Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram


 
Seção Reflexões
 

caranguejos

Pensemos nas razões pelas quais se vive, começando por alguma situação cotidiana, para então desmontá-la até seus componentes mais básicos. Um indivíduo comenta: “Hoje peguei o jornal a caminho do trabalho, estava lendo-o e...”. O outro interrompe: “Por quê?”. Segue-se o diálogo:

— Para saber o que anda acontecendo pelo mundo.
— Por quê?
— Gosto de ser uma pessoa bem informada.
— Por quê?
— Porque assim me sinto apto a lidar com os problemas da vida.
— E para que serve isso?
— Para que consiga alcançar o sucesso que desejo.
— Para quê?
— Para que me sinta bem, realizar nossos sonhos nos faz felizes.
— E felicidade serve para quê?
— Para recompensar pelos esforços que fazemos em alcançá-la.
— Mas para que serve isso?
— Para tornar a vida boa.
— Mas ela não é boa?
— É.
— Então por que precisa fazer algo?
— Para ser feliz.
— Mas já não é?
— Sou.
— E então?
— Quero continuar sendo.
— Por quê?
— Porque ser feliz é bom.
— Por quê?
— Porque é.

A partir de determinado ponto, começamos a argumentar como caranguejos. Isso porque, se passarmos à linha de raciocínio de que a felicidade serve para a perpetuação da espécie, nossa argumentação pegará a tangente e cairá no sem-sentido do algoritmo genético. Por outro lado, para sustentarmos que devemos lutar pela felicidade precisamos argumentar com base na suposição de que ela pode ser entendida como um fim em si mesmo, mas não pode. Ela só faz sentido no contexto da vida como um todo, se entendida como recompensa pelas ações que levam à perpetuação da espécie, e acabamos de ver que esse contexto solapa nossa argumentação. Então, para escapar desse problema, ficamos presos à circularidade da vida por ela mesma, e essa é a razão pela qual qualquer argumentação em favor da vida incorre em petição de princípio. Vivemos porque viver é o que os vivos fazem.

André Cancian
2011
 
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[última atualização: 15/11/2015]
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