Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram


 
Seção Poemas
 

irrazão

A curiosidade humana
– esta insônia da matéria –
Não se cansa de desvendar
As causas que fizeram da vida
Este amontoado de pilhérias
Esta zombaria do acaso
Entendendo, por acaso,
Que o que poderia ser foi
E não restam dúvidas
De que aprendeu esta coisa
E induziu a fórmula
E deduziu a contingência
E reproduziu o eterno mesmo
E continuou a querer mais
Sonhando com a absoluta
Com a realidade verdadeira
Com a lógica matemática
E toda coisa que mente

Quando deu com um espelho
A razão pôs-se em cheque
Duvidou de si mesma
E não houve quem respondesse
Por que a razão humana
É obtusa além da medida
Tão frágil que, questionada,
Está ao lado do abismo
Indefesa, de mãos atadas
Onde só a brisa do duvidar
Será o seu suicídio
Despencando no niilismo
Noutro mundo estranho
Onde dois e dois
Nem sempre são cinco

A vida no vácuo
Pode ser tão diferente
Pode ser tão indiferente
Aqui é onde toda ausência
Se faz tão mais presente
Que representa a vivência

Esforço não significa valor
Esforço é só um tipo de dor
Com a qual se muda o mundo
Em busca de um sentido
Contemplado, no fim trajeto,
Um segmento de penúrias
O sentido do objetivo
(e todo sentido é sempre um meio
e todo fim é sempre um meio
para o nosso alívio)
Se olvidar do nada
Erigindo um castelo de mágoas
De uma vida vazia que,
Por acaso, começou a sofrer
Numa luta quixotesca
Contra si mesma

II

Já me foi caro o peito
Que o trem despedaçou
Quando, tolo, lutei:
Agora, aos meus pés,
Vejo correntes de vitória
              [desmentida
Por cada pensamento
Saudoso dos sonhos
Quando inda eram só sonhos
E não cacos dum agora
Que só posso chamar
         [desilusão
De que sempre serão
A miragem de um ideal
Escondido dos fatos
Num canto esquecido
Onde a vida não chega
Que a realidade não pode

Perderei todas as chances
Como perdi a crença
A expressão, a esperança
De esperar a hora certa
Para juntar os cacos
Meus retalhos de fardos
Que nunca aprendem
E não desistem em falhar

Mas que tolo esperaria como devoto
Que a alegria lhe batesse à porta?
Quem merece reaprender
Que a felicidade é viver
O sorriso falso de quem
Perde na sua vitória
Porque bebeu do irreal
E definha com o veneno
De essa glória mesquinha
Ser, de fato, o real

Muito antes uma dose letal
Cápsulas, comprimidos
Ou um fim que ninguém desconfia
Pois se engana quem acredita
Na luz no fim do esgoto
Que imerge nossa vida

III

Meus sonhos inda correm
No limiar do horizonte
Me sorrindo de longe
Como a mais bela miragem

Mas conheço muito bem
A fatalidade deste fito:
A plenitude do fracasso
O sofrimento auto-infligido
E o cálice amargo da vitória
Para quem se despedaça
E continua sorrindo

Pura ilusão é todo sonho
E bem o sei quão vão
É o ardor deste anelo
Que anseia a perfeição
De tocar o impossível

A sobriedade me invade
E, contemplando o nada
De todos os sonhos,
Eu nego o lodo
De toda realidade
Eu nego os sangue
De todos os fatos
Eu nego a ilusão
De todos os sonhos
E vivo o que penso
E vivo porque sonho
Aquilo que não posso
Vivo esta mentira
Esta irrazão: minha anestesia
A paciência de quem não suporta
Beber mais do veneno da vida

André Díspore Cancian
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[última atualização: 15/11/2015]
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