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O pessimismo é considerado uma visão distorcida da realidade, vendo somente a negatividade em tudo. Pois bem, no que consiste essa chamada distorção? Ao meu ver, em deslocar o ponto central da visão de mundo fora do alcance de nossas necessidades pessoais. O que resta? Uma mera descrição da realidade – uma descrição onde somos tão importantes quanto aquilo que não nos importa. É essa sua negatividade – nos tirar de nosso pedestal, tornar o próprio umbigo relativo. Nesse sentido, o pessimismo não se opõe ao otimismo se consideramos este na sua acepção comum – que tudo dará certo simplesmente porque existimos, porque o mundo conspira para nosso sucesso e que dele já nascemos merecedores. Uma oposição real seria um pessimismo que distorcesse a realidade negativamente sem nenhum motivo – como dizer que se rolarmos um dado, este cairá mais vezes no um apenas porque somos destinados ao infortúnio, uma estupidez que o otimismo tem o direito de professar sem nenhuma censura – talvez com a única justificativa a ser encontrada no efeito placebo, que tem o direito à mentira porque funciona. Como o mundo da prática é considerado o mundo real por excelência, é compreensível que a veracidade das perspectivas seja mais pesadamente avaliada pelas suas conseqüências. O otimismo se introduz na vida humana por diversas razões estranhas que, no fim, se resumem ao bem-estar às custas de alguma falsificação. Mas quem pode realmente levantar objeções sérias ao bem-estar sem ser hipócrita? Somente os sacerdotes da realidade, que amam mais a verdade que a si próprios e fazem dela uma extensão de sua felicidade – os que perdem mais tempo pensando no viver que vivendo, que consideram o valor da vivência principalmente como um meio para atingir conclusões, para aprender. O que podemos inferir? Talvez que os pessimistas serão melhores filósofos e otimistas, melhores terapeutas, mas também que não há nenhum antagonismo radical entre estes se considerarmos que cada qual tem objetivos diferentes e que, para alcançá-los, adotam meios distintos. Para se lançarem à batalha, os guerreiros precisam se inflamar com toda sensação de segurança que conseguirem obter, não importando de onde – e para esse fim adotam o otimismo; os estrategistas precisam entender a segurança de fato para proteger os guerreiros de sua irracionalidade – e adotam o pessimismo. As duas óticas podem coexistir e retirar vantagem da especialidade da outra, mas não na mesma cabeça e ao mesmo tempo – o pessimismo refutaria o otimismo e este responderia: e daí?
André Díspore Cancian
20/08/2006
 
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