joga todas fichas ao nada
Mudo como quem adivinha
O segredo mais bem guardado
E então ri desta piada

Na luz negra do pensamento
Hei de atravessar a vida
Ébrio em minha lucidez
Para nunca querer esquecer
Que a beleza poderia se rasgar
A saúde poderia definhar
O vigor poderia murchar
Se meu sonho é igual nada
O desprezo é minha virtude
E ela prefere descansar

III

Querer sem sofrer
        [ao contrário
Está prestes a acontecer
                 [o fim
Que tarda e nunca chega
             [a insânia
Rastejando em círculos
Nos espinhos da vontade
Que sustentam a vida
Embebida em sangue
Sofrendo a sangue frio
Aspirando o pó do tédio
No mesmo ar, todo ar
            [todo dia
Viver é a longa penúria
De uma dor sem cura

Carrego a morte surda e latente
Que acalenta a minha vivência
Da violência do querer viver
Embutida neste peito estúpido
Mentindo a cada bater
         [inútil desta vida
Doente terminal, ainda perdura
Do presente para o amanhã
          [para o futuro
Cheiro de mofo podre
Do meu sepulcro

IV

Tudo isso contido no nada
                  [de tudo
Que se desfaz pelo caminho
             [da finitude
Num trajeto já conhecido
         [e sem sentido
Numa ânsia de adormecer
          [com insônia
Frente a um espelho sem entender
                [por que sofria
Se o sonho já foi executado
            [sem anestesia

Na esperança em nada disso
        [jamais retornaria
Nem por saudade da contradição
        [se sonhar não me tira
Do pesadelo que começou por acaso
                  [quando nascia
Do nada ao qual sonho retornar
                     [todo dia

André Díspore Cancian
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[última atualização: 15/11/2015]
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