Paraíso Niilista – O Vazio e o Nada se encontram


 
Seção Reflexões
 

hipocrisia convencional

Apesar do apelo quase desesperado que se faz à honestidade como a única salvação possível à humanidade, mentimos o tempo todo, durante todas as nossas vidas. Negá-lo só contribuiria com mais um motivo para rirmos de nós próprios. Mesmo que nos custe admitir, o fingimento e a dissimulação são também pilares básicos da vida em sociedade, não apenas porque a mentira é útil, mas também porque é necessária dentro do esquema de fachadas sociais que somos obrigados a incorporar desde nosso nascimento. Por isso faz bem aquele que aprende a distinguir entre as necessidades reais e as necessidades sociais – isto é, a representação, numa linguagem cifrada e retorcida, que, em termos gerais, traduz as reais objetivamente, porém não com a ineficiência inocente de um tradutor automático, mas com a malícia de um advogado velhaco que precisa ganhar a vida. Tal consciência é importante porque diz respeito diretamente ao nosso bem-estar imediato, à nossa condição real, que está para nossa condição social como nossa felicidade íntima está para nossa cédula de identidade. Portanto, em relação à primeira, a mentira tem um efeito definitivamente pernicioso, e dificilmente alguém chega ao grau de insensatez de realmente descartar suas necessidades íntimas e reais em favor de meras convenções estabelecidas arbitrariamente. Isso é algo que não se aprende senão por si mesmo através da experiência e da reflexão. Os fatos reais e autênticos da vida, como cada qual realmente os sente e concebe, são uma espécie de tabu; não devem ser trazidos à luz publicamente; ficam ocultos em favor das aparências que, não obstante, todos sabem ser falsas – e, por isso, o embaraçoso assunto é evitado a todo custo. Por exemplo, quando algum sabichão afirmou que nosso salvador nasceu de uma virgem, não foi realmente isso que quis dizer; uma alegação desse tipo não é uma afronta ao bom senso e à ciência biológica, mas apenas uma forma educada de dizer: mudemos de assunto. É difícil apontar o culpado pela nossa necessidade tradicional de mentir; talvez os representantes dos idealismos cristãos que, ao alcançarem o poder, estabeleceram valores impossíveis como metas sejam, em parte, responsáveis pelo agravamento de tal fenômeno. Porque, com isso, a honestidade – isto é, tudo que concerne a nossa verdadeira humanidade – passou não apenas a ser uma segunda realidade menor, mas uma mentira, algo vergonhoso, indigno, que devemos esconder como se fosse um crime, e isso em favor de uma outra realidade que não apenas traduz mal nossas verdadeiras necessidades, mas de fato as calunia, as nega em favor de um mundo fictício – ou seja, valores que nos desumanizam. Por isso os deuses da mitologia grega, que refletem nossa natureza íntima, são tão preferíveis ao fantasma castrado forjado pelo cristianismo; por exemplo, pensemos em como conseguimos nos identificar intimamente com Dionísio, deus do vinho, Vênus, deusa do amor e da beleza, Marte, deus da guerra e da violência; isso acontece porque dizem respeito ao que efetivamente nos move enquanto seres vivos, ao que nos torna o que somos; foram concebidos para refletir e exaltar a natureza humana, não para falsificá-la. Pelo contrário, toda a metafísica cristã tem seu cerne na negação de si próprio e no culto de características doentias que buscam extirpar nossos instintos básicos e escarnecer nossa natureza; encontram sua expressão máxima no culto à castidade e à submissão, na resignação ante o mundo, no elogio do sofrimento – tanto que seu símbolo é um chandala ensangüentado e pregado a uma cruz. Diante dessa perspectiva, poderíamos supor que todo médico deveria ter o cuidado de precaver seus pacientes contra a prática insalubre de ser cristão; mas isso sequer chega a ser necessário, porque poucos são suficientemente tolos para realmente viver seus princípios, não apenas porque seriam miseravelmente infelizes, e é provável que acabassem internados num manicômio – ou num convento –, mas principalmente porque não conseguem os sentir sinceramente como algo íntimo e pessoal. Por isso permanece, como sempre foi, uma religião de fachada, algo que não deve ser praticado, mas apenas encenado; ser cristão, portanto, é apenas uma questão de discrição; em outros termos: se queres paz, te prepara para a farsa. Não obstante, seria errôneo culpar a religião pela nossa necessidade de mentir; pois é provável que não passe de um artifício inventado para tornar a mentira, se não desejável, ao menos digna de respeito. Como vemos no exemplo acima, depois de