Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram


 
Seção Poemas
 

Neste preciso tempo, neste preciso lugar

No princípio era o Verbo
(e os açucares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3º andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!

Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviezado
olhar da ironia?

Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença

Manuel António Pina
[sine data]
 
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[última atualização: 15/11/2015]
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