Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram


 
Seção Poemas
 

Silberblick

Passo a passo vamos caminhando.
Rastro se deixa e nada muda, nada quer mudar;
não tenho muito o que falar de importante,
pois o destino, bem, o destino é tão distante
que nem mais quero esperar o trem para a estação
                                     [dos sonhos.

Na percepção dos dias claros, vejo a tez dos
                                [homens ocos,
tudo a se espelhar na luta do homem contra
                               [a natureza,
o fazer-se realeza, o tornar-se mártir...
esse superar-a-animalidade a fazê-la vida,
esse ser-interessante acima da mendacidade.

Chegar nas horas de agonia,
vibrar com a ironia como se vibra com o incerto.
Temer as vírgulas e a distância e a heresia,
fechar os olhos para a ansiedade do que está
                                   [por perto.

Tenho idéias de verdade em jogo;
no meio do nada, idéias de verdade.
O que é o abaixar-se ao coxo?
A quietude ao plenamente são?
Idéias de verdade são o bojo da vitória
quando nascemos louros e assassinamos as
                                 [versões
para chegarmos à história.

Demasiada a glória de quem se torna o próprio dono
na vez em que o abandono foge e se esconde pelos
                                    [becos tortos.
foi tão simplório o vento pobre que beijou-me
                                       [a face,
um quê de ingênuo em seu próprio nojo.

Perco toda vez a percepção e a chance de abrir
                                       [janelas,
considerada a vida no que se vale à aposta,
e não me encontro nas vitrines belas
em que se perdem todos os tipos de resposta.

Para cada palavra, uma mentira provável;
ela, razão de que tudo aqui se escreveu
                              [sem ordem,
sem arte, sem se atender a um ideal
por aproveitar momentos vagos e incertos
                            [de uma pena.

Digo: guerra, paz, guerrilha, conflito armado
                                [ou apenas frio...
há garantia na voz rouca e triste
que nos deforma como um mar febril deforma as
                                        [ondas?
Bem... todavia somos um tanto quanto hereges,
E valemo-nos da concupiscência para ser um tema,
um acaso, uma foice a cortar o vácuo;
ser a cólera, o açoite, a repulsa,
o impulso, o puro franzir do sobrolho,
um fechar-a-porta da lascívia plena temendo
                                     [o frio,
tremendo agora.

Quem disse um dia que seríamos rascunhos
de uma obra inacabada num palco mal iluminado
a escolher os perigos, as mentiras, os tipos,
                                 [a plenitude?!
Escolher dentre o centeio a atitude de crescer
                                      [em meio
ao que não floresce! Ser algo de conflito
                      [que não mais padece,
vaso de flores outrora agoniadas na sublime,
              [vasta, virtual beleza aérea
dos céus por onde são desperdiçadas nossas
                                      [noites...

Mas aquilo que é lixo de estrelas e de almas,
na poesia é o simples incomum,
(aquém do eu, além do outro)
e perde força nas estrofes falsas, decadentes
por onde escrevo meus minutos.

E toda a noite já me conhece;
e tenho todo este sono do mundo por cima dos
                                  [meus olhos;
e o átimo de tempo mais versátil que o presente;
e cortejo o mundo com as mãos que tenho,
fazendo força à frente do meu estado de torpor
                                         [total.

Tento fechar meu dia, um mundo: um vale de lágrimas,
                               [ravina a se lançar
sem saber quando se chega ao fim.
A nós, filhos da terra; nós, que devemos amá-la,
essa puta dócil, singela, indiferente,
a nós desencantada, a nos ser recompensada...
tento fechar meu dia.

Sonho a loucura, sonho a lascívia. Sou assim,
                              [assim o quero.
Sou os muros enjoados de concreto,
o ar mais carregado de poeira,
as ruas da metrópole mais suja,
a beatitude na carcaça ali parada, imóvel,
                             [indiferente,
emaranhado de passado sem que volte a respirar.
E me pergunto:

Alguém está à altura do seu sofrimento?
Não há resposta. Há conflito nos céus,
na terra, nas vertentes dessa madrugada e
                                     [em nós...

Ah! Em nós!

Thiago Henrique Abrahão
[sine data]
 
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[última atualização: 15/11/2015]
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