conviver algum tempo com tal sistema, apreendemos suas regras de modo indireto; intuitivamente, delineamos as fronteiras entre ambas as coisas – entre o real e o convencional. Uma explicação plausível para a existência dessa cisão tão radical entre o que somos e o que aparentamos ser aos demais pode ser encontrada em nossa própria natureza; no fato de que não é apenas inconveniente ser honesto sem reservas, mas que o ideal dessa honestidade não pode ser alcançado, pois é impossível fazer com que os demais apreendam nosso íntimo, e vice versa. Aquilo que em nós corre tão livremente não pode ser representado senão por símbolos convencionados que esvaziam quase completamente aquilo que está sendo comunicado; ou seja, mesmo com a mais franca honestidade a respeito de algo que sentimos, nas mentes dos demais, nossa explicação está para uma fotografia como o sentimento em si está para a paisagem original que, entretanto, não pode ser visitada. Como estamos inescapavelmente presos à sina de ter de viver em nossa própria pele e somos completamente incapazes de apreender o íntimo de outro ser humano da mesma maneira que sentimos a nós próprios enquanto seres subjetivos, eis que temos a primeira divisão da realidade: o eu como ente subjetivo e os demais como entes objetivos. É certo que somos capazes de alguma alteridade, isto é, de nos colocarmos, in abstracto, na situação de outro indivíduo enquanto ser subjetivo como nós próprios, mas isso, além de exigir algum esforço intelectual, dificilmente é empregado senão em nosso próprio benefício, já que é muito raro realmente nos preocuparmos com questões alheias para além do que parece desejável em termos de cortesia. Desse modo, numa interação interpessoal, desenha-se mais ou menos a seguinte situação. Temos dois indivíduos; ambos são seres subjetivos bastante conscientes de suas verdadeiras opiniões e motivos íntimos quanto a tudo que os interessa; na sua relação, todavia, só são capazes de alcançar a camada mais superficial um do outro, isto é, aquilo que se apresenta objetivamente ante seus olhos. Sendo que todo ser humano é única e exclusivamente egoísta, cada qual buscará sua própria satisfação através de jogos que exploram esse abismo do incomunicável, sem nunca deixar transparecer claramente suas intenções de modo escancarado; e isso também porque nosso íntimo é constituído de elementos tão mesquinhos e vis que dificilmente outro indivíduo conseguiria disfarçar a repulsa caso nos mostrássemos tais e quais – tanto quanto isso é possível. Não obstante, todos têm consciência desse caráter teatral da sociedade, e de bom grado se limitam a jogar com as aparências exteriores como uma espécie de linguagem maquiada e vaga que nos poupa de manipular diretamente as vísceras de nossa natureza. Talvez isso sirva para que sejamos capazes de suportar a vida em sociedade sem azedar o estômago a cada conversa. Vejamos um caso hipotético que ilustra tal fenômeno educadamente. – Um indivíduo acorda ao som do despertador vagabundo e infernal que ganhou de um amigo, mesmo que na época tenha dito que adorou o presente com um sorriso que ambos perceberam ser falso e, por polidez, mantiveram silêncio. Vai até o banheiro, escova os dentes, não porque se sente maravilhado pela sensação refrescante do creme dental, mas porque sabe ter hálito terrível, e isso muitas vezes já lhe causou constrangimentos. Faz a barba, penteia o cabelo, passa o gel, o desodorante etc.; defeca anonimamente enquanto lê os acontecimentos interessantes no jornal para que tenha algum assunto sobre o qual conversar caso encontre algum conhecido com quem não tenha nada em comum. Veste seu uniforme de trabalho e caminha até o ponto de ônibus. Enquanto espera, um velho colega passa de carro e lhe oferece carona até o trabalho; mas recusa e diz que infelizmente já combinou tomar o ônibus com um amigo, sendo que na verdade apenas não suporta a companhia desse indivíduo, e disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça para evitar meia hora de conversas incrivelmente enfadonhas e vulgares sobre suas dificuldades pessoais e sobre o quanto está sofrendo por ter sido abandonado por sua esposa. Sendo que já havia inventado dezenas de desculpas esfarrapadas com o mesmo propósito, o conhecido diz “tudo bem, parceiro, fica para a próxima”, e continua dirigindo enquanto pensa “esse imbecil é orgulhoso demais para aceitar sequer uma carona”; “até mais, e obrigado mais uma vez”, responde, enquanto olha aos lados fingindo procurar o suposto amigo que tomaria com ele o ônibus, até que o carro saísse de sua vista. Suspira aliviado por ter driblado