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Seção Reflexões
 

a doença e os doentes

Pareço um doente, pareço algo diferente a quem vê – e só. De fato, vivo entorpecido, fora de um estado normal auto-sustentável. Mas compreender uma pessoa não é tão simples quanto olhar no espelho e apontar diferenças como o jogo dos 7 erros versão “n” preconceitos. Isso requer um mínimo de alteridade, e essa capacidade pressupõe uma vivência pessoal próxima e compatível com aquela a que se está tentando compreender – para julgar, claro. Se sou doente? A resposta é a mesma que um físico daria se questionassem se estou em movimento ou em repouso: poderia fazer a cortesia de explicitar maldito o referencial? Em termos de normalidade, posso me posicionar como um anormal – numa perspectiva apenas estatística, sem que isso implique, pelo menos a princípio, qualquer significação pejorativa. Anormalidade e doença são qualificações que usam critérios distintos, obviamente, mas somente em grau de abrangência. Se ser doente é depender de fatores externos para ser saudável, então todos são moribundos. Por outro lado, não faz sentido restringir a noção de doença à dependência do conteúdo de blisters. A indústria farmacêutica não define doença, e sim nossas necessidades, que são ouvidas por eles e em função disso se faz os reparos bioquímicos em cartelas para sanar um defeito que o é porque alguém o chamou assim, provavelmente porque o incomodava e o atrapalhava em algo. Portanto, é a moral que estabelece em que o conceito de doença se fundamenta – convenções sociais baseadas em probabilidades estatísticas e desvios-padrão do corpo total de uma população – e coloque-se na equação o conhecimento científico; mas quem dá a palavra final é a moral. Qual moral? A moral do rebanho, da maioria. A maioria é sempre o normal, o sadio, o correto, o exemplo, o referencial. Pois então alguém do grupo dos normais poderia ser, aos meus olhos, doente – mas apenas dentro de minha perspectiva pessoal. A minha normalidade que, aos meus olhos, é óbvia, não seria aceita como legítima, pois há uma divergência relevante dos padrões, e mesmo que isso não mude muita coisa propriamente, muda o meu rótulo. Nesta posição, a normalidade parece estranhamente diferente do que sinto como normal e os seus motivos freqüentemente me parecem sem sentido e irracionais. Se fossem uma minoria, eu diria que são doentes, mas as convenções e as boas maneiras vetariam essa minha acusação que abrange quase todos, as relegando a alegações de um doente. É o conjunto de características pessoais que culmina em nossos julgamentos e definições – que depois oficializamos e convencionamos para obter abrangência –, que podem nascer de uma auto-afirmação, de uma redefinição de padrões ou da interiorização do que o meio apresenta, que é o modo mais comum. Por exemplo, houve uma ruptura com a visão da maioria quando Nietzsche disse “Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade”. Foi um doente físico, sim, mas não um doente moral. Pois, então, adoto o ponto de vista mais conveniente e prático – não vejo nada de doentio em me valer dos fatores externos disponíveis para induzir e manipular minha biologia de modo mais adequado ao que considero importante ao meu bem-estar e aos meus objetivos, e pouco me importa se isso significa ser chamado de doente ou de anormal ou o que for. Quem nunca foi anormal por amor próprio que atire a primeira pedra onde preferir – e, se eu for o alvo, lembre-se que seu pensamento não pensa como eu penso, e a minha cabeça pode manifestar ideações vingativas e persecutórias (o que seria evitado por uma concentração plasmática adequada de diazepam). Quem sabe Jesus não foi um dos anormais pioneiros; se o “reino dos céus” é um estado de espírito, então o reino dos céus é um estado bioquímico. Se isso for verdade, um Valium deve nos deixar mais próximos de Deus que jejuar e orar.
André Díspore Cancian
21/11/2005
 
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