Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram


 
Seção Poemas
 

sentença

Cessou minha anestesia
Então abro os olhos
Profundamente lúcido
Arrependido de ter acordado
Porque ainda tenho memória
E a sensação cinza de ter perdido
Todo dia aquilo que mais amava

No despertar de minha consciência
Visto minha capa de chumbo
Minha coroa de espinhos
Minha razão glacial
Meus grilhões mentais
Minhas máscaras sociais

Difícil pensar agora numa meta
Cujo valor fosse digno de um piscar
E somente um tolo sonharia
Em escapar desta tirania
Enquanto o acaso nos guia
Às cegas, sem valor nem motivo
Por este percurso sem objetivo

Talvez um malogro ainda animado
Mais um daqueles que morreu em segredo
Sou aquele que caminha cansado
Vendo seus sonhos frustrados
Seus esforços baldados
Seus castelos arruinados
E observa tudo com olhos magoados
Ouvindo o riso de escárnio do acaso

Talvez uma besta de carga arriada
Mais um aborto, outro vivo natimorto
Sou esta indumentária de carne e aço
Cujo viver acontece por engano
Cujo âmago inspira somente asco
Cujo sangue corre podre nas veias
Cujo coração é o próprio carrasco
Com sua máscara pregada à face
Como a própria carne viva

Meus olhos embotatos
Sem amores pela ilusão
– ou sua irmã, a verdade –
Já não querem mais nada

Mas fitam o vazio, inquietos
Com uma indiferença morrente
E em segredo anseiam sua remissão:
Fechar os olhos da vida, nesta escuridão

Abandonar para sempre
A aflição que devasta
O desgosto que queima
O desalento que adoece
Toda dor e seu valor

Do começo ao fim
Do berço à sepultura
Neste mar de amargura
Asfixiando-se a compasso
Com a agonia de cada respiro

Já nascemos condenados:
A sentença é esta vida
Sangrando como ferida
Que não merece ser vivida

André Díspore Cancian
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[última atualização: 15/11/2015]
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