o inconveniente de alugar seu ouvido com asneiras que não lhe importavam, e logo vê chegar o ônibus que esperava; levanta-se, sobe os degraus, se acomoda numa cadeira e desaparece rumando a mais um dia previsível em que terá de suportar em silêncio os desmandos de seu patrão. O desconhecido que sentava ao seu lado enquanto tal fato ocorria aparentava desatenção, mas, para aliviar o tédio, acompanhou tudo que sucedeu e, vendo que não chegou amigo algum para acompanhá-lo, pensou consigo: “tempo perdido; se ao menos houvessem discutido teria sido mais interessante”. Esse tipo de acontecimento banal e corriqueiro é algo que sequer consideraríamos hipócrita; como não causa prejuízo algum, não vemos isso como uma mentira, mas somente como um modo de nos esquivarmos de inconvenientes pela lei do mínimo esforço. O fato é que, se fôssemos obrigados a dizer a verdade ante cada situação incômoda, provavelmente viveríamos numa guerra perpétua motivada por banalidades que, talvez, para nós, sejam coisas realmente insignificantes, mas que, para os demais, podem representar uma profunda ofensa à vaidade pessoal – algo que certamente tratarão de vingar. Arriscar nossa integridade física por amor à verdade de que o penteado do indivíduo com o qual conversamos é ridículo não é algo socialmente inteligente; então, para todos os efeitos, nunca vimos um corte tão moderno. Como se vê, mentimos ou revelamos a verdade parcial ou integralmente na medida de nossos interesses pessoais. Por tal razão, convém não levarmos muito a sério aquilo que os demais pensam a nosso respeito, visto que nunca se sabe quanto há de verdade naquilo que é dito; e, mesmo que fosse realmente sincero aquilo que se diz, ninguém tem acesso direto ao objeto ao qual se refere a observação, exceto nós próprios, caso já nos tenhamos iniciado no conhece-te a ti mesmo. Quantas vezes a confissão mais íntima e sincera nos choca completamente não pela sua verdade, mas por quão completamente erra o alvo. Isso evidencia como é difícil chegar a ter uma noção razoavelmente clara do que há no interior de cada um, especialmente se não formos a pessoa em questão. Em contrapartida, não há método mais confiável para arrancar a verdade de alguém que enfurecê-lo até que se descontrole e use tudo aquilo que pensa como arma. E isso é realmente algo interessante do ponto de vista estratégico, desde que já tenhamos nos habituado a uma absoluta honestidade para com nós próprios, de modo que uma verdade dita a nosso respeito, mesmo incômoda, não possa nos enfurecer igualmente e fazer com que percamos a vantagem. Pois, se algo é verdadeiro, não há por que levantar protestos contra a verdade; e, se algo é falso, não há por que nos incomodarmos com algo que não se aplica a nós. Nisso vemos um exemplo da importância de discernir entre a verdade de fato e as meras aparências. Constatando quanto há de oco, enganoso e baixo em todas as relações entre os indivíduos, percebemos como é prejudicial ao nosso bem-estar alimentar uma noção equivocada da natureza humana e das relações entre os homens. É comum imaginarmos que nós próprios estamos, por assim dizer, do lado de fora do teatro, especialmente quanto se trata de nossas relações mais íntimas. Mas esse é um tipo de ilusão ingênua que melhor fazemos em extirpar nós próprios, com o cuidado de nos ferirmos o mínimo possível; do contrário, será eventualmente desmentida por um infortúnio que nos devasta completamente sem a menor piedade. Sem dúvida, cultivar noções ideais sobre a integridade e honradez dos indivíduos é um dos melhores modos de nos decepcionarmos; o máximo que, com sorte, podemos esperar encontrar é um equilíbrio justo na exploração um do outro, ou seja, um relacionamento saudável. Assim, não devemos supor que encontraríamos no íntimo dos indivíduos o mesmo que exibem em seu comportamento exterior. Com isso nos acostumaríamos a tomar por verdadeiras fachadas teatrais, adotando como desejáveis noções completamente convencionais que, com razão, fariam com que nos sentíssemos diferentes, deslocados e solitários. Ao julgar a questão, ao tentar discernir entre o autêntico e o afetado, é mais prudente tomarmos a grande diferença entre o que somos e o que exibimos aos demais como referência, pois é provável que façam o mesmo e com a mesma malícia, ainda que essa idéia nos repugne por lançar por terra todas as nossas idéias poéticas e delicadas sobre a amizade sincera – isto é, onde todos são idiotas e apenas nós temos o direito de pensar uma coisa e dizer outra.
André Díspore Cancian
[29/05/2008]
 
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