Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram


 
Seção Reflexões
 

communication breakdown e a poesia

Tenho a nítida impressão de que vou morrer sem nunca ter efetivamente trocado informações com outro ser humano. Digo informações no sentido subjetivo, não dados tabulares. Tudo que é único parece estar fadado à incompreensão – e muito é único em cada ser humano – e tudo que é convencionado para permitir a comunicação é de tal modo selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser voar que, no fim, não comunica nada além do que está no dicionário. Uma conversa interpessoal está muito mais para uma troca de impressões e expressões – como uma troca de imagens mais que de significados – do que para uma troca de informações; poderiam ser nerds trocando códigos de programação, mas estamos falando do que nos faz humanos, não do que faz computadores. Podemos dizer que entendemos o que outrem disse, mas nós nunca entendemos diretamente nada; nós interpretamos, decodificamos. Daí surge nosso entendimento que é uma aproximação que fizemos baseados em nosso imenso, vasto eu-mesmo. Se alguém diz que está triste, o que entendemos disso? Não vamos até a alma da pessoa e resgatamos seu sentimento e o transpomos ao nosso cérebro; tampouco ela o vomita por palavras ao nosso entendimento. Viramos ao nosso repertório de memórias e conhecimentos sobre a tristeza e baseados em nós mesmos fazemos a interpretação do que a pessoa deve estar tentando dizer – e como tentam... ainda bem que não serei psicólogo. Então, basicamente, para as miudezas da alma, cada qual é uma ilha, e só conversamos realmente por meio dos lugares-comuns, das convenções, de sistemas, de pontes conceituais. Como mais um pormenor que não é essencial à sobrevivência, a comunicabilidade do íntimo de cada ser humano está esperando uma chance de falar na fila dos neologismos. Por isso coloquei a descrição da seção poemas como “a arte de costurar abismos com palavras” – a poesia é tão bela porque parece vir como uma ponte que comunica algo indescritível. Veja só como a ilusão nos leva pelo nariz a acreditar em asneiras somente porque poetas sabem fazer truques gramaticais tão bem quanto um mágico tira pombos do bolso. Então não se dê o trabalho de esconder o que há em seu coração; ninguém vai descobrir, nem se você quisesse.
André Díspore Cancian
04/04/2006
 
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